bem, pronto

Deixo aqui um comentário que fiz numa discussão sobre isto com um amigo, vale o que vale e por mim está o assunto arrumado, só editei algumas coisas

«Eu também interpretei como exercício cómico. Não acho que seja isso que esteja em causa. Reagiria exactamente da mesma forma se alguém caracterizasse de forma preguiçosa os gays que adoram abba, os pretos que roubam, os padres que são pedófilos, as loiras que são burras e os pais que andam à beira de um ataque de nervos porque têm filhos que são diabos da tasmânia on steroids. Aliás, acho que o a crónica também é imbecil na caracterização do “não-pai” que parece ser uma pessoa cuja existência se resume a ir ao cinema, bares, ler, restaurantes…. Se o cliché é batido, a exigência aumenta, é preciso algo de bom para sustentar. Ao problema do exercício cómico em questão ser uma sucessão de clichés pouco imaginativos soma-se o problema de serem mal escolhidos, não universais e minarem o objectivo (e isto é especialmente visível para quem é alvo da caricatura, visto que os pais já foram não-pais e vêem os 2 lados, os não pais só podem ver um lado) Se fosse um texto pessoal sobre ela e os filhos dela era uma coisa que poderia ter piada, intimista. Ok, os filhos dela mexem no pequeno almoço dela. Ok, os filhos dela é que a acordam, não é ela que os acorda para os levar para a escola. Ok, os filhos dela estão sempre no pediatra e ela deixou de ir ao cabeleireiro. Ok, ela ia ao cinema todos os dias. Ok, ela teme as sextas feiras. Parece que a autora não teve capacidade para se distanciar da própria experiência que pelos vistos é ultra-mega-caótica e escreveu generalizações que, infelizmente, vão recair sobre mim e não gosto pá. É como eu ser preto e um preto que goste de abba escrever uma cena a dizer que os pretos gostam de abba e todos os brancos se rirem à brava. Bolas. Que dissessem que eu gostava de roubar, está bem. Mas gostar de abba? Não. O  E.V. falou na questão do pequeno almoço (tb não percebo em que medida a minha filha interfere no meu pequeno almoço?), podia acrescentar outros. A questão das esplanadas. Supostamente pessoas sem filhos vão a esplanadas e pessoas com filhos não. Eu tenho a impressão que basta observar o Parque das Nações, Bica do Sapato, Belém, etc. para ver que as esplanadas são o meeting point de eleição de pais com filhos, onde os exibem uns aos outros e os deixam a correr enquanto fumam e bebem café. Eu só como caracóis se tiver esplanada para a minha filha poder andar a comer pão e a largar as migalhas e pão mastigado no passeio e fazer o chavascal à vontade que os pardais comem tudo. Restaurantes. Supostamente, como pai, como no primeiro que me aparece à frente porque tem cadeira e antes não era assim, preocupava-me com o preço, com a comida, o chef, a localização…. Não entendo. Agora que sou pai é que entro no primeiro que me aparece à frente? Porquê? Para além dos meus gostos continuarme iguais, acrescento ainda outros filtros adicionais ou dou ainda mais importância aos do passado (exemplo: o preço, porque há menos dinheiro disponível). “demora muito? é muito caro? tem espaço para o carrinho? é intimista e romântico ou é child friendly? fuma-se lá dentro? tem muito barulho? está demasiado quente? o ar condicionado está a bater nela? há comida para crianças?” etc. Pronto, em resumo é isto»

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2 thoughts on “bem, pronto

  1. Não sei se devias arrumar o assunto. Tens toda a razão quanto à futilidade da crónica para que linkavas. Mas a ‘dicotomia’, seja ela real ou forçada, precisa de ser analisada, até pelas consequências que vai provocando em termos políticos (e não é só a fiscalidade) – e repara que não estou a dizer que o texto dela o fazia.
    O que me faz impressão no teu comentário que aqui transcreves é que me parece que aceitas a existência de uma categoria ‘trabalhável’, do ponto de vista da análise, que se designa por ‘pessoas com filhos’ – mas toda a tónica da discussão, até agora, tem sido absolutamente ‘burguesa’ (nem podia ser de outra forma, num blog), desde o texto no Público até à tua reação: a categoria em causa tem sido, com efeito, a de ‘jovens profissionais com filhos que usufruem de um rendimento médio, médio-alto’. É isso que eu acho mais acintoso no texto do Público: é certo que também não desperdiçarão os 1,20 euros no jornal mas já imaginaste quantas ‘pessoas com filhos’ e quantas ‘pessoas sem filhos’ se sentiriam humilhados, nos tempos que correm, com critérios de distinção como a escolha de restaurantes ou as idas ao cinema?

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