não está arrumado

Já percebi pelos comentários nas redes sociais que muitos pais também se identificam com a tal crónica, por isso, já não digo nada, devo ter uma sorte enorme com a minha filha e os meus amigos e casos que conheço também são sortudos e não são mártires. O que me aborreceu foi mesmo não ter piada ou interesse e ter sucesso, do mesmo modo que me aborrece as pessoas e grande parte da crítica adorarem o Breaking Bad, os The National e o Big Bang Theory. Mas tenho (ainda) amigos que gostam de uma destas três coisas ou mesmo duas (nunca fui amigo de alguém que somasse estas 3 acho eu).

Quanto ao tema em si, posso dizer que neste parágrafo, antes de escrever “tema em si”, depois de “big bang theory” tive de parar 2 minutos porque a Júlia começou a chorar e ao jantar, teve uma birra épica e recusou comida e um biberon e está toda ranhosa de uma constipação e fui lá ouvir à porta. Já parou. Continuando, dizia que as três grandes alterações são estas: tempo, dinheiro e, ligadas às duas primeiras, as prioridades. É basicamente isso. Podem construir 500 clichés com isto.Qualquer pai fica com menos tempo e dinheiro disponível para o que gostava de fazer antes e as prioridades podem ficar trocadas em várias ocasiões. Somos a mesma pessoa.  Não é de todo, a meu ver, esta dicotomia de “sofre-se imenso mas vale a pena pelo amor deles” e muito menos o switch tchanan de ver o bebé na maternidade e te de repente uma revelação divina e largar as drogas e sentir-se pai. Não é assim: click. Há muitos pais que dizem isto mas a meu ver estão a falar para eles próprios, inclusive quando exageram o quão difícil é.

Acho que os primeiros meses não são representativos do que vem depois. Eu não vou escamotear que tirei a licença de paternidade toda e que alguns desse dias foram dos mais duros da minha vida por a A. estar a ter uma peça de teatro importante. E que nesse período fui submetido a um teste psicológico extremo e que a A. quando chegava a casa, esgotada da peça, me encontrava a mim esgotado mentalmente, às vezes em estado catártico e lhe passava o bebé à pressa, tinha sentimentos mesmo muito conflituantes, do género “já não a posso ver à frente” e ia-me deitar, pois durante 3 horas tinha sido submetido a uma tortura que envolvia ela ter fome e não pegar no biberon e por isso ter mais fome e berrar. E não adormecia. A A. chegava, dava-lhe de mamar e puff, ela acalmava, ia dormir como um anjo durante umas horas e eu ficava frustrado, sentia que não consegui dar-lhe o que ela precisava. Dos muitos sentimentos que se atribuem (e não duvido disso) à depressão pós parto, eu revi-me em vários. Pobres mulheres que em cima disto levam com o cocktail de hormonas, o corpo magoado e coitadas daquelas que sofram privação de sono, o que connosco foi raro.

Mas… não é assim tão duro. Acho que muito do “burn out” paternal com filhos vem do resto… Quando leio crónicas de pais que se queixam do caos que os filhos causam (li este este excelente testemunho da Rititi com que me identifico pois o deitar da minha filha é assim, largo-a no berço e vou-me embora) o que sinto é que temos stress por outros motivos. Exigem-nos que tenhamos empregos exigentes, carreiras, vida social, vida romântica etc. etc. e por cima disso, sejamos pais modelo como vem nas revistas, nos talk shows. Acho que se temos stress no trabalho ou numa relação, os filhos tendem a ser o elo mais fraco, o fim da cadeia. Como o nosso tempo fica reduzido, não temos grande espaço de manobra. Temos – a meu ver – de colocar o ponto de vista deles como a verdade e as nossas regras como abstracção, porque o deles é mais natural, mais próximo de uma lógica instintiva que é apesar de tudo mais correcta e natural do que o emprego das 8 horas por dia (já nem digo mais) que nos rouba tempo para termos tempo para eles. DEvo dizer, voltando à tal malfadada crónica, que me enervou especialmente o “temer as sextas feiras”. Eu por acaso adoro os sábados de manhã em que podemos ver os bonecos juntos depois do pequeno almoço em vez de ter de ir  correr metê-la na creche.
 

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2 thoughts on “não está arrumado

  1. Bem relativizado. Há que ter em mente que, para a humanidade, ter filhos é um hábito tão velho como o cagar – ainda que pareça ser mais fácil aprender a manusear o papel higiénico que sistematizar quaisquer ‘boas práticas’ de puericultura…
    Suspeito que o tema vá regressando com cada vez maior regularidade: as ‘pessoas com filhos’ estão a deixar de ser o emsagador padrão numérico da ‘normalidade’ que foram em tempos. É possível que se vão sentindo um tudo-nada acossadas e com necessidade, de tempos a tempos, de uma bengala que justifique perante si mesmos a escolha/opção/sacrifício feito.
    Eu, sem filhos, fico grato pelas crianças dos outros: é provável que venha a precisar de alguém mais jovem para me algaliar, daqui a uns anos…

  2. há dois tipos de pessoas que me irritam profundamente pelo mal que têm feito à humanidade, e esta conversa da treta à volta dos filhos prova-o perfeitamente: as pessoas com filhos e as pessoas sem filhos.

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