martelinhos

Ultimamente tenho visto brinquedos com aquela estética de madeira retro que parecem saídos dos anos 60 e 70.  Na minha leva de brinquedos que veio da Bélgica comigo em 1981, incluiu-seuma coisa destas que agora vejo em várias lojas (de outras marcas, mas o princípio sofisticado é o mesmo).
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Não sei se em Portugal este brinquedo é novidade, pois cresci na província e o que nós tínhamos no início dos anos 80 era carrinhos de lata, bolas de trapos, espadas de chouriça endurecida, sacas de sarrapilheira, cães, tripa de porco para fazer balões, linha de coser e cola tóxica e sapatos para arranjar, carrinhos de rolamentos, bota botilde e, quando vinham os comunistas da cooperativa ameaçar a capela, enxadas e forquilhas. Não existiam cá os brinquedos didáticos de inspiração sueca e alemã que explicam o sucesso do modelo nórdico e o facto dos portugueses terem desenvolvido outras capacidades, como a de pedir dinheiro emprestado aos nordicos, fingindo que se é bom aluno deles para que nos perfilhem. Acho que parte do sucesso nórdico advém deste brinquedo . Eu certeza que brinquei com isto com três anos de idade. Pregos afiados, um martelo pesado e plaquinhas de madeira. Era o brinquedo mais disciplinador que já tive e quase fiquei nórdico. Guardo dele a recordação de perceber que há coisas que não se deve fazer, como segurar um prego contra a unha do  dedo grande do pé e dar-lhe uma martelada a ver se fura. Ou esquecer-me de um dedo entre o martelo o alvo do mesmo, repetidamente. Ou que se tentarmos encaixar as peças umas por cima das outras à martelada, sem pregar no buraco do meio, elas acabam por rachar todas e partir. E que não adianta experimentar outra e outra vez até todas as peças estarem partidas porque depois é muito mais difícil encaixá-las. Ou que não é boa ideia pregar outras coisas à placa de madeira, como uma fatia de queijo, brócolos ou o ecrã de cristais líquidos do relógio digital do pai. E que não é boa ideia pregar as pecinhas à mesa da sala de jantar. Este brinquedo não se me adaptou bem ao contexto português, digamos assim, e deixei de brincar com ele, em parte por isso, em parte porque desapareceu de casa misteriosamente pouco tempo depois de chegarmos cá. Não há dúvida que assistir ao regresso deste clássico em 2015  – que vou obviamente adquirir para a minha filha – é um sinal de que vamos no bom caminho e que se calhar não é preciso esperar até 2045 para vermos crianças com iPads.

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2 thoughts on “martelinhos

  1. Espero que traga uma declaração escrita pré-preenchida, a que as crianças de três anos deverão apôr a impressão digital do polegar direito, isentando a HABA de quaisquer responsabilidades por danos e ferimentos.

    Enfim; facécias…

  2. olha que fixe. Eu gostava de saber se ainda há à venda o melhor brinquedo que tive que era uma caixa com montes de peças em madeira, em forma de paralelepípedo com umas fendas nas pontas para encaixarem umas nas outras e com que se faziam as casas de madeira (nórdicas, claro, ficavam sempre parecidas com salas de sauna) mais espectaculares de sempre, com telhado e janelas e tudo. Não era um brinquedo português, foi trazido de alemanha.

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