tough love?

Alguém viu o documentário sobre o Camp Consequence, um campo  de reeducação de miúdos problemáticos nos EUA (chamam-lhes “strong willed child” ahahha)? Onde vivem uns tempos em regime militar e os pais, num campo ao lado, são educados para serem mais assertivos? Não encontro, deu na Sic Notícias… aqui um link para um artigo sobre o tema no Dailymail

Bem, no início fiquei assustado, pensei que fosse uma seita, mas depois disso achei bastante positivo o conceito. As imagens de alguns putos a chorar não me comoveram. Eram terrores em casa, na escola. Se os pais os metiam ali é porque não tinham eles próprios capacidade ou jeito para impor qualquer severidade e delegavam isso. Também se submetiam a um empowerment, a ganhar confiança para evitar conflitos e serem mais assertivos. Pareceu-me bem. Acho mesmo que parte dos problemas surgem porque os pais são ausentes, seja pelas vidas modernas de carreiras, conformismo, divórcios litigiosos e, em casos da reportagem, pais na prisão.

Acho pode não estar no feitio de uma mãe solteira ou de certos pais acalmar os ímpetos de um miúdo ou adolescente que simplesmente não obedece. Os casos falavam de casais desesperados, miúdos expulsos ou em vias de serem expulsos da escola e transformavam a vida em casa num inferno. De acordo com a peça, falta muitas vezes a esses miúdos a figura  autoritária.

Acredito no poder que pode ter uma figura assim . Se não existe em casa, pode ser um professor mais duro, um treinador de um desporto, um chefe, um oficial do exército, um avô, um amigo… tem de ser alguém  que o puto tema e respeite simultaneamente, um modelo, para começar a ter princípios que possa estabelecer noutros contextos. Para mim seria impensável, no caso de ter um filho de feitio difícil, delegar em outrem a disciplina do mesmo. Nem que eu me metesse no jiu jitsu com o mesmo ímpeto como me meti na corrida, só para lhe aplicar sucessivas chaves imobilizadoras até o cansar e podermos finalmente estudar a lição de matemática. Felizmente tenho uma filha que, espero eu, não tem grande força física e será por isso fácil de manietar e levar ao ombro, se me fizer uma birra em frente aos amigos à saída da escola.

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12 thoughts on “tough love?

  1. Eu vi essa merda.
    E lembro-me perfeitamente daquela mãe a proferir essa expressão, tough love. Mas acho que isso está um bocado longe do tough love. Quando os meus putos me levam à loucura e me transformo num monstro, faço-lhes cara de mau e levanto a voz ao tom que temia no meu pai, completamente fora de mim, por vezes sai uma palmada no rabo sem hesitações, e os levo para o quarto de luz apagada a dizer que agora estão de castigo e eles ficam lá a chorar (raramente fazem os dois asneira ao mesmo tempo, por isso estou a falar de cada um isoladamente), aí sim, é tough love, porque ainda estou a fechar a porta do quarto e já me arrependi e sinto sempre que exagerei mas sei que não posso voltar atrás porque é para o bem deles, estabelecer os limites que eles estão a procurar, e vai ser contraproducente. Quando volto lá para os ir buscar eles abraçam-me e eu sinto-me uma merda de pessoa pelo que lhes fiz e abraço-me a eles como uma criança arrependida. Difícil é eles levarem-te a um ponto que não sabias que tinhas, descobrires os teus próprios limites enquanto tentas ajudá-los a estabelecer os deles, e pensares constantemente que estás a fazer merda irreparável na formação de um ser humano.

    O tough love, parece-me, é ter que fazer isso pelas próprias mãos. Aquelas pessoas delegam, basicamente é uma decisão momentânea que lhes custa tomar, não é uma acção continuada de educação, amor e dúvida. Aliás, acho que concordas que aquilo era difícil de ser aceite numa sociedade como a nossa, apesar de existirem alternativas como o Colégio Militar ou um internato de freiras, e não digo que uma educação com esse nível de disciplina seja completamente incompreensível, simplesmente não é para mim. Mas traumatizar os putos com aquelas bestas a entrar pela casa adentro e tratá-los como criminosos, aquele sentimento de que são intrinsecamente maus e agora vão aprender que a sociedade só gosta deles obedientes e vai subjugá-los, parece-me um bom caminho para formar psicopatas. Os próprios instrutores me pareceram psicopatas que encontraram a vocação.

    Claro que acredito no poder dessa figura autoritária (há quem diga paterna), que até pode ser uma avó. Há autores que relacionam isso, por exemplo, com a sexualidade da criança. Há quem atribua a homossexualidade ao “inconseguimento” (consegui usar esta palavra!) de um filho em atingir o ponto de vista do pai, por ausência ou pouca relação (que olha para as mulheres, que é olhado pelas mulheres), em vez de ficar a olhar para ele ou para outros homens com admiração como todos os putos olham durante os primeiros anos. Esta teoria é um bocado datada e politicamente incorrecta, claro. Mas há outros sentimentos quando falta essa figura, além de não haver quem desenhe o limite, há o sentimento de abandono, de rejeição, de injustiça de outros terem o que ele não tem, uma família funcional, enfim, todo um cabaz de Natal que pode ser exponenciado quando a pouca família que tem o manda para uma coisa daquelas para sofrer, já que ele nunca sai de lá a gostar daquilo, parece mais um sistema punitivo em vez de um sistema de correcção.

    Mas admito, talvez uns tabefes de um paramilitar quando eu era puto não me tivessem feito mal.

    1. Epá, revejo-me no que escreves. A minha filha mesmo em bebé nos meses em que tirei a licença conseguiu levar-me a provações psicológicas que eu nunca tinha vivido. Por isso admito completamente essa permanente ambiguidade de fazer algo mas não ter a certeza de que é o ideal, agir por impulso….
      penso que o lado positivo daquele Camp Consequence é trabalharem também os pais, não era só os miúdos. Preparavam os pais para os dias seguintes. Se resulta ou não, o documentário não mostrou.

      1. Não sei se é possível mudar a relação entre pais e filhos por educação de técnicas de controlo, as personalidades dos pais é que ditaram aquela evolução desequilibrada, mas um bom sintoma de que aquilo pode não resultar é que aquele miúdo que não saía da cama estava lá pela 3a vez, segundo percebi.
        Quanto às provações psicológicas, ajuda um bocado lembrar que um dia eles vão ser adolescentes e fazer-te sofrer a sério, isto agora é piners. Daqui a uns anos vou ver este documentário com outros olhos.

  2. Lamento destruir eventuais ilusões. Eu tenho uma filha. E um filho. A filha leva-me à loucura. É só isto. Agora a sério, é complicado ser assertivo, disciplinador de uma forma equilibrada, quando se teve um dia de cão no trabalho, há problemas graves de saúde com familiares próximos e a nossa vida não se resume apenas a educar os nossos filhos. Eu não desisto, isso nunca, mas dá muita vontade. Deixar de nadar e deixar ir na corrente. No fundo é como dizia Marçal Grilo: “o difícil é senta-los”

    1. o meu conhecimento nisto é teórico… Aliás, sempre será, visto que cada caso é um caso. Tenho total empatia com pais que tentam, que se irritam, que se arrependem, que se fartam, que discutem… Tenho a teoria de que pais ‘imperfeitos’ preparam os miúdos para lidar com coisas imperfeitas, isto, claro, se as imperfeições não “partirem” coisas. Penso que um filho é uma coisa um pouco independente de nós, isso por vezes é desconcertante. Espero conseguir manter-me descontraído e relaxado, mesmo nas ocasiões de conflitos disciplinadores, mas não prometo nada nos dias de cão :\

  3. Agora vou deixar um comentário à velho do Restelo: Para onde vai este mundo? Qualquer dia estes norte-americanos até subcontratam alguém para dar carinho e atenção aos filhos.
    Os miúdos são todos diferentes. Os pais são diferentes. Toda a gente faz porcaria de vez em quando. Descomplique-se.

    1. tu és abençoada com várias coisas, com os filhos que tens, com o teu feitio e do teu mais que tudo. Acredito – já vi – que haja casos extremos em que há pais que não têm mesmo competências emocionais para lidar com os filhos e filhos que sejam mesmo pestes! Já vi casos de irmãos, mesmos pais, um é calmo, o outro é um terror, está 100% do tempo a fazer merda, ao ponto de eu ter pensado “se fosse meu filho, metia-o num campo de correcção!”

  4. Realmente, para onde vai este mundo? Um post que soa a “tenho uma certa pena que a minha filha não seja um filho para eu lhe dar umas boas malhas”, comentadores que não querem ser pais ausentes para que os filhos não sejam homossexuais… Registo, com agrado, que também a nova geração de geradores navega à vista na arcana arte de educar.

      1. Não se zanguem, o Vareta estava a ser irónico à maneira lá dele e que é irritante é, mas ele como pessoa é um amor. Excepto quando bebe bebidas alcoólicas o que infelizmente acontece frequentemente. Group hug 🙂

  5. Costumava ver o Brat Camp na SIC Radical que é mais ou menos a mesma coisa. Os americanos não são modelos de parentalidade, e na dúvida, resolvem tudo a diazepam.

    Tive duas figuras autoritárias em puto e que em nada contribuíram para o desenvolvimento da minha personalidade, tampouco na forma como oriento a minha parentalidade.

    Distribuo mimo na exacta medida em que deixo de lhe falar quando se porta mesmo mal. Ainda está na fase em que isso resulta. 🙂

    De permeio tento sempre resolver as coisas conversando. Para já tem resultado.

    O Diazepam tomo-o eu.

    1. tudo o que tu és resulta também dessas figuras, é impossível não terem contribuído, nem que seja por oposição, um “eu não vou ser assim com filhos meus” 🙂 Comigo é um pouco isso, há uma filtragem. Há coisas que me fizeram que eu tenho pânico de fazer à minha filha (ou a um filho ó shô Vareta!) 🙂 Mas tudo o que sou devo-o em parte a essa experiência e acho que tu também 🙂 Fico mais confiante depois de ler que consegues conversando, tenho essa esperança, quiça utópica… para já fico pasmado dela me obedecer sem hesitação a todas as ordens que lhe dou, apesar de ter um feitio tremendo.

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