vencer, perder

Criticar certas coisas é tão útil como criticar os dias de chuva no inverno. Mesmo assim, vamos lá.

Tendo em conta que por profilaxia já não leio conteúdos de imprensa generalista, sobram as parangonas e a consciência colectiva dos blogues e facebooks que as replicam.  Sofia Lisboa, vocalista dos Silence 4,  lutou e venceu o cancro. Isto multiplicou-se em toda a imprensa e muitas redes sociais. Lutou e venceu, sai livro, nunca desistas. Recordo-me de Duarte Lima também ter lutado e vencido a leucemia e no caso dele,  foi a fé que o salvou. Disperso-me. Obviamente que fico feliz e tenho empatia pelo caso de Sofia Lisboa. O meu problema é com a escolha de palavras e a forma como a sociedade (a sociedade saudável ou os que venceram e metem um livro nos escaparates) vê estas coisas. E o António Feio? Lutou e perdeu? E a menina Nonô? Derrotada? Desistiram? Morrem 24 mil portugueses com cancro todos os anos. Perderam? Tinham menos fé? Menos vontade? É que se uns vencem o tal combate, temos de assumir que outros perdem.

O termo correcto devia ser sobreviver a um cancro, como dizemos sobreviver a um desastre de viação ou naufrágio. Sobrevive-se, um dia de cada vez, entregue a uma rotina e tratamentos a que se é sujeito, tendo espaço para intervir em certas coisas, como seja ter um estado de espírito positivo, seguir as recomendações, tentar, vivendo entregue à sorte, ao destino, às estimativas dos médicos.  Isto por respeito e verdadeira empatia com os que não sobrevivem e as suas famílias. Parece que em cada doente oncológico famoso ou interessante do ponto de vista dramático (uma criança sorridente e bem disposta) a sociedade “saudável” projecta uma falsa empatia, uma fantasia em que é preciso ter um mindset e uma atitude certa, a que eles teriam, a que os seus teriam, para não perder o tal combate.

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4 thoughts on “vencer, perder

  1. Fico chocada com a grande crueldade que é carregar nos ombros dos que “perdem”, e respectivas famílias, a responsabilidade de não ter acreditado e lutado o suficiente. Caramba, como se não bastasse o resto. Mas, lá está, fico chocada com toda a mediatização destes casos, seja qual for o desfecho.

    1. Quanto à mediatização, acho-a um pau de dois bicos. Embora o sensacionalismo seja sempre mau, pelo menos mostra que o cancro existe, o que faz, o drama que é. Sendo algo cuja investigação para uma cura depende em boa parte de apoios públicos e até donativos ou ong’s, acho importante que haja uma sensibilização com rostos conhecidos e não apenas com “números” que não dizem muito até nos tocar a nós ou amigos e familiares.

  2. É como a história do pensamento positivo. Quantos não carregam a culpa de não melhorarem apesar dos seus esforços de pensarem no melhor e de comerem melhor.

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