marmita

Digo sempre que vou começar a levar marmita para o trabalho, mas acabo por não levar quase nunca. A minha hora de almoço é sagrada e gosto da pausa de uma mesa de restaurante. A imagem de homens de fatinho de pé ao balcão de snack bars da baixa e do centro e aquelas mulheres que aguentam um dia com uma sopa e uma fatia de quiche, é uma coisa que me arrepia.

É um facto que a diferença de preço é abissal, mas se a questão é poupança, temos a marmita, uma coisa que, temos de reconhecer, não é tão comum cá como noutros países e não é, obviamente, pelo nosso espectacular nível de vida. 4 em cada 5 vezes almoço em tascas com menus de custos controlados (não falamos do universo do camarada Pipoco). Como o meu pernil de porco e a minha entremeada com o pessoal das obras, taxistas, polícias e restantes pobres e excluídos da sociedade portuguesa, uma gente que, de resto, consigo evitar razoavelmente bem no resto do dia (excepto quando quase me atropelam na estrada). Contudo, acabo muitos desses almoços exausto devido ao barulho intenso que o povo produz, especialmente quando há jarros de vinho vazios na mesa e digestivos de “receita caseira”. São sítios que por serem bons e terem preços competitivos  se tornam muito frequentados, agitados, barulhentos e apertados. É quase sempre um alívio quando saio para a rua, a excepção ocorre quando estou a ler um livro de Dostroiévski ou Steinbeck, autores cuja leitura beneficia de um pano de fundo semelhante.

Agora com um prático bebé (e o IVA dos restaurantes a 23%)  vejo-me, por um lado, muuuuito mais apertado de dinheiros, por outro, a preparar certos tipos de comida que se adequam melhor às suas necessidades bebélinas e que se adaptam melhor à prática do marmiting, podendo até ser deglutidos à temperatura ambiente, dispensando o microodondas. Podem também ser comidos com as mãos ou uma colher de silicone macia, o que é extramente prático. Ontem, por acaso, tinha sobrado uma misturada de massinhas com ervilhas e foi só pegar numa lata de atum com azeite e já está, almoço. Hoje fui pôr o prático bebé na creche e, claro está, esqueci-me da marmita. Hesitei, mas voltei de propósito a casa buscá-la, senti-me muito determinado e eu quando me determino, determino-me.

O que sempre me incomodou um pouco na questão da marmita, para além da minha preguiça e falta de planeamento (implica desde a compra de ingredientes para receitas adequadas ao marmitage, a respectiva preparação atempada, limpeza atempada da marmita), foi o problema do “onde comer” Depois de duas ou três experiências, voltei sempre à tasca, às vezes até ao kebab. Não consigo comer na copa dos escritórios. Muito menos no local onde estou sentado, em frente ao pc, como tanta gente faz… E normalmente não há um local suficientemente sossegado e confortável  perto dos escritórios.

Mas eu tenho bicicleta. Porque não aproveitar? E pronto, com o típico sol de Dezembro, resolvi meter-me na bicicleta à hora de almoço. 15 minutos depois de um passeio luminoso calmo e inspirador (podia ter perdido só 5 minutos, mas apeteceu-me), encontrei uma mesa livre com estacionamento próximo, esplanada em zona vip, serviço discreto.

marmita1

Claro que antes do regresso tive de ir refescar-me com uma cerveja e um café num estabelecimento onde antes teria comido um delicioso hamburguer e deixado 12-14 euros. Mas já é um princípio.

marmita2

E claro que vou evoluir no marmiting para usar o reservatório de água térmico que tenho para o BTT (mete-se no congelador e tudo) para levar água, sumos (ou um jarro de branco / sangria). Quanto ao café, é comprar cápsulas para a máquina do escritório, o que será um passo muito relevante em direcção à minha independência financeira.

Já agora, enquanto comia, observei m pescador com duas canas a pescar ao fundo. Ainda gostava de saber o que se pesca nestes sítios do Tejo (taínhas? golfinhos?) e se o peixe está comestível. Comi o meu atum com conduto, feliz da vida, mas uma hipótese futura é também levar cana de pesca e pescar o meu almoço ao lado do senhor e fritá-lo numa frigideira solar num instantinho… a investigar, em direcção ao ultra-marmiting.

Próximo passo será fazer o scouting da beira rio à procura de sítios ao ar livre que me permitam almoçar quando estiver a chover, muito frio, muito calor e muito sol. Ou a adquirir equipamento para me ajudar…

hmm…

tent

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9 thoughts on “marmita

  1. mamiting (adoro! passou a fazer parte do meu léxico ) não é uma questão de nível de vida, é mesmo de qualidade de vida. Gosto de cozinhar e de comer o que cozinho. Tenho a sorte de o poder fazer num sitio agradável e com boa companhia. Há uma boa vintena de anos, vim fascinada de Nova York com as possibilidades de, literalmente comer fora maravilhosamente.Ia ao Mangia e comprava umas saladas ( era uma marmita meio aldrabada) que comia no Central Park. A salda de fruta era divina, com pedaços enormes de ananás, isto numa altura em que salada de fruta, para mim,era sinónimo de fruta manhosa muito picadinha e cheia de coisas de lata. Adorava aquilo e só pensava nos sítios fantásticos que Lisboa tinha para o efeito, o Mirador de S. Pedro de Alcântara, a Torre de Belém ( as Docas só vieram depois) e até a av. da Liberdade que na altura era um bocadinho menos poluída. Claro que acabei por não usar estes spots, vergonha de ser a única. Lisboa tem locais e clima perfeitos para o efeito,mas falta a mentalidade. Quem sabe isso agora muda, com textos assim, acredito que sim.

    1. eheh o meu blogue não tem muitas visitas 🙂 dos meus colegas, diria que 75% faz “marmiting”, mas costumam comer na copa num instante e depois vão passear uma hora e meia. Um amigo meu trabalha num banco e diz que há 10 anos gozavam com ele por comer o seu tupperware, mas hoje muitos comem e tornou-se mais comum. Contudo, não vejo muita gente a comer na rua e para mim metade da piada é essa, instalar-me algures sossegado, com vista, é divertido, parece um pique-nique. Mas acredito que mude. Há 10 anos eu via muito poucos ciclistas, às vezes 1 ou 2 durante um dia inteiro, hoje é raro o dia em que não veja 10. O marmiting vai ser mainstream dentro de uns anos, mas não desejo mal aos restaurantes, especialmente estes tascosos de que gosto muito apesar de tudo.

      1. Também adoro tascos, especialmente os do Norte. E se puder não deixo de ir ao Eleven. Mas para almoçar todos os dias a minha opção primeira é o mamiting. E já o faço há tantos anos que nem associo a coisa à crise. Portugal está muito na beira da Europa, as coisas demoram a cá chegar. O que não deixa de ser expantoso, este argumento é do tempo em que o Pirineus eram uma barreira. Nos tempos da net não faz sentido, mas parece que continuamos a acolher as modas com muito atraso.

  2. Do Cais do Sodré até à Torre de Belém, pesca-se alcaboz (frequentemente), robalo e safio com as suas diversas nomenclaturas principalmente os de menor porte (usualmente), corvina/rabeta e linguado (raramente). O alcaboz nunca comi, os restantes são comestíveis, a tainha nesta zona raramente se apanha ao fundo, se for à bóia é muito frequente é no entanto intragável.

    Estou para te dizer isto há um certo tempo, temo que estejas a criar um pequeno monstro da “boa disposição”, com essa ideia maravilhosa de dar os bons dias ao Mundo com a pequena Júlia (atenção que eu só começo a “funcionar” uma hora após acordar).

    1. Epá, e quais são os melhores pesqueiros perto de Lisboa? E naquele cais perto do Parque das Nações? Eu não fazia ideia que podia pescar tão perto de casa.

      ela é mesmo um monstrinho de boa disposição desde que esteja com o sono em dia 🙂

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