beijocas

São um bocado babosas às vezes e o timing deixa um pouco a desejar, mas as beijocas que a minha filha me aplica nas bochechas são raiozinhos de luz em certos dias. Muitas vezes vêm precedidas de um aviso “paiíi paiíii”. Às vezes o chuac fica no ar. Outras vezes encosta só a testa à minha cabeça, afasta-se, contempla-me e faz “chuac”. Outras mantém a boca em modo peixinho durante 10 segundos e nunca se chega a ouvir chuac. Não podemos pedir a beijoca, é raríssimo dar. Diz sempre “nãaao” e afasta-se, sacode as mãos, empurra-me a cara. Gosto da atitude. Pergunto-me se a beijoca não é assim, aleatória, como o vento. Afinal de contas ela é uma menina, é perfeitamente normal vê-la lutar contra o caos de duas decisões contraditórias, como sucede com “aceitar comida porque tenho fome” vs “rejeitar comida porque sou independente e não aceito que me impinjam comida”. Mas há momentos em que a beijoca é o corolário de algo bonito e parece lógica, como hoje, quando passeámos ao sol e ao vento, testando o baby carrier na posição mochila (em vez de canguru bolsa). É um pouco estranho, porque não a vejo, fica nas minhas costas e eu sinto-me um burriquito a ser montado pela fidalga. Foi a segunda tentativa, da primeira não gostou nada e foi impossível, mas um mês depois parece-me que foi toda contente. Fomos tomar café. Ela não deu sinal. Podia ter ali uma mochila com um saco de hidratação que não dava pela diferença. A certa altura pousei-a no chão para fazer o seu exercício e fomos a andar muito depressa. De vinte em vinte metros ela agarrava-se à perna e olhava para cima, dizendo “colo?” Eu recuso, convencido que lhe estou a formar carácter de ferro, de não ter colinho só porque é desagradável andar um pouco.  Andamos mais 20 metros. A mesma coisa. Continuamos, agora sobre um tapete de folhas de outono nos quais os seus pezitos desaparecem. Anda ainda mais eufórica, o vento na cara, ri-se, fazemos uma corrida (ganhei sem sequer me esforçar). Chegados à estrada pego nela ao colo para atravessarmos e é nesse momento, com a cara embelezada por uma leve camada de ranho seco a reluzir ao sol dourado, e o cabelo nos olhos, que ela se inclina e chuaca-me na bochecha. Há bebés que merecem iogurte com frutas, banho de imersão VIP na banheira grande, massajem hidratante e sesta revitalizante, há sim senhor.

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4 thoughts on “beijocas

  1. “Chegados à estrada pego nela ao colo para atravessarmos e é nesse momento, com a cara embelezada por uma leve camada de ranho seco a reluzir ao sol dourado, e o cabelo nos olhos, que ela se inclina e chuaca-me na bochecha. Há bebés que merecem iogurte com frutas, banho de imersão VIP na banheira grande, massajem hidratante e sesta revitalizante, há sim senhor.”

    Priceless (passei a minha infância beijocando e abraçando um pai lindo que não retribuíu – questões da sua educação mui difícil – jamais, mas sei perfeitamente que apreciou).

    1. Sei o que é isso, o meu pai era assim, até ficava encavacado com qualquer demonstração física de mimo, quando não irritado. Já eu sou um beijoqueiro, por vezes ataco-a impiedosamente contra as suas gargalhadas (tem cócegas) e dou-lhe beijocas até começar a chorar (às tantas as cócegas evoluem para choranço).

  2. Tenho um baby carrier desses e é muito bom, especialmente quando o bebé fica pesado. Único problema: não conseguimos dar a chupeta quando cai, ou reposicionar o gorro quando escorrega para os olhos, ainda assim, em dias de chuva é muito melhor que um carrinho. Aproveitar agora é palavra de ordem =)

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