os estereótipos homem mulher

O feminismo é muito actual e muito importante, mas há um aspecto delicado na “genderização” de certas discussões que por vezes me incomoda. Levei um jornal, o DN, para o marmiting (restos de comida que preparei com amor e que foi liminarmente rejeitada pela minha filha que a cuspiu babete abaixo) e deparei-me com mais um destes clichés ao contrário, sobre o stress, num artigo.  Sobre stress, a parte das questões hormonais, tudo bem, é nítido que a mulher, e já o escrevi bastas vezes, está mais próxima dos nossos antepassados, os tigres assanhados. Têm umas entranhas esquisitas que sangram, fazem bebés  e libertam substâncias psicotrópicas que provavelmente deveriam levar à inibição de operar maquinaria pesada como aquelas wrecking balls onde se empoleiram despidas a cantar e partem tudo à volta, incluindo prédios que não era suposto demolir. Mas sim, especialmente na maternidade e pós-parto é um cocktail terrível. Não entendo qual o propósito da natureza, enfim, Deus ainda deve estar a coçar a cabeça com o departamento de inovação genética para tentar perceber onde é que erraram, pois o brief que passou à equipa do homo sapiens sapiens V1.0 era muito claro: “depois da maternidade, a mulher deve ter toda a paciência do mundo, estando permanente dopada em endorfinas. Não esquecer a adrenalina em doses muito elevadas para nunca ter sono. Quanto menos dormir, mais feliz e radiante deve ficar.

Bom, dei com esta frase no artigo «Encontrar o equilíbrio entre a vida profissional e a carreira e o papel de mãe gera muito stress, lembra Conceição Espada. É claro que sim e claro que há mais mães a ter de equilibrar as coisas e isso está errado e que os homens são realmente uns príncipes na cultura latina. O artigo prossegue nessa direcção. Não é melhor dizer coisas como “encontrar o equilíbrio entre a carreira e tomar conta de um filho, gera muito stress”? Assim deixa-se aberto para os muitos casos em que ambos os pais partilham o esforço.

O pior é a publicidade. Na publicidade são as mulheres que compram tudo para as crianças, são as mulheres que cozinham para as crianças, são as mulheres que estendem roupa, são as mulheres que são maternais. Eu sei que assim é, trabalho nisto e de facto há mais mulheres nesses contextos, logo a publicidade para ser mais eficaz acaba, paradoxalmente, por reforçar ainda mais o estereótipo onde se enterrou.

Por outro lado, o pai de família estereotipado na publicidade é o imbecil ao volante da carrinha nova que comprou para compensar a castração do matrimónio, sendo sempre o protector racional que toma as decisões importantes e complicadas no lar. Penso que as marcas teriam muito a ganhar se invertessem os papéis às vezes. Um homem de avental e esfregona numa embalagem de Javisol poderia ter um impacto muito positivo nas vendas. Eu pagava mais 30% por uma embalagem dessas, com argumentos de venta racionais como “elimina manchas de cerveja pegajosas”. Eu nem uso lixívia. Aliás, eu nem lavo a casa é a empregada. Brasileira. Lá está, outro estereótipo injusto. Pronto. Já agora, as mulheres queixam-se, mas a verdade é que o marketing de muitos objectos que classificamos como “masculinos” há muito que se adaptou e se direccionou para apelar ao target feminino, com imagens aspiracionais. Um exemplo é a venda de armas de fogo na américa que utiliza modelos atléticas, elegantes e cheias de empowerment.

chicks

Anúncios

3 thoughts on “os estereótipos homem mulher

  1. Armas e hiper-sexualização de mulheres: que sonho feminista.

    O que eu acho uma grande lacuna na publicidade é nunca usarem modelos masculinos para suscitar nas mulheres a vontade de comprar coisas. Se usarem modelos femininas para vender coisas a homens resulta, o contrário se calhar também resultaria…

  2. Acho uma grande lacuna publicitária não porem homens a anunciar produtos de limpeza, alimentares e outros. Primeiro, sempre se rompia o marasmo dos anúncios hiper-aborrecidos e sempre iguais. E depois, gajos a limpar, aspirar, cozinhar, é muito sexy 😀 Aposto que vendia.

  3. O propósito da natureza é tão límpido que chega a meter nojo: procurar garantir que o teu código genético perdure. Há variadíssimas tácitas para cumprir esta estratégia fundamental. No caso masculino do género Homo, tudo isto passa por foder o maior número de mulheres possível antes de morrer. No caso feminino, a táctica é diferente e mais complicada. Isto por razões óbvias que se prendem com os longos nove meses de gravidez. No caso do género humano todas estas coisas se complicam muitíssimo dado o misterioso advento da cultura, coisa que em em certo sentido se opõem à biologia. Mas enfim, são assuntos complicados…

    O que eu queria mesmo dizer é que acho que andas com problemas com a tua mulher. O que a ser verdade, atenção, não é senão absolutamente normal. Eu também tenho muitíssimos problemas com a minha.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s