chuva fantasma

Por vezes acordo a meio da noite oiço uma chuva inexistente a cair sobre o bairro. Fico acordado a ouvi-la um pouco, relaxa-me. É um murmúrio semelhante ao barulho do mar distante ou de um búzio encostado ao ouvido. Aconteceu-me ficar surpreendido por, algumas horas depois, ao sair da cama e ir à janela, ver que afinal está tudo seco e que não passou, outra vez, do fenómeno da chuva fantasma. Agora já não fico surpreendido, ainda hoje a ouvi, eram três ou quatro da manhã e soube logo que era ela a cair sobre a minha casa. Há diferenças face a chuva real, não oiço pingos individuais a crepitar nos estores nem rajadas de vento. Sei que se me levantar para beber água, a chuva desaparece imediatamente ao menor som, como o dos meus passos ou um interruptor de luz a fazer clique, por isso fico quieto, a ouvi-la regar-me os fantasmas das flores mortas e secas nos vasos da varanda.

surpresa

A primeira vez que lhe vi o ar de espanto foi quando empilhei três ou quatro peças de um jogo d cubos. Ao ver a pirâmide, a minha filha fez “ohhh!” de espanto, um espanto quase cartoonesco de tão exagerado e sincero que era. OHHHHH!!!!! boca aberta, um “é possível empilhar três peças?! não estás a ofender os Deuses?” É o ar de espanto do meu ‘eu interior’ quando olho para ela e vejo aquela pessoa a surpreender-me uma e outra vez com uma personalidade que emerge como uma foto na revelação, dia após dia. E é como se a imagem fosse ficando cada vez mais nítida. Sei que outros pais sentem o mesmo e muitos referem que melhora muito depois do primeiro ano ou mesmo primeiros dois anos. Posso confirmar que há um mundo de diferença quando aquele ser tem atitudes espontâneas como pespegar-me uma beijoca, dar-me um abraço, encostar a cabeça e dizer “pai”, mas não deixa de ser uma aventura do caraças em qualquer momento mesmo no primeiro ano e enquanto não inventarem uma realidade virtual decente para PS4, com os tais óculos de imersão total, recomendo vivamente a todos os adolescentes quando estão prestes a ter relações e não têm contraceptivos. Não se vão arrepender de deixar o 11º ano para trabalhar no McDOnalds. Estou a brincar, não é assim tão bom, mas é bom na mesma.

engordem praí, mas deixem-na em paz

Já sai blah blah o geek blah blah blah estuda tudo blah blah mas tou chateado. Andamos nós, os pais, a evitar dar ração de engorda à nossa filha, isto é, batatas fritas, gomas, doces, fritos, bolachas maria, demasiadas papas cerelac e afins, e na creche não há meio de aprenderem.  A ementa base é boa, é verdade que não vejo muitos disparares, zero fritos, muito bem. Mas cada festinha, lá está a porcaria toda salgada, açucarada e oleosa e depois são os extras. No diário da creche vem repetidamente “adora torradas com doce” ou “come muita bolacha maria” e assim. E lá temos de fazer o papel dos pais chatos. Cada um sabe de si, todos os meus amigos dão bolos açucarados, batatas fritas etc. a bebés de um ano, salgam a comida, etc., epá, cada um sabe de si, mas foda-se que p**a de cultura esta! Qualquer dia estamos como os ianques?Não contra a fastfood! Eu adoro kentucky fried chicken! Croissants! Epa, gosto de comer lixo, gomas, enchidos, até torresmo, meu deus, eu como torresmos.  Gosto de porcaria a dar com um pau e prefiro correr ultramaratonas para carburar 45000 kcal por semana (1 dia e tal de comida!) a meter-me em dietas. Mas o importante é conseguir que ela goste de outras coisas e entenda o lixo como sendo LIXO. E que não seja por comer lixo que vá rejeitar umas deliciosas ovinhas de bacalhau com feijão verde . Os alimentos naturais não conseguem concorrer com os processados em termos de intensidade de sabor. Se o palato fica desde cedo condicionado a esses sabores 500x mais doces, ou mais salgados etc. dos alimentos artificiais, criam-se vícios que depois em casa não consigo vencer. É por isso que esta fase é crítica. Se uma criança ainda não chegou à fase em que pede, por si própria, uma batata frita, para quê dar-lha?

e vocês…

…em quem acham que o escultor madeirense Ricardo Velosa  se inspirou para fazer o rosto da estátua do Cristiano Ronaldo?
CR7-estatua-funchal

cr7

James Dean? José Águas? Michael Owen? David Beckham? Michel Vaillant? Há de certeza alguém parecido com ela, eu é que ainda não vi quem.

 

 

 

 

diálogos com 50% do meu ADN

Tenho tido alguns problemas de lógica com a minha filha. Diz não a sensivelmente quase todas as perguntas, a não ser quando está distraída.

– Qué bacha! (tradução: “quero bolacha!”, referindo-se a uma tosta extra fina sobre a qual eu deposito a salada de ovas de bacalhau do jantar)
– Queres bolacha, Júlia?
– Não! – confirma o não com um abanar de cabeça veemente.
Decido tentar aproveitar a ocasião para lhe explicar a importância do “Sim”.
– Não queres bolacha? Então não te dou. Tens de dizer “Sim”.
– Qué bacha! – estica a manita direita e faz o sinal de “dá cá isso já para aqui para a mão”
– Queres bolacha? – pergunto.
– Não.
O não dela é convicto, vem com mímicas como abanar a cabeça, afasta o corpo. Vê-se que está confusa perante o paradoxo de ceder a uma pergunta com um miserável sim e a obtenção da “bacha” que o seu instinto lhe diz ser um nutrimento adequado.
– Então não queres? Não te dou. Tens de dizer “sim”. Diz lá, sim!
– Bacha. Bacha!
– Queres a bolacha?
– Não.
– Então não dou.
– BACHA! A BUACHA!
– Queres bolacha? S.. si… siim…
– NÃO!
– Opá, raios, toma o raio da bacha.
– grunf rung munch nonmnomonom
– Tens de aprender a dizer “sim”, miúda de um raio.
– Bacha.
– Come primeiro a que tens na boca.
– BMMFmf
– Primeiro come a bolacha, depois pedes mais.
(2 minutos depois)
– Qué mais. Bacha! Qué bacha!
– Queres bolacha? S..
– Não.
– Ok, não, toma.