o café dos pescadores

Ando a escrever bons posts, não tenho culpa que os meus leitores estejam como peixes letárgicos no inverno. E por falar em peixes, a pesca tem cenas diversas que a tornam muito aliciante para mim. Uma delas é ser pescador entre pescadores. Por acaso é uma coisa de que gosto. Coloca-me em contacto social com um segmento da população que de resto só vejo de passagem pelo parabrisas do ‘BM’ quando me atrapalham com as suas motocicletas ou em documentários sobre a crise no sector das pescas. Agora sou uma pessoa que se mistura bem. Até porque vou vestido com a pior roupa possível e depois de 24h dedicadas à pesca, sem tomar banho, a mexer em lombos de sardinha, cavala, minhocas trespassadas, lingueirão, camarão cru, engodo de pasta de sardinha e um ou outro peixe, exposto aos mais diversos elementos extremos, desde chuva copiosa a sol escaldante, alimentado a snacks e minis, ganho uma certa patine camuflagem que leva uma ou outra gaivota ao engano e a pousar sobre mim cheia de fome e a ter cada vez mais gatos especados à porta do meu refúgio. É pena não fumar, por se fumasse o disfarce seria perfeito. O certo é que o convívio é fácil. Começo sempre por avisar que não faço a mínima ideia do que estou a fazer, o que de resto é por vezes confirmado com cenários verdadeiramente Mr Bean’esques. A sucessão de tropelias em que me vi metido quando decidi pescar duas canas ao mesmo tempo (uma ao fundo, outra à bóia) devia ser filmada e podia depois ser viral, como aqueles videos das mulheres a fazer 40 manobras para estacionar um carro. O pior é que as tropelias aparecem sempre que estou a ser observado. É uma merda que não gosto. Ainda no domingo, precisamente quando dois pescadores me observavam a distância segura para não serem atingidos por um anzol, consegui atirar a linha da pesca à bóia “por cima” da linha da pesca ao fundo cuja chumbada estava a 50 metros e ela deu duas voltas a 20 metros de altura e fez um belo nó no vazio. Duas linhas entarameladas. Primeiro fingi que não era nada e que sabia perfeitamente o que estava a fazer, na esperança que os pescadores se fossem embora, mas creio que a manobra e a minha aparente indiferença apenas lhes aguçou mais a curiosidade. O cãozinho de um deles dirigiu-se em minha direcção e o dono gritou-lhe “AQUI!” com uma voz que até parecia transparecer algum receio que eu fosse empatar o cão no anzol, sem querer. Consegui resolver o problema das linhas, depois de muitas manobras acrobáticas e eles foram-se embora quando terminou o espectáculo. Quando estão ao pé de mim e metem conversa é outra coisa, digo que estou a aprender e não se calam com os bitaites, o que é bom, porque aprendo, aprendo muitas verdades e muitos erros, mas vou fazendo a média do que vou ouvindo. Por exemplo, e juro que isto é verdade, dois pescadores aparentemente locais e experientes, observam o meu camarão no anzol. O primeiro diz “esse camarão é muito grande e está com casca” e o segundo, que por ali passa 30 minutos depois diz “é bom por camarão grande e com casca para não ter o peixe pequeno a picar-lhe o isco tudo”. Na pesca – e isso é fascinante – cada pescador é uma maneira de pescar e isto ainda se subdivide por spots de pesca e ecossistemas e – muito importante – culturas. O mais provável é que os locais saibam exactamente o que resulta bem, os bons dias, os maus dias, as horas ideais… aliás, só conversam comigo quando não está a dar nada. Se estivesse, eles estariam a pescar. Não quer dizer que as suas técnicas estejam optimizadas e sejam perfeitas, aqui entra o meu espírito científico e competitivo. Eu corro ultras. É verdade que há muita malta que corre (constou-me) que nem sequer tem planos de treinos, mesociclos, não toma batidos de proteínas, não usa monitor cardíaco ou relógio gps e, segundo consta, até conseguem correr depressa. Na pesca é igual. Eu cá, se não se importam, vou continuar a estudar a cena e ser um geek disfarçado. E tive o meu baptismo de café de pescadores. Quando já tinha uma boa camada de patine pescadora, resolvi tomar um café num café de Peniche, não digo qual, mas é um que tem sempre pescadores quando está mau para a pesca. Assim que entrei no pequeno café, escuro, fui acolhido por um barulho de vozeirões a contar histórias. Naquela ocasião discutiam condução de má qualidade e manobras de que tinham sido vítimas. Nem de propósito, o tema eram ciclistas que atravessavam na passadeira a pedalar à frente das suas viaturas e todos eles desataram a contar os grandes perigos em que as bicicletas os colocaram. Sempre que um contava uma situação, metia-se de pé para gesticular à vontade. Estavam como que numa rodinha de cadeiras e ao fundo havia ainda dois a jogar dominó de forma mecânica, sem trocarem uma palavra. Quando um dos contadores de histórias referiu que “o gajo da bicicleta ficou tão atrapalhado que caiu para cima do meu carro e rolou pelo capô”(gargalhada geral), estive quase para intervir e defender os ciclistas, mas presumi que o meu disfarce de pescador poderia ser posto em causa. Aliás, nem estive quase para intervir. Malditos ciclistas. Espantam o peixe todo.

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7 thoughts on “o café dos pescadores

  1. Eu gosto muito dos teus posts sobre pesca, mas não comento porque não tenho nada para dizer e não gosto nada daquelas pessoas que dizem só “bom post” (isso e a letargia e a inveja).

  2. ahaha, adorei a “picada” aos leitores, e claro que não resisto e meter a colherada e a dizer, como a Rita Maria (olá! que giro abrir esta caixa e encontrar-te aqui) que leio os teus posts e gosto muito. A minha teoria para não teres tantos comentários é que, sendo posts tão bons, a malta reprime-se, com receio de dizer patacoadas sem jeito.
    (por exemplo ontem li aquele em que metes a foto nojenta do bichinho que usas para isco, mas não quis estar a dizer nada, porque só tinha isso para dizer, que o bicho parecia nojento e que só lhe tocaria com umas luvas)

    Agora outra coisa: só não percebi ali nesta tua história como é que desencantaste o tal café de pescadores. Como funciona isso?, é como na “vida normal” em que uma pessoa tem sites tipo tripadvisor ou foruns com as dicas para novos frequentadores?
    Foste ao google e pesquisaste “o café mais típico mesmo só para pescadores em peniche” ?
    😛

    1. Eu acho que ele tem menos leitores e menos comentários porque as meninas já não sentem que o blogue é para elas (e dantes acho que pelo menos em parte sentiam).
      (olá a.i.!)(eu havia de estar algures)

    2. O café estava simplesmente ali e à porta tinha pessoas que noutra cidade (ex Lisboa) iriam remeter para o imaginário da Meia Laranja no Casal Ventoso, mas que ali significam pescadores ou transporte de estupefacientes por via marítima. É um café muito longe do imaginário Peters etc., é mais um snack bar banalíssimo, só que muito atafulhado de coisas, como convém aos sítios com alma, como montes de fotos de barcos de pesca dos clientes, e um serviço expedito de bagaços e traçados às 9 da manhã.

  3. Gosto muito do que escreve, gosto mesmo. Não costumo comentar porque raramente tenho alguma coisa a acrescentar. Mas depois de ler este post percebi que era uma grande injustiça. Eu do lado de cá a deleitar-me com o que escreve, mesmo que seja sobre pesca ou corridas, sem dar nada em troca, nem um well done. Imagino que tenha muitos registos de visitas, mas são anónimos e menos simpáticos que um comentário apreciativo. Bem-haja

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