o islão, Gustavo Santos e Jesus Cristo

Para o humor resultar bem, tem de se lhe eliminar qualquer carga de ressentimento, de ódio e conseguir dar uma volta de ternura. Será possível fazer humor com pretos, judeus, portugueses, traficantes de droga, polícias, o Cavaco, a Maria, o Sócrates,  o Arrumadinho, comigo, com os espanhóis e com os belgas. Mas com extremistas islâmicos e o Gustavo Santos que infelizmente descobri hoje, não é possível, porque são demasiado extremos. É possível fazer sátira, como fazia o Charlie, mas não propriamente humor.

Daqui a 500 anos será possível brincar com o terrorismo islâmico e o Gustavo Santos como é possível hoje o humor à volta de Jesus Cristo ou da inquisição espanhola de que ninguém está à espera. O Holly Grail dos Monty Python pode ter sido extremamente ofensivo na época mas eles não eram alvo de fatwas. E  o filme retrata a figura de Jesus no imaginário geral (tal como o livro do Saramago!) como boa pessoa. Em ambos as obras, é curioso, é visto como uma vítima de circunstâncias, no primeiro caso bastante cómicas, no segundo, vítima do Pai com ambições.

Este distanciamento não seria possível em plena Inquisição ou Cruzadas que são, à devida escala, o estado de desenvolvimento civilizacional – e não exagero nem um pouco , aliás, muito pelo contrário – em que se encontra agora parte do mundo islâmico.

No mundo islâmico vemos um retrocesso a acontecer em plena era do facebook e do google e ainda por cima dentro das nossas própria sociedades ocidentais, com filhos nascidos e criados cá a irem islamizar-se na Síria e a voltar para cá determinados a fazer traquinices como estas. Mas o ocidente também está cheio de regressões (o que dizer da europa da I guerra? Da alemanha nazi?) Podemos recuar e encontrarmos mais. Ditaduras que sucedem a democracias, revoluções que evoluem para ditaduras. Podemos ler um livro sobre o Império Romano ou a civilização Grega e ficaremos surpreendidos por ver estes movimentos, por ver coisas que já foram extremamente sofisticadas e tolerantes e que um dia redundam numa montra com livros do Gustavo Santos na lista dos mais vendidos e mulheres de burca. O caso do Irão, tão bem descrito no fabuloso Persepolis, é paradigmático. Foi num ápice, com a revolução cultural do Ayatolah Komenei e eu vi isso a acontecer, as primeiras mulheres a usar burka e lembro-me do choque que foi, porque era um retrocesso evidente. Como foi hoje saber que o Gustavo Santos existe e ganha dinheiro que chegue para comer porque as mulheres lhe compram os livros.

Mas o islamismo  antes tinha uma função,  era um agregador nacionalista para movimentos revolucionários e independentistas, como foi o comunismo na Ásia. Desde  11 de Setembro, deixou de o ser, no meu entender, porque com a Al Qaeda aconteceu, a meu ver, um descolamento… a Al Qaeda não representava um país ou povo em concreto, uma situação concreta, mas sim muitas, um sentimento e uma ideia. Nestes casos, como o do Charlie Hebdo e de Gustavo Santos, e cada vez mais, estamos ao nível puro da ideologia, das ideias, dos conceitos. A violência surge desfasada de propósitos concretos, por vezes é mesmo contraditória aos objectivos.Hostiliza as populações locais que se sentem oprimidas, gera mais acções militares ocidentais como bombardeamentos aéreos e afasta-os do poder negocial. “Vingámos o profeta” disseram hoje. E foi uma vitória. Para eles é até glorioso que sejam cercados pela polícia e que se façam explodir. Chegam ao ponto de serem tão radicais que talvez nem lhes interesse uma vitória final, um objectivo, mas sim o estatuto de mártires.

Um problema é o cronocentrismo de que já aqui falei, este meu conceito que eu criei e que se baseia na percepção errada de que achamos que a nossa época é muito diferente das anteriores e que as anteriores eram mais ingénuas do que a nossa ou que tinham problemas que a nossa não tem. Achamo-nos superiores à história que nos antecede. Quando leio livros de história, tendo a ficar pasmado com a passividade da reacção à ascenção do nazismo, quer na alemanha, quer na europa, com aquela tentativa de projectar no adversário (o islamismo radical e o Gustavo Santos são adversários) capacidades racionais e objectivos compreensíveis e que não vão passar das marcas, que se vão ficar pela Polónia, depois pela Bélgica etc. Até Staline foi surpreendido pela irracionalidade de Hitler, como seria hoje, surpreendido por este atentado ou por Gustavo Santos.

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6 thoughts on “o islão, Gustavo Santos e Jesus Cristo

  1. Essa primeira frase deu-me que pensar. Se calhar é mesmo essa a diferença entre o bom humor negro e o humor básico/de mau gosto: é muito diferente a mesma piada contada por um judeu ou por um anti-semita, por exemplo.

    1. Sim, é, mas nem precisa de ser contada por um judeu, pode ser contada por um não-antisemita ou para uma plateia não anti-semita ou num país ou contexto em que os judeus não estejam a ser massacrados. Eu próprios nos blogues já passei por isso (à escala, claro), ao escrever textos a ironizar sobre os clichés homofóbicos. Não sou homofóbico, mas foi interessante como extremistas da defesa dos direitos dos gays interpretaram literalmente a caricatura (tomando-me a mim por homofóbico) e por outro lado, verdadeiros homofóbicos defenderam o texto como se fosse não-irónico. Achei o texto bastante bem sucedido, mas para aquelas pessoas o texto era sério.

  2. Querias dizer A vida de Brian? Essa sátira resulta precisamente porque Jesus é a única pessoa sã da história, e vítima kafkiana da sociedade, até da mãe. Mas é isso, o extremismo é acompanhado de uma enorme limitação em perceber as piadas e a quem de facto se dirigem.

  3. Não há fome que não dê em fartura, e cá estou eu de novo a comentar. Identifiquei-me muito com esta análise. Assistimos ao vivo e a cores, world broadcasting, ao declínio da nossa civilização, minada por dentro. Mais um declínio, porque tudo isto é cíclico, já aconteceu, e até não assumiu contornos muito diferentes. O que me espanta é estarmos agora tão informados, com tanto estudo comparativo, com uma abrangência de conhecimento como não há memória e ainda assim deixarmos estas coisas acontecerem. Como é que pessoas nascidas (?) e criadas no seio da civilização ocidental se tornam extremistas dispostos a exterminar essa mesma civilização? Como não ficaram imbuídos pelos valores da tolerância, da justiça, da igualdade, da liberdade, dos valores que nos separam da barbárie? Não seria expectável que fossem os nossos valores a “contamina-los” e não o contrário? As coisas estão a correr mal para o nosso lado, e suspeito a culpa até é nossa. Os alicerces vão sendo moídos e a argamassa perde consistência. Há muitos Gustavo Santos e alguns até conseguem ser editores do FT. Esta história é tão velha e recorrente como a História do mundo. É triste ser assim pessimista, sobretudo porque tenho filhos pequenos, mas não consigo evitar. Mesmo assim tenho esperança que (ainda…) não esteja tudo perdido. As civilizações não caem num dia e quem sabe ainda não atingimos o ponto de não retorno. Por isso contínuo a ensinar aos meus filhos que a inteligência é a nossa maior riqueza, a nossa cabeça a nossa melhor ferramenta, que rir faz-nos humanos e claro, que devem comer os vegetais todos. A sobrevivência é uma coisa que dá muito trabalho.

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