Submissão

Estou triste. Para além da empatia que tenho para com alvo deste atentado, tinha uma particular afinidade para com Wolinski que li muito quando era miúdo (uma idade imprópria para ler Wolinksi agora que penso nisso, mas eu apanhava os livros da estante da minha mãe). Wolinski estava por vezes estar para lá do limite do mau gosto, do brejeiro e conseguia ser infantil também e até ingénuo. Percebi,mais tarde, que a subversão também tem esse lado: a forma e o estilo, e não apenas como o conteúdo (basta pensar em Bordalo Pinheiro ou Herman José) Só é politicamente incorrecto, de facto, quem chateia e ofende e não tem limites. O Charlie Hebdo de resto, fazia muito intelectual torcer o nariz devido a isso. Não era finório. Mas não eram maldosos e muito menos básicos, na sua essência. Agora vamos assistir a uma replicação dos seus desenhos e do seu trabalho que o mainstream nunca tinha visto antes. E esse trabalho, em muitos casos, descontextualizado, vai ser usado como lenha.
Nós sentimos empatia, sim, mas não representa uma resposta corajosa, esta empatia para com o Charlie Hebdo, porque estamos diliuídos numa multidão anónima num período específico. Por uns dias, vamos assistir a uma ‘coragem’ hipócrita tão bem denunciada nos últimos anos por Houllebecq (que de resto foi viver para a Irlanda uns tempos), quando não a inanidades como as tentativas de procurar culpados em nós, aqui, nos nossos valores, dividir-nos a nós que nunca na vida nos passaria pela cabeça executar inocentes, entrar numa escola como no Paquistão e matar mais de 100 crianças, dizimar a redacção de um jornal… Na verdade, os artistas, os responsáveis editoriais, os produtores de filmes etc. já estão condicionados desde a fatwa a Salman Rushdie para ter medo de criar algo que possa ofender os islamitas. Assim que um dá um passo em frente, vê-se sozinho, isolado, como estava o Charlie Hebdo (e Houllebecq, cada vez mais). A ameaça é actual para estas pessoas. Já têm protecção policial e ameaças de morte. Aquilo que os islamitas radicais podem atacar numa democracia ocidental, para além de criar complicações nos check points dos aeroportos, é isto: limitar a criação cultural e artística, muito mais do que a vaga liberdade de expressão. Todos os dias milhares de pessoas escrevem, opinam e criticam o extremismo islâmico. Em frança neste particular, alvos nao faltariam. Mas quando um artista faz uma obra, um livro, um filme, um cartoon, está a destacar-se da multidão como um símbolo e como tal torna-se um alvo preferencial de uma violência também ela simbólica que, aliás, no Médio Oriente, também se vira contra todo o património centenário, na destruição de templos centenários que sobreviveram a tudo menos a isto, este niilismo extremo que por ser tão feroz e absoluto não consegue ser entendido (e lembra muito bem o nazismo). E por falar nele, em vez do exercício fútil do escritor mais overrated da actualidade – Philip Roth – em que se imagina uma américa dos anos 30 ou 40 em que nazis antisemitas vencem eleições, o exercício do Houllebecq no Submissão (que ainda não li) é pertinente. Imagina uma França no futuro, convertida em estado islâmico. Ele próprio o classifica de cenário possível em entrevistas. Eu não acho muito plausível, mas não interessa, o simbolismo é actual. Não tenho dúvidas que muitos criadores pensam 20x antes de fazer qualquer coisa que possa ofender esses fanáticos que nas nossas sociedades, nos nossos países, nos querem amedrontar. E isso é submissão, hoje.

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3 thoughts on “Submissão

  1. É um pouco tonto comentar esta parte neste texto, mas porque é o exercício fútil? O tempo futuro torna as coisas mais verosímeis do que os “e se’s” do passado? parece-me um pouco limitado.

    Em relação ao facto de ser sobrevalorizado, há um diferença substancial para tipos como Houllebecq – publica muito mais, talvez demasiado nos últimos tempos. Para um escritor como Roth é “fácil” ser muito bom se só publicar de 5 em 5 anos. Se uma pessoa tiver a “sorte” de apenas ler os textos menos interessantes, poderá ter uma opinião muito pouco justa.

    Esta curta opinião do James Wood sintetiza muito do que representa Roth na literatura actual:
    http://www.theguardian.com/books/2013/mar/22/my-hero-philip-roth-james-wood

    Já agora, em relação aos realizadores do post em baixo, seria interessante continuar a lista…

    1. Não é tonto comentar essa parte. Digo que é fútil porque se insere na habitual masturbação da condição judaica que no século XXI nos EUA me parece verdadeiramente enjoativa no caso do Philip Roth, visto que os judeus são talvez o grupo mais forte em todas as frentes de elite, na cultura (cinema, literatura), na finança, na política e têm um estatuto completamente adquirido. Se um negro escrevesse um livro a imaginar um cenário em que teria ganho o Sul e a escravatura continuava até hoje, ou em que os EUA criavam um apartheid depois dos riots de LA etc. então acharia um exercício menos fútil e masturbatório. Mas sobretudo, a conspiração contra a américa é um livro fraco e admito que a minha visão pode ser enviesada por isso. E o Houellebecq é, desde que o li pela primeira vez aí em 2004, o meu autor contemporâneo preferido.

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