a canja

Entretanto fui aos canjeiros. Agora já posso dizer onde é sem o risco de me aparecerem fãs a interromper o almoço. Foi na Nova Pombalina, ali na rua do comércio, um estabelecimento que tem “por favor não me lambam o vidro” ou vitrine já não sei, na montra (vidro, vitrine, montra) onde estão expostas as lascas de leitão, presunto, bolos, pão… Uma pessoa entra e o sítio é legítimo. Topo um conceito à distância. Um primeiro sinal de que estamos perante um conceito e não um sítio onde se come bem é a desatenção dos funcionários e o aspecto dos mesmos. Num conceito, os empregados, sempre jovens que nunca na vida trabalharam e só estão ali porque os pais os obrigaram, estão numa postura semi-distraída, blazé. Num sítio a sério costumam ser senhores ou mulheres muito mal arranjadas, estão focados e com pressa e gritam pedidos, como foi o caso do senhor que rapidamente me indicou uma mesa. A decoração de madeira clara a imitar pinho destoa de forma fulgurante (e por isso genuína) da traça original com azulejos aqui e ali. Há frutas, laranjas, pão, por todo lado. Outro ponto importante para detectar o conceito – o mais importante – é quem o frequenta. Ali era o típico sítio lojista da Baixa com horinha para almoçar e fumar, contar histórias de encornanços e de chefes umas às outras, enquanto afagam as malas de mão de chita. Não que não seja frequentado por outras pessoas como malta dos escritórios que ganham mal e que vão lá com os seus fatos baços, todos corcundas sobre a mesa, com a gravatinha por cima do ombro, a sorver uma sopinha, enquanto aturam a conversa deprimente da colega com quem até fantasiam. Só vendiam sandes e a canja e uma sopa de feijão verde. Sandes de choco frito, panado, galinha, queijo, leitão… fiquei pela de leitão, para acalmar o meu estômago. A sandes era realmente boa, quase não a consegui comer toda de tão farta que era. Antes disso (a minha narrativa é não linear, moderna) pedi a canja, 1euro e setenta. Não era má, embora não estivesse suficientemente quente e aqui o calor era importante, pois canja que é canja faz-se difícil no início, está tão quente que não se pode comer e aumenta a impaciência. Cenoura, pedaços de galinha generosos, a hortelã ao lado. Foi reconfortante. Depois seguiu-se o regresso e o regresso foi penoso, devido à virose ou que raio é isto e a ter de subir muito. A tremer de frio, começou a chover, acho que disse muitos palavrões. Estou farto de frio. Epá, já estou farto de frio. Farto. O sol descobriu, sol, céu azul, só para se tapar a seguir e recomeçar a chover. A continuar.

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3 thoughts on “a canja

    1. Desculpa, mas o preço de sopas em Lisboa centro é sempre superior a 1€ e pode ir aos 2.5€ (ex caldo de marisco). No solar do kadete é 2€, qualquer sopa. Na palmeira não me lembro, mas acho que é1,5€.

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