film noir

Nos filmes, a decadência física do protagonista, normalmente vítima de pancadarias e tiroteios, é paralela ao adensar da trama a caminho de uma situação aparentemente impossível de resolver, dramática. É assim que gosto de me ver a mim mesmo, qual Humphrey Bogart, nas fases mais difíceis da minha vida para conferir uma dimensão épica a situações que de outro modo seriam pouco dignificantes. Por exemplo, há dias entretive-me a empatar anzóis para pesca ao fundo e a fazer montagens. Tinha um anzol, nº1, japonês, daqueles de competição afiados a laser, pousado com a ponta no polegar. O anzol, preso a uma linha de pesca e na outra ponta da linha, uma chumbada de 120 grs que deixei cair no chão. Fiquei a observar, como o Coiote, a linha a correr a grande velocidade, sem reacção, até a linha esticar. Então reagi. Já agora, os anzóis japoneses, são bons. O sangue escorreu em espiral no lavatório e eu contemplei o meu rosto mal barbeado e pálido no espelho da casa de banho. Em cima do autoclismo, observei uma fralda de bebé, embrulhada. No chão, um sapato hello kitty. Há mais alguém em casa, pensei…
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