fome

Por entre Isaac Asimov, vou lendo o mais leve e portátil “O sentido do fim” de Julian Barnes. Não é mau. É muito bom. Mas ao mesmo tempo é daquela literatura que não é significativa. Podia não existir que a única coisa que não existia era o Julian Barnes e os seus livros. Felizmente, não pretende ser nada, é adulta, irónica, elegante, comovente, até lembra um pouco, acho eu, o Catcher in The Rye pelo menos na primeira parte, a adolescência, mas não tem o lado significativo deste, nem que seja por ser escrito agora e o outro há 300 mil anos. Eu gostava era de escrever uma coisa ao jeito do Fome do Knut Hamsun, mas precisava de uma boa miséria e não me posso dar esse luxo, tenho uma filha para nutrir e vestimentar e o equipamento de pesca não se compra sozinho.

não tenho nada para vestir

Finalmente percebi aquele cliché das mulheres do “não tenho nada para vestir“. A julgar pela minha filha, em poucas semanas, roupa e sapatos que servem perfeitamente a uma mulher deixam de lhe servir. Sempre a crescer ou a roupa a encolher, artifício dos fabricantes. E espalham as roupas todas em cima do trocador e ficam a olhar para aquele caleidoscópio de tecido em desespero. Porquê este comportamento em idade adulta? Porque já não têm um pai que pegue nelas e as enfie dentro de peças que sirvam, ao acaso, relativizando dessa forma a ditadura da imagem e das tendências. A minha filha até agora não tem qualquer complexo com o facto de chegar à escola em preparos que não traduzem a classe social a que pertence, isto é, a realeza.

Deusa

Querida Deusa,
És feminina, ao contrário do que me foi sugerido toda a vida. O homem de barbas e túnica branca, o género masculino indiferenciado, o “Pai”, o “Senhor”, mentiras mais rebuscadas do que o meu mito, pois que os homens daqui de baixo nem conseguem gerar vida no ventre a partir de moléculas ingeridas e as mulheres conseguem. Sinto a Tua presença na Mãe Natureza e não é ilusão. És uma Mulher e é por isso que posso passar horas dentro de ti a sentir luxúria aveludada, mesmo que me dês com ondas, vento, vertigens nos penhascos, frio, sol, cansaço e desidratação, como me dás uvas doces para me fazer o vinho ou sombra na única árvore num descampado, uma oliveira que ali cresceu durante dois séculos só para neste dia me fazer sombra. És alheia à minha vontade como o espírito de um animal selvagem. Sinto-me em paz em Ti, a observar-te e a sentir-me humilde, pois nada do que eu tenha feito é assim tão importante perante teu Mar. Gostava muito de te levar a jantar fora, Deusa, pareces ser uma mulher muito interessante e criativa, a julgar pelas tuas qualidades de decoradora de exteriores que vens manifestando há milhões de anos.
Do teu admirador,
LB

Ps: só uma nota, não leves a mal, mas devias avisar populações de ilhas vulcânicas antes de redecorar. Só uma nota.

uma lua vermelha

Entrei na loja e disse quero muito engodo, pode ser um balde de 2.5kg, 2 caixas de coreano , um pacote de camarão e duas starlightse deram-me e desejaram-me boa sorte e ainda acrescentaram amigo. Depois fui ao supermercado comprar gelo, minis, pão e presunto. Tomei uma cerveja e comi uma tosta mista num café. Depois fui buscar o equipamento à minha cabana. Depois fui de carro depressa antes do sol se pôr ao largo do cabo carvoeiro. Instalei-me numa das varandas desertas nas falésias a pique, uns bons 10-15 metros acima da água, abrigada a sul, do vento de norte. Preparei tudo com paciência e minúcia, já bastante mais hábil no manejo do aparato todo, dos nós, das delicadas operações, da sucessão de passos e verificações que devem ser feitas antes de serem automatismos. Depois o sol desapareceu. Não estava um bom dia para pescar, muito frio, vento, apesar dali ter abrigo. Os poucos pescadores que vi num raio de 300 metros desapareceram assim que o sol se pôs. No foco de luz da minha lanterna de cabeça via a minha própria respiração a condensar-se, o frio a descer. Luvas, gorro. Veio a lua em quadro minguante, junto ao horizonte e começou a descer até ficar vermelha, como um olho diabólico semicerrado, refratado pela superfície encrespada do mar. Ao meu cinto, a minha faca de pescador, que me confere pouca segurança contra os espíritos dos pescadores morto em eventos assinalados de 100 em 100 metros por cruzes de madeira ou cimento com os seus nomes. Por cima de mim um céu estrelado, puro, reconheci Orion, as Pleíades… E fiquei ali até às às 10, às 11, à meia noite, uma, duas, três…  a atar nós, a ajustar linhas, a ouvir o vai vem do mar e aquele sopro nas furnas, quando o ar é expelido por entre fendas nas rochas 15 metros acima. Ainda lá estou.