hoje é um copy paste

«Depois do Jorge se matar, assumi que a minha mãe voltasse a M.F. e me viesse buscar. Ou que me telefonasse para me dar direcções para eu ir ter com ela. Mas não veio, nem telefonou. Nunca me ocorreu tentar procurá-la. Para mim morreu, como o meu pai verdadeiro, que nunca conheci. O Jorge, quando descobriu não ser o meu pai, e depois de expulsar a minha mãe de volta para França, enforcou-se no castanheiro em frente à janela do meu quarto, o que dá para arriba. A minha avó, tecnicamente  não-avó,que entretanto ficou muda com o desgosto, descobriu uma foto da minha mãe dentro da fronha da minha almofada que eu consegui salvar do dia da queima de tudo o que era “daquela puta” na fogueira que ardeu um dia inteiro. Ficou pálida. Passado uma semana começou a ofegar como um peixe fora de água e deitou-se na cama, mas recusou a ida ao médico que o velho António, por não ver o jantar em cima da mesa à hora do costume, lhe sugeriu. A velha morreu durante a noite. Quando acordei nessa manhã muito cedo tinha gente em casa, incluindo a GNR e uma ambulância estacionada.
E foi assim que fiquei famoso em M. F. e arredores. E que comecei a desconfiar que as relações entre adultos podem ser no mínimo complicadas.
A partir dali, ficámos só eu, a cadela Seta e o velho António que, não sendo mudo, quase nunca falava, muito menos comigo, pois não tinha nada de relevante para me dizer. Eu sabia-o temperamental e tinha medo que me expulsasse por o filho ter feito aquilo por causa da minha mãe. E de mim, de eu existir, ao fim e ao cabo.
Mas semana depois disto tudo, estávamos a comer uma sopa que a viúva do dia nos trouxe e ele disse-me:
— Luís, somos só nós os dois agora.
Deu-me alguns escudos e acrescentou
— Vai comprar vinho à tasca do Armindo, diz que fui eu que te mandei.
Registei estas palavras por serem tão raras num homem que até ali quase nunca falava, ao ponto da voz que lhe saiu me ter assustado por soar humana. Era como se uma árvore, um carvalho de duzentos anos, se metesse subitamente a falar comigo.  E a beber vinho. Voltei para casa com o vinho e dei-lhe o troco. Disse-me obrigado e pude assim ouvir de novo a sua voz. Depois de  meia hora à procura de um saca-rolhas ferrugento que estava, pelos vistos, escondido no fundo de uma gaveta onde ninguém o devia encontrar, abriu a garrafa com alguma pressa. Encheu um copo e fez um brinde à Seta que abanava a cauda.
Estabeleceu-se assim um de muitos novos rituais.
Seta passou a ter acesso a toda a casa, antes estava remetida à cozinha. Sentia alguns ciúmes pela adoração que ela nutria pelo velho António enquanto que a mim, parecia ignorar-me por vezes e isso só mudou um pouco mais tarde, quando comecei a caçar e só melhorou mesmo quando matei a primeira perdiz.
Comíamos o que as velhas solteironas ou viúvas de M.F. nos traziam, agora com o terreno livre. E que petiscos: migas ripadas, carne de porco estufada com castanhas, perdiz com molho vilão, a inevitável feijoada à transmontana… Nunca comemos tão bem. Entravam-nos pela casa adentro no dia que lhes estava atribuído tacitamente, fingiam ser simpáticas para mim, maternais, punham-se a mexer em tudo por toda a casa, a comentar desdenhosamente as opções de arrumação das precedentes, faziam cara de nojo ao cheirar os restos de comida da véspera… Esta exibição durava até serem expulsas pelo velho António que queria jantar sossegado comigo.
Depois do jantar, António sentava-se no sofá de couro, agora já sem os naperons. Punha os pés em cima de um banquinho. Bebia e dormia um pouco em frente à tv, levantava-se, arrastava-se para a cama e dormia. Às cinco e meia estava de pé. Nunca o vi como um homem, mas sim como parte daquela serra, daquela paisagem dos vales do Douro.
Com as minhas mãos no parapeito de pedra e com a cabeça de fora da janela do meu quarto, olhando em frente, tinha a impressão de pairar sobre o vale, como um falcão. Se o vento me soprasse de frente, parecia mesmo estar a voar. Só o castanheiro me recordava que havia algum chão firme antes do vazio daquela arriba a pique até ao rio, lá muito em baixo, onde via os barcos com as pipas de vinho, a descer para o Porto. Habituei-me assim, desde pequeno, a olhar para abismos sem ter vertigens e até a dormir ao lado deles.»

esboço de uma primeira parte de uma cena que ainda se arrastou umas boas 40 páginas interessantes, mas helas. e não me corrijam erros, obrigado.

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13 thoughts on “hoje é um copy paste

  1. Ui, méne… São os problemas de escrever sobre geografias e situações já descritas: ainda que seja teu e que eu goste de como tu escreves, não deixa de soar ao “O filho de mil homens” do Walter Hugo Mãe triturado no passevite com uns temperos durienses da Agustina Bessa-Luís.

    1. tu às vezes dizes com cada uma ó vareta que só posso mesmo pensar que o teu desporto nacional é provocar-me. Isto foi por eu ter cancelado o jantar à última da hora?há alguma base de dados onde possa consultar regiões livres onde espetar a minha bandeira literária? Só preciso de um bairrozinho por exemplo. Ah, e está descansado que no que concerne à acção que se passa nesta região é muito limitada e cinge-se a um hotel de luxo que por acaso já foi usado pelo Manoel De Oliveira para filmar o vale abraão. Espero que não tenhas problemas com isso.

  2. Isto é tipo discos pedidos? (não digas já não) Há alguma maneira de se reabilitar uma personagem feminina lá para o meio? Para o fim? A tua filha vai ler isso um dia, já não falo na legião de fãs.

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