manual

Tenho o joelho direito lixado, tentei, não posso correr.

Uma febre. A rapariga bonita é uma febre. O sistema imunitário é o primeiro a ressentir-se. Não dormes, não comes bem. Esqueces-te de dormir. Acordas às 5:00 e não adormeces, só a imaginar diálogos. É bonita e então inventas tudo à volta dela, imaginas, é isto, é aquilo. Ela, assustada, é o que é e tu acrescentas, em delírio. As ruas ficam distorcidas em zigue zagues, as conversas das pessoas, aborrecidas. Chamam-te, puxam-te pela manga, hei pá, menino, tens um trabalho a fazer, és pago para isto, concentra-te. É tudo aborrecido, irrelevante, não precisas de comer, de dinheiro, de nada. O polícia conversa comigo, está tenso, vinhas em excesso de velocidade, desculpe, eu admito, deixa-me ir. No restaurante, o empregado fica a olhar para ti confuso pelo montante da gorjeta. Sinto empatia por senhoras de idade que se sentam num banco jardim (sempre o mesmo) em frente à Av. Da Igreja e ficam a olhar em frente para o laguinho miserável  os pombos, a reflectir na confissão que fizeram ou que vão fazer.

boa noite
boa noite menino (outra vez o menino=
está fresco, hã?
está sim, fresquinho

e continuamos, a coxear. Um balcão de mármore, uma bifana a fumegar. Uma cerveja de ouro. Oiço conversas simples, os rituais. Quero meter conversa, dizer algo como “eu gosto do Jorge Jesus”, quando dou por isso, já disse, uns concordam, outros não, não parecem incomodados, acham normal um estranho meter-se e defender o Jorge Jesus

No Metro, um pouco antes, olhei pessoas de frente, só para ver quanto tempo demoravam a desviar o olhar. Isso, cobardes. Subo escadas rolantes a correr, dão-me bolachas, uma promoção, umas miúdas giras. Fico tão feliz com as minhas bolachas das promotoras. Eu que costumo ter fome a meio da manhã. É um sinal.

A minha mãe liga-me: estás bem? sim mãe. Não pareces bem. Mas estou bem, mãe.

O que eu precisava era de um manual .

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10 thoughts on “manual

  1. Belo texto ‘na corda bamba’; cheio de coragem: engodo de apaixonado em que, mesmo assim, não te eximes de dar indícios de:

    – psicose: Ela, assustada, é o que é e tu acrescentas, em delírio.
    – esquizofrenia: As ruas ficam distorcidas em zigue zagues, as conversas das pessoas, aborrecidas.; No Metro, um pouco antes, olhei pessoas de frente, só para ver quanto tempo demoravam a desviar o olhar. Isso, cobardes.
    – nihilismo eivado de frugalidade excessiva: É tudo aborrecido, irrelevante, não precisas de comer, de dinheiro, de nada.
    – pequena corrupção: O polícia conversa comigo, está tenso, vinhas em excesso de velocidade, desculpe, eu admito, deixa-me ir.
    – despesismo e bipolaridade (contrapondo ao nihilismo): No restaurante, o empregado fica a olhar para ti confuso pelo montante da gorjeta.
    – envelhecimento precoce/gerontofilia: Sinto empatia por senhoras de idade que se sentam num banco jardim
    – higiene duvidosa (ao não privilegiares o alumínio) e dieta rica em lípidos: Um balcão de mármore, uma bifana a fumegar.
    – alcoolismo e gosto por linguagem publicitária: Uma cerveja de ouro.
    – bisbilhotice disfarçada de espiritualidade: Oiço conversas simples, os rituais.
    – dificuldades de socialização e tendências demenciais: Quero meter conversa, dizer algo como “eu gosto do Jorge Jesus”, quando dou por isso, já disse, uns concordam, outros não, não parecem incomodados, acham normal um estranho meter-se e defender o Jorge Jesus
    – crendice: Fico tão feliz com as minhas bolachas das promotoras. Eu que costumo ter fome a meio da manhã. É um sinal.
    – propensão para o onanismo: O que eu precisava era de um manual .

    Assim é que é, cartas na mesa e vamos a jogo!

      1. É isso mesmo: na ressaca da pós-modernidade, acho que me cabe lançar uma nova corrente crítica a que proponho chamar “Carochinha” e que analisa o texto sob o prisma do seu impacto no valor de mercado da/do “João Ratão”, autora/autor, nesta grande feira das relações humanas. Evita-se assim qualquer julgamento sobre qualidade literária e desenvolve-se um conjunto de ferramentas metodológicas que tanto podem ser aplicadas a Shakespeare, a qualquer autor publicado pela O Rei dos Livros, à Dica da Semana, à blogoesfera, a qualquer mural do facebook e mesmo ao menor dos tweet. Diz lá que não é bué à frente?…

    1. Vareta: Fiquei deveras rendida a essa nova corrente da Carochinha. Como insisto em compreender-me, desafio-te a leres os meus indícios. Estou disposta a pagar pelo serviço (envia mail com orçamento sff). Depois de Cristo, A Cigana, Freud, Iurd e Dr. Phil, deposito em ti a minha derradeira esperança. Grata desde já pela atenção dispensada.

      1. Aproveito para desabafar, em primeira mão: Certa vez impingiu-me emprestados, uma senhora jornalista, dois ou três livros do Paulo Coelho. A minha vingança? Nunca mais lhos devolvi!

  2. Eu ia só dizer que passei a noite a arder em febre, com o cérebro a 1000 Km/h e que me revejo nesta “confusão” toda que descreve. Ia também dizer-lhe que é capaz de ser boa ideia tomar um paracetamol. Entretanto li o comentário do Vareta e agora não sei se lhe diga antes para tomar um risperdal. Sinto-me confusa, deve ser a febre a subir outra vez.

  3. Ouve, tenho um texto, “manual do fim do mundo” ou outra merda qualquer menos pretensiosa (uma bosta, nunca acabei), com um discurso directo, para mim próprio, para um filho, um manual descritivo com uma quantidade idiota de sintomas equivalentes a estes, só que no extremo inverso de uma relação, no cu da relação, portanto. Acho que é daquelas coisas que só se escreve no momento em que se vive, por isso aguardo ansiosamente uma cólica conjugal para poder postar alguma coisa no blog. Mas enfim, fica a informação, não será plágio, és bem mais positivo que eu.

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