a situação na Grécia

L.-F._Céline_b_Meurisse_1932

(…)

INTERVIEWER

When in your life were you happy?

CÉLINE

Bloody well never, I think. Because what you need, getting old . . . I think if I were given a lot of dough to be free from want—I’d love that—it’d give me the chance to retire and go off somewhere, so I’d not have to work, and be able to watch others. Happiness would be to be alone at the seaside, and then be left in peace. And to eat very little; yes. Almost nothing. A candle. I wouldn’t live with electricity and things. A candle! A candle, and then I’d read the newspaper. Others, I see them agitated, above all excited by ambitions; their life’s a show, the rich swapping invitations to keep up with the performance. I’ve seen it, I lived among society people once—“I say, Gontran, hear what he said to you; oh, Gaston, you really were on form yesterday, eh! Told him what was what, eh! He told me about it again last night! His wife was saying, oh, Gaston surprised us!” It’s a comedy. They spend their time at it. Chasing each other round, meeting at the same golf clubs, the same restaurants.

INTERVIEWER

If you could have it all over again, would you pick your joys outside literature?

CÉLINE

Oh, absolutely! I don’t ask for joy. I don’t feel joy. To enjoy life is a question of temperament, of diet. You have to eat well, drink well, then the days pass quickly, don’t they? Eat and drink well, go for a drive in the car, read a few papers, the day’s soon gone. Your paper, some guests, morning coffee, my God, it’s lunchtime when you’ve had your stroll, eh? See a few friends in the afternoon and the day’s gone. In the evening, bed as usual and shut-eye. And there you are. And the more so with age, things go faster, don’t they? A day’s endless when you’re young, whereas when you grow old it’s very soon over. When you’re retired, a day’s a flash; when you’re a kid it’s very slow.

INTERVIEWER

How would you fill your time if you were retired with income?

CÉLINE

I’d read the paper. I’d take a little walk in a place where no one could see me.

Céline, excerto de entrevista à Paris Review

o

o caminho submerso com pegadas antigas de passeios que deste
o vento frio de norte na costa sul virada a oeste
garrafa na mão,  copo vermelho na tua
orion pleíades vénus, a lua
sol diluído em  laranja no mar
lilás de leste violeta negro a pairar
o vinho francês e o avião da air france
se fosses outra diriam romance
mas tu viste-o voar e eu vi-te sorrir
viste-te nele e eu vi-te partir
despedi-me de ti apesar de ficar
enterrado na areia à beira do mar
gelados ao osso a tropeçar pela duna
as casas dos ricos de vultos na bruma
roupões de seda e palmeiras gigantes
muros, portões e os seus vigilantes
perguntei-te se querias ter uma casa assim
disseste “não”.

saliva dos beijos
de sabor a pecado
a culpa e a sono
os cães à espera
tu fechaste o portão
da parede caiada
e disseste adeus
ao pó da estrada

Prince Lev Nikolaevich Myshkin

Ao fim e ao cabo somos todos uma personagem de um romance russo do século XIX.

The Prince means only to do the right thing, but is somewhat removed from reality; while he has considerable emotional intelligence he has little experience in the ways of St Petersburg society. Motivated by a wish to save all of the characters surrounding him, the Prince falls in love with Aglaya out of a desire to save her, just as he loves Nastasya out of a deep pity for her. In the end he chooses the lattr, but Nastasya, despite her feelings for the Prince, runs off with Rogozhin.

Qual é a vossa?

manual

Tenho o joelho direito lixado, tentei, não posso correr.

Uma febre. A rapariga bonita é uma febre. O sistema imunitário é o primeiro a ressentir-se. Não dormes, não comes bem. Esqueces-te de dormir. Acordas às 5:00 e não adormeces, só a imaginar diálogos. É bonita e então inventas tudo à volta dela, imaginas, é isto, é aquilo. Ela, assustada, é o que é e tu acrescentas, em delírio. As ruas ficam distorcidas em zigue zagues, as conversas das pessoas, aborrecidas. Chamam-te, puxam-te pela manga, hei pá, menino, tens um trabalho a fazer, és pago para isto, concentra-te. É tudo aborrecido, irrelevante, não precisas de comer, de dinheiro, de nada. O polícia conversa comigo, está tenso, vinhas em excesso de velocidade, desculpe, eu admito, deixa-me ir. No restaurante, o empregado fica a olhar para ti confuso pelo montante da gorjeta. Sinto empatia por senhoras de idade que se sentam num banco jardim (sempre o mesmo) em frente à Av. Da Igreja e ficam a olhar em frente para o laguinho miserável  os pombos, a reflectir na confissão que fizeram ou que vão fazer.

boa noite
boa noite menino (outra vez o menino=
está fresco, hã?
está sim, fresquinho

e continuamos, a coxear. Um balcão de mármore, uma bifana a fumegar. Uma cerveja de ouro. Oiço conversas simples, os rituais. Quero meter conversa, dizer algo como “eu gosto do Jorge Jesus”, quando dou por isso, já disse, uns concordam, outros não, não parecem incomodados, acham normal um estranho meter-se e defender o Jorge Jesus

No Metro, um pouco antes, olhei pessoas de frente, só para ver quanto tempo demoravam a desviar o olhar. Isso, cobardes. Subo escadas rolantes a correr, dão-me bolachas, uma promoção, umas miúdas giras. Fico tão feliz com as minhas bolachas das promotoras. Eu que costumo ter fome a meio da manhã. É um sinal.

A minha mãe liga-me: estás bem? sim mãe. Não pareces bem. Mas estou bem, mãe.

O que eu precisava era de um manual .

não sou

… e por isso, sou muita coisa, mas não sou um escritor, descobri isso quando estava na fila caixa do supermercado e havia fraldas e boiões de fruta no tapete. Foi assim mesmo. Tirou-me um peso de cima, entendes? Não estou destinado a coisas grandes, a ser especial, a ser admirado, criticado e recomendado, a dar autógrafos ou a estar na contracapa de um livro, à imortalidade, ao cânone. Era mesmo uma coisa, acho, para arranjar companhia. E por mim, tudo bem, não me importo. Sei que sou o melhor que por aí anda, mas só consigo ser mesmo bom quando estou confuso, quando tenho fome, quando estou sozinho, quando durmo pouco, quando o meu sistema imunitário colapsa, quando tenho febre, quando estou muito zangado, apaixonado ou eufórico ou com vontade de fazer uma coisa má a mim próprio. É mentira, quando estou mesmo eufórico também não me interessa. E não posso andar sempre assim, percebes? Preciso de mim. Precisas de mim. É assim que te pago as coisas, eu. Eu trabalho. E o meu sistema imunitário precisa de mim. Não gosto de escritores sequer, são um cocó de pessoas, mortos vivos, canastrões, depois explico-te. Livra-te. Aparência de sábios, vidas egoístas, sempre a armar-se. E os que se esforçam na última página… Não há nada pior que a consciência da última página, de pensar e repensar a última página, como o Farewell to Arms do Hemingway e o palerminha ainda se gaba à Paris Review que reescreveu aquilo 80 mil vezes e que é muito importante, a última página… Alguém do teatro disse-me uma vez que na peça de teatro o fundamental eram os agradecimentos, que se os agradecimentos fossem convictos e felizes e eufóricos o público saía de lá com a sensação que tinha visto uma grande peça e iam contentes para casa. O que me leva à outra parte, eu não quereria saber da maior parte dos leitores, das pessoas aliás, e sou muito feliz assim. A sério, não olhes para mim dessa maneira, não há aqui azedume ou ressentimento. Eu nem vejo noticiários já. Os escritores lidam com pessoas que não gostam deles e, pior, com pessoas que eles têm vergonha que gostem deles. Têm de aturar pessoas como eu que dizem que eles são um cocó em posts e eles vêm cá parar porque se googlam constantemente e se não googlam alguém lhes faz forward e diz “olha lá, ficas-te?” Achas que aquele, o do Céu não sei quantos, não me lembro do nome, achas que eles não sabem no fundo que são embustes? Sabem sim. Eu tenho vergonha de sair à rua porque sei que sou pior que o Salinger, imagina eles, sabendo que são piores do que qualquer criança que saiba alinhar um parágrafo. Sou pior do que muitos, não é só o Salinger. Isso faz-me sentir que não vale a pena eu fazer mais do que emprestar livros deles, dos bons, e não mos devolverem. É mais útil. Mas não é fácil, a vida deles, mesmo dos maus e até os admiro. Levam nos cornos para ganhar uma fracção do que eu ganho e uma parcela ínfima do que poderei ganhar se me deixar de tretas destas. Têm de aturar coisas. Editores totós, marketing, sessões de apresentação… É tão absurdo. Olha esta gente toda, veio ver-me, que bom. Sou especial. Estás-te a rir? Ridícul… Espera, deixa-me limpar-te o queixo, estás cheia de arroz… Acontece ou não acontece.  Terminaste, filha? – levantou os olhos do prato quase vazio, disse-me ‘PAI COME!’ e continuou a comer o seu arroz de marisco, calmamente. Quando vazou o prato disse “MAIS!” e esticou a palma a mão para cima com aquele gesto de “dá para cá o arroz de marisco”. E dei-lhe.