casa

Hoje quando a vi na creche, sozinha (é sempre a última a sair da creche, devo ser o único pai com emprego), a dizer “pai” e a pedir colo, uma coisa partiu. Mostrou-me os desenhos que fez. O Boneco de Neve é o Maneco de Neve. A cenoura no nariz é a soura. Diz o meu nome? Louwenscho. O nome da mãe? Adianahhh. Tu és a Júlia, indicador na barriga, risos. Vamos de bicicleta na ciclovia, ela às minhas costas, mais direita, mais confortável. Hoje veio calada o tempo quase todo, estava com sono. De vez em quando diz algo e eu digo “ahh pois, a sério?” sem ter percebido nada. Espreita com curiosidade as rodas a girar, o chão a passar. Vou devagar, não por segurança e temer um ramo de árvore caído no escuro, mas porque quero aproveitar aquele momento. Inclina-se, sinto o centro de gravidade a mudar. Depois baloiça os pés. Mexe-me nas costas. Mexe-me no pescoço. Testa-me as orelhas, o colarinho. Encosta a orelha às costas, ouve-me o coração. Fica quieta num semáforo. Abraça-me. Empurra-me. Aponta para um cão e diz “cão, ão ão”. Gostas de cães? “shim”. Como faz o leão? E ela faz um arrwwwrrhhh aspirado e sinto a mão dela em garra no ombro e vamos os dois para casa.

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13 thoughts on “casa

      1. Ah, mas existem.
        O meu ex-marido, de direita (onde é que eu tinha a cabeça?) era belíssimo até ter engordado, agora já é um pai digno do nome, mas é normal, as filhas são lindas (sempre foram), já não exigem nada de muito extravagante como mudas de fraldas, banhos e biberons e fazem-se entender sem intérpretes de permeio quando solicitam com delicadeza um vestido novo ou uma viagem 🙂

        Voltando ao que escreveste: tens textos sobre/com a Júlia que são autênticas iluminações. Percebe-se a baba (a tua, mais que a dela), mas sabes contorná-la como um mestre, apontando-nos um ranho seco, uma expressão intraduzível, o teu lugar perdido diante/ao lado da tua imensa filha.

        Como se diz por aqui: um enorme bem-hajas por partilhares isto connosco 🙂

  1. Não quero que o tempo passe depressa, que não quero. Não quero que a Bolachita cresça rápido, que também não quero. Mas, porra. O que eu gostava que ela já falasse um tico comigo. Bastava-me um ‘sim’ (‘pronto, podia ser ‘shim’) ou um ‘não’ quando lhe faço uma pergunta. Mas só lhe sai ‘hum?’. Do género: mas que raio de língua estás para aí a falar que não se entende?
    Bolas, pá! 😉

    1. eheh Eu já começo a ter saudades dela não falar, às vezes… chego a ficar tonto, com a cabeça a andar à roda e o pior é que às vezes ela repete exactamente a mesma frase cheia de convicção. Tipo dhaa ereumina maneco agua dali? e tu hã? e ela dhaa ereumina maneco agua dali? dhaa ereumina maneco agua dali? dhaa ereumina maneco agua dali? cada vez mais desesperada a apontar para ti e à espera de uma resposta e a ficar cada vez mais frustrada.

      1. Mas olha que também não escapo a esse tipo de frustração. A miúda aponta para tudo o que vê à frente e a modos que questiona – “hum?”. E eu lá digo uma coisa qualquer. Volta a apontar – “hum?”. E eu lá digo mais qualquer coisa. E isso repete-se vezes sem conta. Sei lá eu o que ela quer que eu responda.

        Estou a ver que isto de criar uma criança vai ser tramado até… hum… vamos ser optimistas… até ela entrar na universidade? 😀

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