fatos, revisitados

Desde 2007 que é assim, sempre que visto um fato, as pessoas dizem ‘ELÁAA’. O motivo para isso é que ando 98% do tempo vestido como um maltrapilho, especialmente nos dias em que venho de bicicleta que são todos. Só tenho dois fatos bons e custam mais do que um salário mínimo grego no imaginário do Syriza, cada um, o que não é muito mesmo assim, eu sei – enfim, no meu universo não é, mas compreendo que tendo grande parte dos meus leitores de esquerda, um erro que não consigo corrigir, sei que estas coisas são relativas e para algumas pessoas com vida mais duras, gastar 800 euros numa peça de roupa significa que afinal já não podem ir de férias para Chamonix na Páscoa e têm de ir para Andorra. Mesmo assim, um assalariado mínimo grego poderia – caso o Syriza consiga cumprir as promessas eleitorais – comprar um fato como um dos meus (sem incluir sapatos, cinto etc.) com um mês de salário. É uma questão de poupar ou de viver na rua 1 mês. É possível, é preciso é força de vontade. É como a cana de pesca, daquela cena dos pobres, em vez de lhes dar peixes estilo pescada ou maruca, dá-se uma cana de pesca e ensina-se o pobre a pescar. Eu se fosse sem abrigo, poupava esmolas até ter um fato bom e fazia a barba e ia a uma entrevista de emprego para director de marketing de uma empresa qualquer. Li um artigo de uma alemã que viveu um ano ou que foi com mil euros e trocas, já não me recordo se também trocava o corpo por items, mas sei que só teve de fazer trocas de coisas, do género começar com uma beterraba biológica num vaso e acabar com um plasma de 50 polegadas.

Quando visto fato deixam de me tratar por menino e jovem. Tratam-me assim em todo o lado, os empregados dos restaurantes onde vou ganham uma familiaridade comigo que não pedi. O menino quer o picante? Sim. Quando venho de fato tratam-me por senhor. Uma vez, um dos empregados chegou ao ponto de não me reconhecer. “Então senhor Francisco, hoje trata-me por você?” Ficou a olhar para mim, confuso. Não gostou daquilo!

Tomei a decisão de rentabilizar mais estes fatos e os novos que me sirvam melhor. E para os rentabilizar mais vou passar a usá-los em situações normais. Por exemplo, vou usá-los para lidar com a minha filha quando for preciso ela respeitar-me mais. Sinto que não existe essa distância. Devia ter seguido os conselhos de todos os meus amigos e tratá-la por você. Aliás, eu até ponderei tratá-la por Sua Excelência ou Vossa Excelência. “Vossa Excelência cagou-se toda agora mesmo não foi?”
“shim”
“Vossa Excelência portanto, sabendo que o seu pai, de fato, está atrasado, não podia ter-se cagado toda ANTES de eu lhe dar banho e de a vestir?”
“Eshculpa, pai”.
“Pai não, Vossa Excelência. Senhor Doutor!”
Talvez fosse exagero, mas por falar em doutor, o meu pediatra (de direita) bem me avisou: “se você não trata a sua filha por você, não se admire que não vote PSD”.
Mas é só um exemplo, há mais. Vou passar a usar o fato em todos os sítios onde há um sistema de senhas e há sempre uma esperta qualquer (sempre mulheres) que vai direito ao guichet e que passa à frente de toda gente para “fazer uma pergunta” ingénua porque a vida dela é extremamente importante, especialmente velhas reformadas. À frente de mim, com um fato, ninguém passa, porque um homem de fato tem urgência nas coisas, trata de coisas importantes, a economia nacional está em suspenso quando ele está na fila do talho. E vou usá-lo na noite, eu vim agora do escritório, estou cheio de coca, isto para mim é rotina, baby. E vou usá-lo na praia, calças arregaçadas, pés na espuma. E vou dormir com ele. E vou acordar e já estou de fato de manhã e vou-me respeitar ao espelho e as pessoas vão-me respeitar na rua. Ai isso é que vão!

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3 thoughts on “fatos, revisitados

  1. Eu respeito de igual modo os dois, mas admiro mais um jovem ao pedal do que um Senhor de fato. Enquanto houver pessoas como eu ainda há esperança na humanidade.

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