elas não escrevem nada, mas…

O facto de haver muito mais e melhores escritores homens do que mulheres é uma evidência e também uma evidência clara de abissais diferenças médias entre seres humanos masculinos e femininos, gigantescas, que vão muito para lá de poderem ou não entrar numa barbearia metrossexual do chiado que na prática vende a homens inseguros a compra da experiência do “eu sou um homem, não sou?” e eles dizem “és! agora passa para cá 10 euros” e eles pagam e sentem-se homens. O verdadeiro atentado ao estatuto intelectual das mulheres em países ocidentais são  sucessos estrondosos como os 50 Sombras de Grey. Ou melhor, esses sucessos são uma evidência que a intelectualidade delas é inferior, porque a meu ver – e não cedo nisto – coisas como o futebol são extremamente mais complexas e interessantes que uma telenovela e enquanto que os arquétipos masculinos – nos quais nos revemos na adolescência- são um harrison ford a fazer de indiana jones, os delas são uma bimba qualquer vulnerável e frágil a hesitar entre um lobisomem monocelha e um vampiro apaniscado. Então há uma herança cultural que perpetua isso e por um motivo que me ultrapassa, chegamos a 2015 com uma catrefada de fêmeas que acha que é sinal de cultura dizer que não liga a futebol e depois gostam de Paul Auster para baixo. Uma das coisas que me fascina nas feministas é essa fé na utilidade da defesa de direitos que, a julgar pelos tops de vendas de livros, 90% das mulheres passam bem sem eles, como o de não as acharmos muito estúpidas em geral e parvinhas com as merdas delas e sempre aos gritinhos. E depois ficam frustradas. Estou a ver-me no Estádio da Luz a tentar explicar aos outros benfiquistas o que é o futebol, como se joga, porque é que o Jesus é bom treinador, que se calhar não deviam ofender o árbitro SEMPRE, ou assobiar o próprio jogador que dali por 5 minutos acaba por marcar um grande golo, que não deviam ser violentos para os adeptos dos outros clubes e ter fairplay na derrota.

Creio que uma das possíveis explicações para este facto (voltando aos escritores) se prende com aspectos de competição, sendo a literatura um território de afirmação, de procura de satisfação de um ego carente. Uma coisa como um Hemingway é na prática um adolescente inseguro sempre à procura de se afirmar. Nem todos são assim, é certo, mas há sempre alguma coisa. O Salinger revoltava-se contra isso e por isso meteu uma personagem dele no franny and zoeey a dizer: I’m sick of not having the courage to be an absolute nobody. Não estou a ser condescendente quando digo que acho que as mulheres têm mais coragem de serem absolutamente ninguém, mesmo as que têm sombras de talentos aos 20 e tal e depois se cansam disso. Outra forma de ver isto é achá-las medricas e são no caso de se sentirem frustradas, o que é até é sugerido por estudos.

Praticamente não leio mulheres, talvez apenas por uma questão estatística na boa literatura. No entanto, na minhas lista de escritores preferidos, há algumas mulheres, e nem todas escrevem como homens, porque depois há isso.

Bem, no primeiro lugar, como a melhor escritora feminina que já li, punha a Clarice Lispector, que me foi apresentada pela mãe da minha filha e cuja obra não conheço exaustivamente. O que conheço no entanto, é a expressão máxima da escritora mulher que é mulher e que as mulheres entendem, mas que não é pegajosa a um homem com bom gosto, mesmo quando é pegajosa e sentimentalona e confusa. Mesmo o que não é perfeito dela, é bom e ela arrisca imenso, varia muito, explora, experimenta e escreve maravilhosamente bem. Não é uma one hit wonder. A Clarice também é brutalmente inteligente e o que sai dela dá sempre a nota de não ter medo nenhum e de às vezes até se atrever a ser sedutora pela escrita e sacana. A Clarice é a minha número 1 das escritoras mulheres. Há pessoas que às vezes se queixam de detalhes, dos astros que não se conjugam para o amor ser perfeito, pois a Clarice morreu-me em 1977, o ano em que eu nasci. Isso é que é azar.
clarice

No segundo lugar colocaria a Sylvia Plath (1932-1963) e só por causa do Bell Jar e por se ter mesmo suicidado, o que não é muito comum em escritoras e é bastante estético. O Bell Jar para mim está perto do Catcher in The Rye. Para mim a Sylvia Plath nesse livro é o complementar feminino do Catcher. Faz aquilo em que o Salinger é mestre: desenvolve uma personagem pela qual nos apaixonamos sem remédio e que queremos salvar e não conseguimos porque são personagens. É uma escolha muito pessoal, mas acho raríssimo uma mulher conseguir atingir este ponto de sinceridade e exposição, combinada com uma autoironia ingénua e terna. As mulheres têm um medo absurdo do ridículo e nem com dois pares de estalos lhes passa, ficam sempre um passo atrás de serem elas próprias, a não ser que estejam com os copos, mas aí não querem escrever, riem-se ou choram ou ficam com vontade de dar beijos ao primeiro que lhes apareça à frente. Eu gosto muito do Bell Jar. E foi um best seller. Também morreu antes de eu nascer. Era gira.
U1889231

Flannery O’Connor (1925-1964) Kicks ass. Se calhar devia pô-la no 2º lugar, mas não é tão bonita como a Plath e não se matou, apesar de ter uma doença grave (morreu aos 39). A O’Conner punha o José Luís Peixoto a pedir um aquário e o Valter Hugo a chamar pela Mãe. Escreve duro, bonito, forte, violento. O Céu é Dos Violentos é uma obra prima e adorava tê-la conhecido lá no sul e termos bebido bourbon num alpendre. Esta é o oposto da parva da pior escritora de sempre, a Harper Lee, a do To Kill a Mocking Bird. Se o mundo tivesse mais Flannery O’Connors, os homens piavam mais fino.
flan

algumas citações da Flannery

Everywhere I go I’m asked if I think the university stifles writers. My opinion is that they don’t stifle enough of them. There’s many a best-seller that could have been prevented by a good teacher.


Art never responds to the wish to make it democratic; it is not for everybody; it is only for those who are willing to undergo the effort needed to understand it.

Writing a novel is a terrible experience, during which the hair often falls out and the teeth decay. I’m always irritated by people who imply that writing fiction is an escape from reality. It is a plunge into reality and it’s very shocking to the system.

Anything that comes out of the South is going to be called grotesque by the northern reader, unless it is grotesque, in which case it is going to be called realistic.

Whenever I’m asked why Southern writers particularly have a penchant for writing about freaks, I say it is because we are still able to recognize one.

She looked at nice young men as if she could smell their stupidity

All human nature vigorously resists grace because grace changes us and the change is painful.

etc. é do caraças a O’Connor.

E depois esta senhora em 1817…
mary shelley
escreveu isto:

frankenstein

um clássico reeditado através dos tempos

frank2

frank

e não tenho tempo para falar na Daphne Du Maurier.

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11 thoughts on “elas não escrevem nada, mas…

  1. Eu incluo Murasaki Shikibu nas grandes escritoras.
    Não menosprezar:

    Irène Némirovsky;
    George Eliot;
    Djuna Barnes;
    Annemarie Schwarzenbach;
    Dorothy Parker;
    Katherine Mansfield;
    Willa Cather;
    Etty Hillesum;
    Eudora Welty:
    Simone de Beauvoir;
    Muriel spark

      1. Não, exceptuando Shikibu (O romance de Genji, considerado o primeiro romance literário do mundo. Muito interessante) todas escreveram vários livros.
        Annemarie Schwarzenbach teve uma vida tão trágica quanto a de Plath.
        Faz uma pesquisa e vais ver que te surpreendes.
        Elsa Morante também vale a pena.

  2. Assim portuguesas contemporânes recomendatava te a Dulce Maria Cardoso (o Retorno, lê, por favor, só para ver o que vais dizer de mal :D) e na poesia a Golgona Anghel.

  3. A Eudora Welty também é muito boa, lembra a Flannery às vezes. Também tens a Shirley Jackson com o “Sempre vivemos no castelo” que também é do género. O livro mais violento que li foi “A Dor” da Marguerite Duras, um diário da resistência ao nazismo, brutal, de ficares maldisposto fisicamente. Da Duras tens também “O Amante” uma espécie de Lolita (sacrilégio, a escrita nao é tão polida como a do Nabokov, evidentemente, mas as personagens são muito mais interessantes e não tem um baboso como o Humbert Humbert). A Harper Lee é infanto-juvenil, não faz sentido comparares. O Ricardo falou no “Retorno” da DMC, que se lê bem, mas sobre o mesmo assunto tens o “Caderno de Memórias Coloniais” da Isabela Figueiredo, que para mim é muito mais intenso. Caraças, estou-te a sugerir um livro de (1) um autor português (2) uma muher (3) que ainda está viva. Devo estar tolinha.

    E da próxima vez que deres com o cotovelo na esquina de um móvel é castigo por teres falado do Peixoto e do Mãe no mesmo post em que falaste da Flannery. Menino feio!

  4. Portuguesas prefiro a a Gina. Poucas palavras é certo, no entanto a ponte entre a imagem e o texto mantêm o leitor colado à estória até ao fim! No mundo da ficção, oral e escrita, não me parece que haja melhor. Já estrangeiras prefiro as americanas.

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