O deserto do Atacama

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O Atacama. A extensão vasta e vazia, onde não se ouve nada a não ser o vento a assobiar e rochas que estalam ao sol ou ao frio. O sítio mais seco do mundo, chamam-lhe, o mais inóspito e solitário. Por vezes passam nuvens carregadas de água entre os meses de setembro e novembro e mal chove, umas gotas. É preciso a ajuda do El Nino no Golfo. Mas o El Nino brinca no mar e nem sabe que o Atacama existe e não se importa com isso. À noite, há o céu mais estrelado e puro do mundo e ninguém para o ver a não ser o Atacama e raras raposas cinzentas do deserto. Palmilham extensões enormes e escaldantes, as raposas, à procura de um ou outro ratinho. Às vezes encontram um rato e têm mais fome de companhia que de carne e preferem ficar sentadas numa duna com o ratinho a ver um por do sol. Há flamingos dos andes, vão comer algas nos lagos rasos perto do Pacífico. Descem do céu, umas manchas perfeitas, rosas, em cima do branco do sal, mas ficam pouco tempo. Debaixo da pele do Atacama há sementes de flores que dormem de olhos fechados a sonhar com um jardim durante décadas. Mas de repente, um dia, chove. E chove muito. Chove tanto que nem parece chuva, mas dez mil quedas de água. E as sementes acordam  e são flores dizem olá umas às outras cá em cima. E durante uns dias o Atacama esquece-se que é um deserto e transforma-se num jardim enorme, lilás, branco, amarelo, verde. Os nativos chilenos chamam-lhe simplesmente o desierto florido. Aterram aviões com turistas, toda gente tira fotos ao Atacama  e passeiam de jipe no Atacama, os insectos aparecem do nada e pássaros jovens admiram-se com a fartura e nem querem acreditar pois nunca viram antes. Mas as nuvens não voltam e o Atacama vai recordando a pouco e pouco que é um deserto, incrédulo no início, mas resignado ao fim de uns dias céu azul branco. Os aviões descolam, os flamingos vão, os insectos desaparecem e o chão seca. As novas sementes, após serem arrastadas pelo vento, enterram-se na areia e adormecem e é a sua vez de sonhar com o jardim das suas mães. E só se ouve o vento outra vez e com sorte pode ver-se uma ou outra raposa a vaguear.

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