para que serve a mulher

Saí para almoçar no bairro. Assim que abri a porta da rua e pisei a calçada, fui surpreendido como se o Verão me tivesse feito uma emboscada. Andei pela rua de casaco ao ombro, as pessoas almoçavam em esplanadas, com as crianças irrequietas em cadeiras de alumínio. A maior parte dos sítios estavam fechados, incluindo aquele onde queria ir e ficar ao balcão. Entrei na única tasca da minha rua onde nunca entrei. É daquelas onde somos forçados a uma intimidade imediata com toda gente, fruto da disposição das mesas, próximas, em linhas, cadeiras viradas de frente umas para as outras e pela familiaridade entre os clientes, todos do bairro.  A proprietária, muito simpática, é senhora de idade que me pareceu ser minhota de origem, pela decoração e ementa e um vago vestígio na pronúncia. Hesitei entre ficar de frente para o homem que lia o jornal ou de frente para uma senhora de idade,  e optei pela primeira, ficando também de costas para a porta. A proprietária disse-me ‘olhe que assim não vê as beldades que passam aqui em frente, há com cada uma que não imagina’.  Disse-lhe que imaginava sim e não mudei de opinião quanto a onde me sentar. Pedi um bacalhau assado e fiz um esforço inútil para me concentrar no Foundations do Isaac Asimov. Era uma cena qualquer sobre um depressor de campos nucleares que podia mudar o curso da guerra e tornar obsoleta toda a frota de naves dos traders.

E depois de quase todos saírem, só fiquei eu e a senhora de idade, a das minhas costas, que conversava com a proprietária. A proprietária queixava-se de um cliente que trazia a própria garrafa de EA para o estabelecimento porque era  dois euros mais barato e depois metia-se com todos e tinha de ser expulso. A outra dizia-lhe ‘mas sabe, na maior parte dos sítios não é permitido trazer bebida’ e a outra respondia ‘não quero saber, que tragam ou não, não quero é confusão’. E depois foi mostrar a garrafa que lhe confiscou ainda a meio e disse ‘já tenho vinho para mim esta noite’, arrumando-a numa prateleira de um armário velho. E sentou-se a descansar e começaram a falar, primeiro baixinho, mas percebendo que eu estava muito imerso no meu livro, depressa me esqueceram. Pelos vistos passou mais um homem com um ramo de flores, vindo do florista ao lado, porque a proprietária comentou ‘olha, mais um com um ramo de flores, hoje é dia da mulher’ e foi para a porta vê-lo a descer a rua e a outra confirmou ‘pois é’ e acrescentou que o dia do pai era dia 19 de Março. Achei interessante o aparente lapso de confundir dia da mulher com dia da mãe ou de equiparar um dia do pai ao inexistente dia do homem, como se só um pai fosse mesmo um homem.

Como por vezes sucede entre pessoas naquela melancolia pós-almoço, própria de um início de tarde quente e mole de domingo, as conversas tornam-se respirações cheias de pausas, as ideias passam a boiar num rio largo e preguiçoso. Então falaram dos respectivos maridos mortos. A impressão era a de descreverem crianças grandes, teimosas, um pouco susceptíveis, sempre à beira de fazer disparates, contra os conselhos delas ou dos médicos. Ambas concordavam que não se podia mandar neles como outras faziam, as muito chatas e citaram nomes de chatas, curiosamente, todas com os maridos ainda vivos. Depois calaram-se e ficaram assim, caladas, talvez a ver fantasmas com ramos de flores a passar na rua. Custou-me interromper o silêncio para pedir a conta e sair, depois de desejar boa tarde.

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