Mein Kampf

Proibida a sua edição, a partir de 31 de dezembro de 2015, o livro Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, poderá ser novamente comercializado pelas livrarias alemãs.

Felizmente. É o  “proibir” e o debate se sim ou não que lhe confere uma mística e lhe atribui um significado desmedido. Se proíbem é porque têm medo que as ideias ou a argumentação nele contida exerça uma espécie de feitiço ou fascínio demolidor sobre mentes impressionáveis em 2015. De outro modo, porquê proibir? De resto, o livro está mais do que disponível num domínio gratuito, desde sempre (http://downloadmeinkampf.com/) A proibição serve apenas para definir as fronteiras do politicamente correcto, portanto, não deve existir, ou então temos de levantar um debate sobre se o Corão deve ser proibido ou o Charlie Hebdo ou a Bíblia. Ou livros como os de Mark Twain ou as BD’s do Tintim. E nunca mais acaba. Não é mau o livro ser editado e contextualizado, comentado e estudado. Eu não o li, só bocados. É tão extremo e antisemita que quase podia ser cómico. Nele podemos ver certos padrões, como a crença absoluta de agir em nome de Deus, a ausência de realismo, de noção, o misticismo, a loucura, a ausência de escrúpulos para construir uma fatherland, tudo igual  ao que se vê no modo de agir do IS e que tanta gente relativiza e procura contrapontos racionais. Não há finalidade racional, aquele Mein Kampf ou a forma de pensar do IS é tão absoluta e mística que redunda invariavelmente no próprio colapso catastrófico. Pelo menos o Mein Kampf, escrito em 1920 e pouco, quando lido depois da II Guerra Mundial e à luz do que se sabe da história, é a prova de onde leva aquele tipo de psicose se levada a sério.

Noutra nota, também os podemos ver alguns padrões no actual Governo Grego que nem por acaso está coligado com a extrema direita: a táctica de remexer em feridas velhas como as da submissão da alemanha pós 1ª guerra mundial para acicatar ódios e patriotismos, nacionalismos, o populismo, o amigo do povo, do cidadão comum, versus as elites da época, a invenção de inimigos exteriores obstinados em destruí-los (o eixo Portugal Espanha por exemplo), a procura de inimigos interiores que  não são puros (ex: a suposta zanga com os membros do governo que quereriam viaturas, a demissão dos assessores e contratação das domésticas despedidas etc.), a exacerbação dos mártires que pereceram às mãos dos pais e avós dos inimigos de hoje  (depositar flores em campas de mortos pelos nazis), a procura de coligações ou parcerias com inimigos dos inimigos, como sugerir a Rússia, a China… O facto do Governo ser de coligação com a extrema direita, cujo ministro ameaçou abrir as fronteiras e soltar os jihadistas até Berlim, nem parece fazer soar alarmes na cabeça de muitos, quanto mais dos próprios moderados. Varoufakis diz que é “depois deles que podem vir os extremistas”. Mas pelo comportamento e palavras diria que já chegaram. Veja-se a inenarrável sopa confusa do seu “mein kampf” onde tenta explicar, num texto supostamente comovente e pessoal, porque se tornou num marxista errático, um texto onde não falta o judeu (essa criatura que é o neoliberal), e os saltos de fé que exige ao leitor, místicos, e até ao próprio Marx, o seu ídolo, que acusa de cometer um erro por se resumir aos números e à matemática:

Marx’s second error, the one I ascribe to commission, was worse. It was his assumption that truth about capitalism could be discovered in the mathematics of his models. This was the worst disservice he could have delivered to his own theoretical system. The man who equipped us with human freedom as a first-order economic concept; the scholar who elevated radical indeterminacy to its rightful place within political economics; he was the same person who ended up toying around with simplistic algebraic models, in which labour units were, naturally, fully quantified, hoping against hope to evince from these equations some additional insights about capitalism. fter his death, Marxist economists wasted long careers indulging a similar type of scholastic mechanism. Fully immersed in irrelevant debates on “the transformation problem” and what to do about it, they eventually became an almost extinct species, as the neoliberal juggernaut crushed all dissent in its path.

 

Anúncios

5 thoughts on “Mein Kampf

  1. eu li as tuas primeiras linhas depressa e percebi ao contrário, que ia ser proibida a venda a partir dessa data. Toda contente, porque está na estante da biblioteca do meu pai, e pensei que daqui a uns tempos poderia ser uma edição valiosa 😛
    (depois li melhor e percebi; eu não o li, sou preguiçosa demais, mas quem o leu diz que é uma valiosa lição para percebermos melhor o fenómeno de ideias completamente distorcidas em que ele próprio acreditava e com que conseguiu arrastar multidões em discursos)

  2. e o que é mais giro, está na prateleira dos políticos e jaz ao lado do perestroika, aha, fazem companhia um ao outro, devem ter umas belas conversas durante a noite, quando a casa dorme 🙂

  3. Tenho uma edição portuguesa dessa bela cagada: ‘A Minha Luta’. Li há muito. Trata-se de um livro medíocre. Tem interesse somente histórico: Não explica nada, não serve para nada a não ser para deixar evidentes as limitações do próprio autor.

    De resto, nos dias que correm, o extremismo que me assusta é o financeiro. Tudo indica que a finança aliada à idiotia alemã estão a conduzir esta merda toda com afinco, e uma vez mais, para o desastre. Nessa altura conto já ter adquirido uma cabana no meio da mais remota selva amazónica. Uma cabana sem Internet.

      1. Com certeza que sou. Por isso é que acredito acima de tudo na perene estupidez e cupidez do género humano. E é exactamente por isso que acho que a ladroagem deve estar atrás das grades e não à frente dos bancos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s