o 8º passageiro

isolation

ok, primeira vez que tenho um jogo de ps novo e não jogo a ele mais de 30 minutos por noite por me stressar demais. Gostava que seja quem for que inventou o cliché de filme de terror de rastejar na conduta de ar condicionado escura com uma lanterna sempre à espera que apareça um bicho horrível à frente, ardesse no inferno. Melhor, que tivesse de jogar a um jogo em que tem de rastejar numa conduta de ar condicionado às escuras com uma lanterna à espera que aparecesse um bicho horrível a qualquer momento.

Bem melhor que literatura.

Entretanto afinal a rapariga do prédio da frente, a tal paixão platónica da universidade, tem um bebé. É pequeno, deve ter sido mãe há pouco tempo. Vi-os a jantarem juntos, numa luz agradável, os dois, depois de o deitarem. Ele falava e gesticulava, entusiasmado, devia estar a falar de trabalho, de coisas que disse a um chefe ou um colega, para ele ver se aprendia. Ela andava de um lado para o outro na cozinha. Abri uma garrafa de um vinho.

o clube de judeus escritores na andropausa (Bellow, Roth etc.)

Estou a ler o Herzog do Saul Bellow e isto parece uma fotocópia do Human Stain do Roth, embora um pouco melhor, mais elegante pelo menos. O Roth está para a literatura como os Mercedes para os taxistas. Estou um bocado cansado desta lenga lenga, foda-se. O judeu americano a ficar velho, decadente, o académico brilhante cheio de neuroses, incapaz de viver e saborear a vida, sempre a comer gajas 20 anos mais novas que são sexualmente desenvoltas e eles uns enconados e enfastiados, por causa da figura materna, da culpa, da condição, do meio intelectual, das origens humildes num bairro pobre de Ny, da excentricidade, da paixão pela goy loira, do nariz ou inserir aqui outro estereótipo. Pá, se fores judeu e fores a Anne Frank ou viveres em França, tens tema. Se não fores, deixa-te de dramas. É bom que este livro pegue e descole, porque YHVH me livre de aturar mais 500 páginas disto.

something you will never forget

Hoje de manhã, linha verde, saiu na baixa chiado, bem engraçada, cabelo arruivado com franjinha, roupa à indie coiso, mala amarela. Tive de correr para a apanhar e espreitar o que ela estava a ler e tirar as dúvidas. Já me aconteceu fazer o filme todo e depois aproximo-me e estão a ler José Luís Peixoto e fico bestialmente deprimido o dia todo. Só consegui ler Fromm em grande na capa, pareceu-me ser isto, mas a capa era verde.
fromm
Erich Fromm é um autor aceitável, mas isto pode ser qualquer livro dele, desde que a edição diga Fromm. Se souberem quem é, contactem-me, obrigado.

Obviamente não a contactaria assim do nada em pessoa na altura, visto ser uma rapariga com estilo e que dá importância à transmissão da personalidade pela roupa, incluindo o ser alternativa e essas coisas. Há defeitos piores. Apesar de estar com o Herzog do Saul Bellow nas mãos, a minha roupa casual, quando não estou de sapatilhas a correr ou a pedalar, não me transmite ou transmite tudo errado.

Agora uma música alegre apesar de repetir em loop “one day you’ll be lying dead”. Nunca se esqueçam disso e bom dia.

o sonho do Monk

Para além de facas de cromio vanádio agora sou uma pessoa que cozinha a ouvir Telónio.
Dá um ar extremamente sofisticado à pizza congelada no forno a 200º (180º com ventilação) por 10-12 minutos ou quando o queijo estiver derretido. A verdade é que descobri que a minha vizinha da frente das traseiras que dá para a minha cozinha é uma paixão platónica da universidade. Vem à janela fumar, com ar de estar a fugir de alguma coisa. Um tipo aborrecido. Acho que só me falou quando me praxou (é um ano mais velha). Tenho quase a certeza que é ela. Já a tinha visto na rua pelo bairro com o namorado, um tipo com ar civilizado e mais velho. What are the odds? Tento não ser creepy, mas vou buscar os binóculos a casa da minha mãe visto que o zoom digital da máquina fotográfica não foi suficiente para tirar as dúvidas. Às vezes vejo outras pessoas lá por casa. Estão sempre com visitas e amigos aos fins de semana. São esse tipo de pessoas, esse tipo de casal. Não nos íamos dar bem, isso é certo. Também não me fumava em casa, com a miúda. Se ela pensa que eu vou cozinhar o meu pato à francesa para os amiguinhos dela, está muito enganada. Next steps, para além dos binóculos, é aproveitar as noites sem Júlia para cozinhar com as luzes acesas, janela aberta a debitar jazz e em tronco nu, nem que me foda todo com as melgas.

faca do chefe

faca

A minha segunda geração de instrumentos de cozinha tem-se pautado por escolhas cuidadosas que favorecem o premium. Sempre sonhei com uma faca de crhomium-vanadium. Talvez não. Talvez só a partir do momento em que lhe peguei na loja e ensaiei os movimentos de picar cebola ou fatiar um tomate imaginário e o senhor de idade espreitou por cima do meu ombro e disse “ahh, vejo que é um conaisseur“. Foi buscar um pano e pousou-a em cima do pano. Ficámos os dois a admirar a sua ausência de reflexos luminosos, como se a superfície cortasse a própria luz solar, assim como as depressões ovais na lâmina para impedir o vácuo após o corte e permitir a soltura das fatias de courgete. Explicou-me que normalmente nem mostra essa faca aos clientes. Só me faltou dizer que era uma Hattori Hanzo. A marca, contudo, é portuguesa: Ivo. E parece que ganhou prémios de design e inovação a nível mundial, na alemanha e tudo. Uma liga de aço que incorpora carbono, manganésio, fósforo, enxofre, sílica, crómio e, claro, vanádio. Isto é essencial para cozinhar. Não sei como cortei coisas durante 20 anos com uma faca comprada numa grande superfície. O carbono permite cortar hidratos de carbono. O manganésio para o amnésio. O fósforo acende o bico do gás. O enxofre corta cebolas e a sílica é idílica. O crómio é porque é isso que sou, na cozinha. O vanádio é que não sei.

Já em casa, testei-a. Foi divertido cortar um tomate pousado na tábua de um só golpe, com as duas metades a ficarem juntas depois da faca passar, como nos filmes e o tomate sem se mexer. Corta tanto a faca que é complicado guardá-la. Vai acabar por cortar tudo até ao núcleo da terra. Como todos os cozinheiros e dragon slayers, dou nome às minhas facas. A esta, chamo-lhe Death Star. E faz pandã com o meu avental do Garfield.

O mundo está cada vez pior

O mundo está cada vez pior. A natureza está a revoltar-se contra as agressões sobre a Terra que os mercados usurários lhe estão a causar. O que se passou no Chile [ erupção vulcânica] é um exemplo de grande gravidade. Mas não é só no Chile, também agora no Nepal, com repercussões na Índia, China e Bangladesh, onde um sismo de grandes proporções vitimou milhares de pessoas. Não podemos ver estes factos como meros fenómenos naturais. – Mário Soares, no DN, 28 de Abril, págin 8

usurario