a ilha

robinson_crusoe

Volto ciclicamente a Robison Crusoe e a cada regresso à ilha, sempre inesperado como os naufrágios são, tenho de reconstruir abrigo e rotinas, caçar e planear forma de me sinalizar quando passar um navio mercante no horizonte, como um monte de lenha bem seca no topo da montanha, acendalhas e fósforos dos grandes. Robison vive sempre no delicado equilíbrio entre duas forças, a que o torna humano, civilizado, com moral, e a que o reduz a um animal que se rebola na lama. Sem civilização, sem testemunhas, toda a vontade tem de partir dele, nada é imposto. Toda gente, penso eu, sente essas forças antagónicas, como períodos de procrastinação em que o dia parece voar sem utilidade ou uma noitada de excessos, deixando um rasto de culpa. E períodos solares em que sentimos a o amor próprio refeito, reabilitado, por termos feito algo de bom, nem que seja finalmente mudar uma lâmpada fundida.

Dentro destes estados, há naturalmente extremos. Os meus extremos envolviam não falar com ninguém com garrafas e latas a acumular-se no lava-loiças e cinzeiros a transbordar, dois ecrãs com mesas de poker online, vestido com um roupão coçado, não atender telefone nem responder a mails ou enviar e-mails destinados a não terem resposta. Outro é uma rotina ascética, solar, física e generosa. É um fio da navalha estreito e ambos os estados convivem. Aprender truques para manejar uma rotina equilibrada na solidão, tem tanto de positivo como, em certa medida, de assustador, pois somos criaturas de hábitos.

O comum aos dois estados é a condição da solidão, mas agora nestes dias intermitente, como a luz de um farol. Quando tenho a pequena pessoa comigo, quando a levo às costas na bicicleta, está sempre maior, mais faladora, mais pequena pessoa e menos bicharoco selvagem. Se no início ela bem que podia ser o meu animal de estimação na ilha, à falta de cão, a quem atirava pedaços de comida saudável, agora assemelha-se cada vez mais a alguém definido que me conta histórias a apontar para os desenhos, andando com as páginas de forma completamente aleatória e enervando-se muito se esboço uma tentativa de narrativa linear mais parecida com a intenção original do autor. Damo-nos bem e, apesar de ser bastante previsível nesta coisa de se ter filhos, não deixo de ficar sempre surpreendido com a evidência que tenho companhia especial e dedicada. Um milhão de coisas a mostrar-lhe.

Descobri que, inflingindo-me um cansaço físico e provações semelhantes (a uma escala reduzida) às de um náufrago numa ilha a caçar e construir o seu abrigo, as coisas primárias, como comer bem e dormir bem, tornam-se inevitáveis, nem são uma escolha, são impostas. Dormimos porque estamos exaustos, comemos coisas boas porque precisamos dos nutrientes. Talvez parte da maldição moderna, não estando doente, não tendo fome, é termos uma existência despida de exigências práticas em que o espírito, a mente, tomam conta de tudo, abafam tudo, criam ruído, ecrãs e fomes. Eu acredito, já o disse, num caminho lateral, isto é, chega-se a algo de espiritual fazendo 180km a pé até Fátima, mesmo sendo não crente, é garantido. Esta lenga lenga só fará sentido para os espíritos mais inquietos, os outros podem rir-se.

Temos pés, mas reparamos nos nossos queridos pés sem ser quando os pisam? Digam obrigado aos vossos pés logo à noite e façam-lhes uma massagem ou peçam a alguém que vos faça uma massagem aos pés. Ou comprem daqueles massajadores de pés que só se usam 1 vez.

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2 thoughts on “a ilha

  1. Vá lá… Entre solidão e massajadores, cheguei a pensar que repescasses o conceito de “massajador facial”, tão popular em certos catálogos de antanho.

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