hobbits

Sempre que vejo dois ou três anões juntos na rua a andar, como vi hoje na baixa, não consigo evitar pensar que são halflings que vieram em excursão à cidade e sorrio para eles, para mostrar que sou amistoso  e que talvez possamos fazer trocas. Por falar em halflings, a poesia, que é um dos meus hobbits, tem um problema de credibilidade. Há bons poetas (deve haver), especialmente quando morrem e toda agente fica a saber que estavam vivos, mas depois há poesia que eu acho que podia mesmo ser gerada aleatoriamente por um bom algoritmo que seria impossível de distinguir de poesia humana para quem não soubesse como tinha sido feita – técnica não muito diferente da que Bourroughs usou nas Cidades da Noite Vermelha, com o seu recortar aleatório de palavras. Aliás, mesmo sem ser de propósito as mensagens de erro do saudoso windows até à Millennium edition tinham verdadeiras pérolas.

delete

A poesia também tem o problema de se sobrepor  parcialmente ao que a minha filha e qualquer criança faz espontaneamente, antes de ser devidamente, e muito bem, condicionada pelo sistema educativo herdado da revolução industrial, sistema contra o qual toda gente que recusa o darwinismo social e conta com os impostos da minha filha para sustentar os próprios filhos que se entretêm em cursos de artes e hortas hurbanas aplicadas, se revolta. É certo que as metáforas dela são coisas um pouco primárias, como apontar para o termómetro digital e dizer “relógio do cocó”. De resto, com uns parágrafos pelo meio, o que podia ser uma manhã difícil transforma-se em poesia

Non, ou a vã glória de dizer não quero

veste o casaco
não quero o casaco

está frio
não quero está frio
então veste o casaco
não quero veste o casaco
mas vamos para a escola
não quero vamos para a escola
olha, o menino na tv está vestido
não quero menino na tv está vestido
olha que vou sem ti, adeus
Não quero sem ti, adeus
vá Júlia, põe aqui o braço na manga
não quero vá põe aqui o braço  na manga
já estou atrasado!
não quero já estou atrasado
adeus!
não quero  adeus.

Anúncios

6 thoughts on “hobbits

  1. Pois ó meu amigo, tudo isto denota é um espírito pequeno-burguês muito contemporâneo e uma escolha continuada de alguns tropos na construção da tua personagem, que te leva a querer enfiar seja o que for na centrifugadora da anti-poesia, mesmo quando, como neste caso, muito mais se aproximaria de algumas correntes da dramaturgia.

  2. Dois mil cento e vinte e oito dias depois, por estes lados, a poesia mantém-se em tudo semelhante. Mas olha que isso dava uns haikus excelentes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s