la expresión es libre

Na Grécia o ideal seriam eleições ou referendo ao Euro e a UE aguentar tudo até ao fim do processo. O Syriza não foi eleito com a premissa de conduzir a Grécia para fora do euro. Não  existe consenso, nem mesmo dentro do próprio partido.

Podemos assumir que Tsipras ou Varoufakis queriam mesmo ficar no Euro como anunciaram ao eleitorado, que eram suficientemente tontos, talvez à custa de se darem com poucas pessoas para lá de um círculo de seres semelhantes, para acreditar que o seu programa eleitoral era exequível. É desculpável. Por exemplo, eu, quando estou em provas a conviver com ultramaratonistas, fico convencido que toda gente adora correr e quer fazer a Badwater e tenho mega desilusões quando falo com pessoas normais. Face ao que aprenderam entretanto no curso intensivo e no erasmus desde então, digamos assim, podemos imaginar que são de certeza um pouco mais experientes, têm mais mundo e sabem com o que contam, tanto assim é que dentro do Syriza parecem hobbits regressados da Terra Média, tentando convencer os colegas de partido mais idosos que o mundo não é plano, que estiveram em Berlim e não apanharam peçonha e que a Merkl não cheira a enxofre, que é melhor se calhar rever alguns pontos. Deviam partir daí e apresentar as suas condições e intenções ao povo grego e serem legitimados para carregar no botão vermelho (literalmente ah ah) se fosse caso disso. E pode não ser uma decisão errada, eu até a acho natural. Em todo o caso, a minha previsão desde 2010, é de que é inevitável e, se me pedirem muito, explico porque isso não vai suceder com Portugal, essa espécie de suécia latina no que respeita à cultura democrática e cívica, um povo que, permitam-me, é a todos os níveis dotado de uma maturidade quase oriental, japonesa mesmo, que não deixa de me encantar e que colide de forma tão espectacular com a dos nossos vizinhos hululantes e gesticulantes, por exemplo, vizinhos de quem gosto muito também, mas que são muito mais perigosos para eles próprios, como bem mostra o ainda brincarem às autodeterminações, podemos e guerras civis e mesmo a merda das claques de futebol são de extrema esquerda e extrema direita, e não todas de extrema direita como em qualquer país civilizado.

Por cá o PCP defende claramente um referendo e sempre foi euro-céptico. Talvez por isso o nosso PCP nunca descole nas sondagens: é o que é, goste-se ou não, mas pelo menos não veste uma pele de cordeiro. O voto no PCP traduz a vontade que os portugueses têm de viver na espécie de sociedade idealizada pelo PCP ou, no mínimo, de um protesto consciente. Desde o 25 de Abril que o PCP tem feito o favor ao país de obter resultados quase sempre miseráveis nas urnas como, de resto, toda a nossa extrema esquerda, o que suscita também os inusitados queixumes do “votam sempre nos mesmos” ou “estes portugueses são mesmo estúpidos” que traduzem, de forma enternecedora, a própria noção de democracia.

O perigo dos Podemos, dos Syrizas ou das Frentes Nacionais (tão fofa e sofisticada que anda a Marine Le Pen), para além de serem um motivo suficientemente forte para eu emigrar de vez, está  na moderação do discurso como instrumento de poder, na aparente sofisticação, urbanidade, coolness e carisma, do que propriamente num radicalismo transparente.

Mesmo o ensaio fotgráfico para a Paris Match tem a intenção de mostrar que “são burgueses” e não o revolucionário metalúrgico de punho erguido com prognatismo.varoufakis

Isto é o pessoal que lê, que toca piano, que aprecia as coisas boas da vida. Nada temei, classe média, ó europeu: nós somos como vocês. Mas lendo o longo e confuso pensamento de Varoufakis sobre como se tornou um marxista errático (cá está, o errático, não é sempre, às vezes é uma pessoa normal que tem dúvidas como nós sobre as coisas em geral), chocamos de frente com os milagres lógicos, a visão preto e branco do mundo, o espírito messiânico,  os inimigos desumanizados (o inevitável capitalista, essa figura misteriosa que inclui desde o Soros ao grego que tem dinheiro no banco, passando pelo reformado português que comprou papel comercial do banco errado…)

O feitiço funciona, e funciona mesmo bem, junto de pessoas que, ao mesmo tempo que defendem (com sinceridade) ideais de liberdade, não conseguem destrinçar em que medida a visão da sociedade e democracia implícita na ideologia dos Syrizas e Auroras Douradas é contraditória com a liberdade e democracia em que acreditam, especialmente pelo inevitável fracasso económico a que estão condenados e que geram totalitarismos e opressão de liberdades como forma de contenção e gestão corrente. Para o demonstrar, diria que não é preciso ir à história repescar exemplos empíricos, eles existem no presente.

livre

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4 thoughts on “la expresión es libre

  1. É estreito, rapaz. Posto com graça e elegância, o pensamento, mas estreito. Literalmente, também, numa espécie de apostolado do afunilar ao centro. Só não percebo qual é a mensagem de base: a democracia foi mal exercida na Grécia? Ou queres estabelecer o precedente de sujeitar a referendo ou eleições antecipadas qualquer governo que se desvie do seu discurso/programa eleitoral?

    1. 1) não é apostolado do afunilar ao centro, mas se isso está implícito no desvio dos extremos, por mim tudo bem. O meu centro é amplo, não é estreito.
      2) chamar “desvio do discurso programa eleitoral” a sair de uma moeda e entrar em default, paralizar saída de capitais durante quase um ano etc. etc. quando cerca de 80% dos gregos há uns meses queriam continuar no euro parece-me um understatement. Não te parece?
      3) A democracia foi mal exercida na grécia no sentido em que um partido foi eleito com um plano eleitoral grosseiramente impossível. E está a ser mal exercida na grécia e na europa em geral devido ao sufoco absoluto do endividamento e da dependência do financiamento externo contínuo. É assim tão difícil de perceber que não existe democracia ou soberania se todo o sistema sobre a qual a mesma assenta depende continuamente de um fluxo de crédito, sempre crescente? Esta merda para mim é óbvia e foi sempre uma contradição grotesca do Syriza: não pagamos, mas emprestem-nos mais dinheiro por favor, seus nazis opressores malvados, para termos a nossa democracia socialista etc. Qualquer estado soberano deve ter meios de subsistir de forma soberana. Ou não há democracia.

      1. a) Agora percebo a tua mensagem de base. Obrigado.
        b) Agora continuo a achar que a mesma é estreita. Não é nenhum insulto, nem tão pouco uma ‘crítica’. O teu é um texto curto, de opinião, e não uma tese. Isto é um blog, não é uma academia. O problema é meu, calculo. Tomamos como ‘dado’ que toda a gente sabe o que queremos dizer quando usamos palavras como liberdade, democracia, soberania ou opressão, mas eu, como sabes, sou um tipo com poucas certezas e com um encantamento infantil pela plasticidade e toxicidade da linguagem.
        c) Estamos ainda longe de saber como vai acabar o caso grego. O que afirmas na tua premissa inicial “Na Grécia o ideal seriam eleições ou referendo ao Euro e a UE aguentar tudo até ao fim do processo.” tem sido também aventado pelo próprio Syriza. Não tenho especial simpatia pelo Syriza mas faz-me espécie que o teu tom assuma desde já que o povo grego foi enganado (e se enganou). A meu ver, se se enganaram, felizmente assiste-lhes esse direito. E enquanto não houver indícios, como não os vislumbro, de se estar a caminhar para um regime autoritário ou para uma política militar expansionista, não me causa grande preocupação.
        d) O centro, se olharmos para ele com alguma distância, inclinou-se para a direita nas últimas duas décadas. Lembra-te que nos anos 70, na Europa, pelo menos, o discurso neo-liberal era muito mais radical que discursos na linha do Syriza. E hoje o centro engoliu-o, o que não surpreende. O centro, no capitalismo, é tão voraz como o próprio sistema e engole o que quer que seja que se apresente como vendável. Daí que quase sempre sobreviva e prospere, politicamente, com um ou outro ameaço. Mas como a governação se tornou apenas gestão (e eu francamente ainda não sei se é bom ou mau, mas é o que é), os arremedos de discussão política vêm mais frequentemente dos extremos que do centro.
        e) Tens toda a razão quando dizes que o feitiço funciona. Funciona e sempre funcionou, para a ‘direita’ e para a ‘esquerda’, para os centros e para os extremos. Não funciona para todos ao mesmo tempo. Mas quase dá ideia que achas que os extremos têm ideologia (cuspidela) e que os centros têm… ciência?
        f) Eu isto não percebo: “Qualquer estado soberano deve ter meios de subsistir de forma soberana. Ou não há democracia.” Auto-suficiência como fundamento da democracia? Toda a história do séc.XX (pelo menos) é tão rica em soberanias diluídas…
        g) Quanto às ‘políticas económicas’, lá continuarão a ser de tentativa e erro, em qualquer lado do mundo, nesta belíssima orgia de imprevisibilidade. O Syriza falhará, como todos os outros; será corrido e vilipendiado, no bonito carrossel da alternância democrática; e nós cá continuaremos a aproveitar oportunidades como esta para falar de política. E isso é algo que o Syriza nos trouxe. Porque é um debate claro e em que se agitam ideias políticas. Se tivesses escrito sobre as propostas do PS ou do PSD, eu não me dava ao trabalho…

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