os cães do sono

Os cães abandonados e abatidos nos canis,  quando morrem, ficam anjos da guarda das crianças que dormem e velam pelo seu sono tranquilo, protegendo-as, até elas crescerem e não precisarem mais. Cada criança tem um cão de guarda de sono que foi um cão vadio ou abandonado. As almas desses cães de ninguém cumprem primeiro essa etapa antes de irem para o céu dos cães que é um sítio com sol, quente, com relva e canteiros para escavar. Até lá, têm um pequeno dono que dorme e eles velam por ele, ajudam-no a adormecer com a própria respiração pesada cheia de suspiros tranquilos que só as crianças ouvem. Dormem, mas estão sempre prontos para afugentar maus sonhos com rosnares ferozes.  Depois quando já não são precisos, partem em paz e juntam-se aos outros cães. O céu dos cães é o mesmo dos homens e de todos os animais. Ficam à espera dos donos. Há pessoas crescidas que, mais tarde,  têm insónias, pesadelos, dormem mal. Estão desprotegidas sem o cão do sono. Acordam a meio da noite, angustiados. Vêem as horas no relógio. Pensam no dia de trabalho, no stress, e não ouvem o sopro, o suspiro tranquilo e o ranger do vime de um velho cesto com uma almofada onde o cão do sono se ajeita para dormir.

é difícil uma pessoa tomar café

Faço um café, preparo-me para bebê-lo quente e fumegante, parece fácil e previsível, vou beber este café quentinho e é mesmo já, mas nada é fácil e previsível quando Aquilo anda pela casa a arrastar o coelho pelas orelhas. Entra na cozinha, olha distraidamente para o caixote do lixo, para a máquina de loiça aberta…
“quero shumo de larancha”
“agora?”
“shim”
“deixa só o pai beber o café e já te faço um sumo de laranja”
Fica de olhos fixos em mim, com o coelho pelas orelhas, à espera. Naturalmente, é impensável beber o meu café em paz a ver notícias ou coisa que o valha. Vou ter de o beber à pressa, em pé. Não me apetece. Prefiro fazer-lhe o sumo primeiro.
“Olha Julício, uma laranja, vês? Corta-se assim ao meio com a faca” começo a explicar, tentando convencer-me que seria plausível ela preparar o próximo sumo de laranja sozinha, “e depois espremes a laranja aqui no espremedor…” vrrrr. Observa-me em bicos de pés, curiosa. Sumo. Ponho dentro de um copo de plástico com pegas. Ela ainda não domina muito bem a arte de beber sozinha por copos. Mas era tão bom que pudesse beber sozinha sem ser comigo a ter de lhe dar gole de pássarinho a gole de passarinho, vendo com desespero o copo a demorar 30 minutos a esvaziar-se.
“anda Júlicioso, por aqui”
Sento-a na cadeira de bebé, ponho-lhe o babete.
“toma, mas cuidado”
Segue-se uma sequência de aprendizagem de coordenação motora. Ela parece ter percebido que tem de levantar o copo DEVAGAR e inclinar a cabeça para trás e beber, por esta ordem.
“Boa, agora tu!”
Agora ela. Em menos de 10 segundos os conteúdos do copo de sumo de laranja foram parar à mesa, ao queixo, ao pescoço, ao cabelo, ao pijama. Fiquei estarrecido a olhar para ela que, de sorriso laranja, a pingar sumo
“Schá tá papá?”
“Olha para isso Júlia! Que porcaria!”
“Olha pa isho Shulia! Que pocaria!”, repete com efeito desarmante. Tem o hábito de fazer isto quando é repreendida. Repete o que digo com ar muito consternado ou dramático, em total empatia com o estado de espírito da pessoa que a repreende.
Segue-se o banho, directo. Era para lhe dar banho mais logo, vai já, pois precisa de trocar roupa e não lhe vou pôr roupa lavada sem tomar banho, tendo em conta que de manhã ela acordou toda cagada de quinoa.
Agora grita e chora bastante durante o chuveiro. Há coisa de um mÊs adorava banho. Depois de o detestar. Depois de o adorar. É bom ela chorar bastante, porque com o vapor e a choradeira, limpa-lhe o ranho todo e fica bem disposta a seguir. Desta vez, com a acústia da banheira, juro que comecei a ouvir um tinido agudo no ouvido direito piiiiiiiiiii e tive de lhe pedir para parar. Parou uns 20 segundos. Recomeçou. Finalmente o banho acabou, já não há pedaços de polpa de laranja no cabelo. Enxugar, secar, cremes no focinho, vestir roupa 100% vermelha (hoje é dia de clássico e a filha é minha, faço o que eu quiser), quarto, secador de cabeço, 10 minutos para lhe secar aquela cabeçorra cabeluda. Já se recompôs e está bem disposta. Meto-lhe um elástico no cabelo. Finalmente. 19 meses depois, aprendi a colocar um elástico no cabelo da minha filha.
Vai para a sala ver os bonecos, toda fresca. Vou buscar a esfregona para limpar o soalho e a esponja para limpar os salpicos de sumo na mesa. Parece uma cena de crime onde assassinaram uma laranja sem piedade. Acabei. Lembro-me do café. Já está frio. Aqueço-o no microondas. Ela entra, agora com o “usho” por uma pata
“quero shumo de laransha papá”

1913

foto

foto1

 

Mervyn O’Gorman was 42 when he took these pictures of his daughter, Christina O’Gorman at Lulworth Cove, in the English county of Dorset. He photographed Christina wearing a red swimming costume and red cloak, a colour particularly suited to the early color Autochrome process.

Autochrome was one of the first colour photo technologies, which used glass plates coated in potato starches to filter pictures with dye.

1913, Christina in red

encomendaram-me um livro

Aqui há meses, uma editora, uma proposta, um tema, tu és a pessoa, força. Eu disse que sim, duas mulheres bonitas, à beira Tejo, dia de sol, um Monkey 40 e não sei quantos, ia dizer não? E fiz bem em dizer sim. Mas estou emperrado. Não foi só perder o drive. Eu agora, corro e sou pai. A corrida é, depois de ser um bom pai, talvez a actividade mais oposta a boa escrita de que me consigo lembrar. E o tema? Não posso revelar muito, mas como é óbvio, tem a ver com mulheres e esse tipo de coisas. Perdi a confiança. No que respeita ao tema em si, não encaixei bem um golpe de uma rapariga bonita. É como se a cada passo que desse, olhasse para mim e visse coisas que não interessam e voltasse atrás. E aqui há tempos senti-me “mais velho” pela primeira vez. Eu não queria nada com ela, instigava-me um sentimento protector acima de tudo, mas falou comigo com a condescendência de uma adolescente a falar com um tio protector e fez aquilo de forma leve, nem foi maldosamente, queria ser engraçada, mas tocou num ponto sensível que até ali desconhecia em mim. Estou a caminho dos 40. Aqui há dias dei comigo a ver o preço de um Z4 no configurador online da BMW, a escolher estofos, extras, essas coisas. Não se preocupem, vai correr tudo bem.

sábado

Nem devia estar a escrever este post, mas o problema é que não posso fazer mais nada, estou refém no meu escritório, na minha própria casa. Dormir a sesta na cama, não quer. Dormir é daquelas coisas que é complicado obrigar um filho a fazer. De modo que adormece no sofá a ver o baby tv e fica para lá esparramada a babar-se. Então, o que tenho para contar neste não-post. Ora bem. Hoje de manhã fomos os dois ao mercado, ela às minhas costas no carrier. Gosto de a levar comigo porque costumam dar-me coisas à borla, não sei se já disse. Pelo menos, são mais afáveis as pessoas e as peixeiras não me enganam. Comprei duas douradas, agora prefiro comprar duas a comprar 1 grande, porque ela come uma dourada inteira. Diz que a dourada “é pincante” por causa das espinhas. Duas douradas, 5 euros. Comprei broa de milho, pão caseiro, batata vermelha, queijo da serra amanteigado, vinho, uma compota de baunilha e frutos vermelhos, cream crackers e um frango aos bocados para fazer frango de caril mais logo. Hesitei se comprava fígado para fazer iscas, mas já tinha o frango, por isso deixei. Comemos dourada ao sal (ao vapor) com quinoa vermelha e salada de ovas, feijão frade e tomate. Comeu que se fartou.

Tentei pensar em coisas para escrever sobre o 25 de Abril, não me ocorreu nada de especial. Não tenho ideias novas, nem nada de interessante. Podia não escrever, mas fica isto. Melhores dias virão, obrigado.

bom fim de semana

Sonhei com anões invisuais que em vez de serem puxados por cães guia, iam montados neles. Labradores. Com pequenas selas e alforges de lado. E os cães sorriam. Deve ter sido por causa do game of thrones ou uma merda assim. Sempre que leio “o mundo divide-se entre” completo mentalmente “eu e os outros”, mas sei que isso é um exagero e até um pouco ofensivo para tanta gente próxima. Não diria próxima, mas bem intencionada. Mas os meus amigos estão pior do que eu. Quase todos pior. Tenho um que me recomenda terapia sempre que o vejo, há anos. Não posso comentar nada, pumba, terapia para cima, contacto do psi rabiscado num pedaço da toalha de papel cuidadosamente rasgado com ajuda da faquinha. Nem um bocado de papel ele é capaz de rasgar com confiança. Toda gente beneficiaria de terapia. Faço que sim e que vou pensar nisso. Suspeito que há um programa de friend bring a friend com descontos, como os ginásios fazem. Pensei em inscrever-me num ginásio para poder correr também à hora de almoço e assim chegar aos 120-130km por semana. E ver mulheres a mexer-se. Andei a inquirir ginásios e perguntei a um amigo como é aquilo e não fiquei muito entusiasmado, ele diz que não é nada de especial, que só lá andou um mês, que teve vontade de deixar cair 150kg no pescoço de tão fútil que aquilo era (sim é o amigo da terapia), mas o que me afastou foi o preço. Detesto tanto andar de metro agora que mesmo todo partido prefiro a ir pedalar por aí acima.

la expresión es libre

Na Grécia o ideal seriam eleições ou referendo ao Euro e a UE aguentar tudo até ao fim do processo. O Syriza não foi eleito com a premissa de conduzir a Grécia para fora do euro. Não  existe consenso, nem mesmo dentro do próprio partido.

Podemos assumir que Tsipras ou Varoufakis queriam mesmo ficar no Euro como anunciaram ao eleitorado, que eram suficientemente tontos, talvez à custa de se darem com poucas pessoas para lá de um círculo de seres semelhantes, para acreditar que o seu programa eleitoral era exequível. É desculpável. Por exemplo, eu, quando estou em provas a conviver com ultramaratonistas, fico convencido que toda gente adora correr e quer fazer a Badwater e tenho mega desilusões quando falo com pessoas normais. Face ao que aprenderam entretanto no curso intensivo e no erasmus desde então, digamos assim, podemos imaginar que são de certeza um pouco mais experientes, têm mais mundo e sabem com o que contam, tanto assim é que dentro do Syriza parecem hobbits regressados da Terra Média, tentando convencer os colegas de partido mais idosos que o mundo não é plano, que estiveram em Berlim e não apanharam peçonha e que a Merkl não cheira a enxofre, que é melhor se calhar rever alguns pontos. Deviam partir daí e apresentar as suas condições e intenções ao povo grego e serem legitimados para carregar no botão vermelho (literalmente ah ah) se fosse caso disso. E pode não ser uma decisão errada, eu até a acho natural. Em todo o caso, a minha previsão desde 2010, é de que é inevitável e, se me pedirem muito, explico porque isso não vai suceder com Portugal, essa espécie de suécia latina no que respeita à cultura democrática e cívica, um povo que, permitam-me, é a todos os níveis dotado de uma maturidade quase oriental, japonesa mesmo, que não deixa de me encantar e que colide de forma tão espectacular com a dos nossos vizinhos hululantes e gesticulantes, por exemplo, vizinhos de quem gosto muito também, mas que são muito mais perigosos para eles próprios, como bem mostra o ainda brincarem às autodeterminações, podemos e guerras civis e mesmo a merda das claques de futebol são de extrema esquerda e extrema direita, e não todas de extrema direita como em qualquer país civilizado.

Por cá o PCP defende claramente um referendo e sempre foi euro-céptico. Talvez por isso o nosso PCP nunca descole nas sondagens: é o que é, goste-se ou não, mas pelo menos não veste uma pele de cordeiro. O voto no PCP traduz a vontade que os portugueses têm de viver na espécie de sociedade idealizada pelo PCP ou, no mínimo, de um protesto consciente. Desde o 25 de Abril que o PCP tem feito o favor ao país de obter resultados quase sempre miseráveis nas urnas como, de resto, toda a nossa extrema esquerda, o que suscita também os inusitados queixumes do “votam sempre nos mesmos” ou “estes portugueses são mesmo estúpidos” que traduzem, de forma enternecedora, a própria noção de democracia.

O perigo dos Podemos, dos Syrizas ou das Frentes Nacionais (tão fofa e sofisticada que anda a Marine Le Pen), para além de serem um motivo suficientemente forte para eu emigrar de vez, está  na moderação do discurso como instrumento de poder, na aparente sofisticação, urbanidade, coolness e carisma, do que propriamente num radicalismo transparente.

Mesmo o ensaio fotgráfico para a Paris Match tem a intenção de mostrar que “são burgueses” e não o revolucionário metalúrgico de punho erguido com prognatismo.varoufakis

Isto é o pessoal que lê, que toca piano, que aprecia as coisas boas da vida. Nada temei, classe média, ó europeu: nós somos como vocês. Mas lendo o longo e confuso pensamento de Varoufakis sobre como se tornou um marxista errático (cá está, o errático, não é sempre, às vezes é uma pessoa normal que tem dúvidas como nós sobre as coisas em geral), chocamos de frente com os milagres lógicos, a visão preto e branco do mundo, o espírito messiânico,  os inimigos desumanizados (o inevitável capitalista, essa figura misteriosa que inclui desde o Soros ao grego que tem dinheiro no banco, passando pelo reformado português que comprou papel comercial do banco errado…)

O feitiço funciona, e funciona mesmo bem, junto de pessoas que, ao mesmo tempo que defendem (com sinceridade) ideais de liberdade, não conseguem destrinçar em que medida a visão da sociedade e democracia implícita na ideologia dos Syrizas e Auroras Douradas é contraditória com a liberdade e democracia em que acreditam, especialmente pelo inevitável fracasso económico a que estão condenados e que geram totalitarismos e opressão de liberdades como forma de contenção e gestão corrente. Para o demonstrar, diria que não é preciso ir à história repescar exemplos empíricos, eles existem no presente.

livre

hobbits

Sempre que vejo dois ou três anões juntos na rua a andar, como vi hoje na baixa, não consigo evitar pensar que são halflings que vieram em excursão à cidade e sorrio para eles, para mostrar que sou amistoso  e que talvez possamos fazer trocas. Por falar em halflings, a poesia, que é um dos meus hobbits, tem um problema de credibilidade. Há bons poetas (deve haver), especialmente quando morrem e toda agente fica a saber que estavam vivos, mas depois há poesia que eu acho que podia mesmo ser gerada aleatoriamente por um bom algoritmo que seria impossível de distinguir de poesia humana para quem não soubesse como tinha sido feita – técnica não muito diferente da que Bourroughs usou nas Cidades da Noite Vermelha, com o seu recortar aleatório de palavras. Aliás, mesmo sem ser de propósito as mensagens de erro do saudoso windows até à Millennium edition tinham verdadeiras pérolas.

delete

A poesia também tem o problema de se sobrepor  parcialmente ao que a minha filha e qualquer criança faz espontaneamente, antes de ser devidamente, e muito bem, condicionada pelo sistema educativo herdado da revolução industrial, sistema contra o qual toda gente que recusa o darwinismo social e conta com os impostos da minha filha para sustentar os próprios filhos que se entretêm em cursos de artes e hortas hurbanas aplicadas, se revolta. É certo que as metáforas dela são coisas um pouco primárias, como apontar para o termómetro digital e dizer “relógio do cocó”. De resto, com uns parágrafos pelo meio, o que podia ser uma manhã difícil transforma-se em poesia

Non, ou a vã glória de dizer não quero

veste o casaco
não quero o casaco

está frio
não quero está frio
então veste o casaco
não quero veste o casaco
mas vamos para a escola
não quero vamos para a escola
olha, o menino na tv está vestido
não quero menino na tv está vestido
olha que vou sem ti, adeus
Não quero sem ti, adeus
vá Júlia, põe aqui o braço na manga
não quero vá põe aqui o braço  na manga
já estou atrasado!
não quero já estou atrasado
adeus!
não quero  adeus.