Lisboa 1941

Continuo imerso no Double Cross de Ben Macintyre, a história improvável dos espiões duplos, triplos e quádruplos que iludiram os alemães quanto ao local do “dia d” e que veio ao de cima recentemente, com a divulgação de ficheiros secretos do MI5 / MI6. Lisboa era ponto central em todas estas histórias e isto fervilhava de espiões com vidas duplas. O livro está extremamente bem escrito, sóbrio e com uma ironia elegante que a espaços me faz rir no metro, especialmente a história de Pujol, o criador de galinhas espanhol que tentou a toda força ser recrutado como espião pelos ingleses pois odiava os nazis. Vendo-lhe sucessivamente recusada a admissão (ser espião é algo para o qual uma pessoa não se candidata: é escolhida, os candidatos são demasiado suspeitos) foi ter com os alemães e tentou ser recrutado por eles para depois ser agente duplo do MI6. Finalmente conseguiu, depois de inventar dados falsos. Os alemães enviaram-no para Londres mas o pobre do Pujol nunca saiu de Lisboa. Então o que fez? Mentiu aos alemães e continuou a inventar dados para os alemães. Uma imaginação prodigiosa. As descrições dos hábitos dos ingleses, imaginadas por Pujol que nunca tinha estado em Inglaterra e tinha poucos estudos, apesar de escrever com um palavreado verdadeiramente pomposo, são hilariantes. Os alemães acreditam contra todas as expectativas, mesmo em coisas mirabolantes como os ingleses se enfrascarem em vinho tinto. E nisto o MI5 detecta pela Most Secret Sources que existe um espião extremamente activo em Londres, mas não sabem quem é (tinham-nos todos detectados e supervisionados). Pudera: é nada mais nada menos que o Pujol que finalmente consegue ser recrutado e que será fundamental na torrente de informação falsa com que os serviços secretos alemães vão ser inundados.

É genial ver a forma como o Inglaterra, nomeadamente Churchil e todo este departamento de informação e espionagem, conduziram a guerra. Estavam milhas à frente dos outros na subtileza. O FBI de Hoover é descrito como, enfim, basicamente o pior estereótipo americano. São burros, burocratas, desconfiados, moralistas e claro, incapazes de perceber o valor dos agentes duplos e das subtilezas. Só lhes interessava apanhar espiões e executá-los para propaganda interna, quando há muito Inglaterra tinha percebido que era bem mais seguro fazer a alemanha acreditar que tinha uma rede de espionagem funcional no seu país e fornecer-lhe informação falsa ou inofensiva.

E isto liga-se ao Foundations do Isaac Asimov. A 2ª Fundação, a mais poderosa, distingue-se da primeira fundação pelo facto de não ter seguido o caminho tecnológico (energia nuclear, etc.) mas o caminho do domínio mental dos outros, nomeadamente, o domínio mental dos líderes da primeira fundação que fazia a guerra por eles. Se hoje parece historicamente inevitável que a Alemanha perderia a guerra, na altura não era assim. E aqui existiu mesmo uma manipulação dos alemães até Hitler, uma manipulação subtil e delicada. Churchill, a propósito do local do desembarque das forças aliadas dizia “uma verdade tão preciosa tem de estar protegida por um escudo de mentiras”.

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4 thoughts on “Lisboa 1941

  1. Também fala do exército de insufláveis que os britânicos armaram em Dover para reforçar as suspeitas alemãs que seria Calais o ponto de desembarque? Acho esse pormenor delicioso. Procurando no Google aparecem fotos bizarras de soldados a carregar um tanque que parece verdadeiro e afins.

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