porra pá

Formar opiniões com base em corpúsculos de informação cibernética, nomeadamente videos, é abrir a porta a todas as formas de manipulação, desde o marketing com falsos virais para vender calças de ganga a terrorismo. A relevância social de determinados temas (ex: doentes com hepatite e medicamentos vs debate sobre o orçamento na saúde ou aleijado fofinho que precisa de cadeira de rodas nova vs apoios sociais do estado aos deficientes) fica à mercê de quem conseguir gerar mais emoção pela via da manipulação dos sentimentos.

Parte das opiniões e reacções que vejo são fundadas na observação pessoal de factos particulares e não na realidade dos números (que gera cansaço e tédio e contradições difíceis de resolver nas próprias opiniões).

O crime violento pode ter caído em Portugal nos últimos anos (como caiu) mas alguém que tenha sido vítima de car jacking certamente divulgará a sua experiência pessoal como prova que Portugal está cada vez pior e se possível acompanhado de fotos de nódoas negras que lhe foram infligidas por um ucraniano. E desta vez pode fazê-lo via facebook e ser re-partilhado entre estranhos. É certamente mais credível do que um relatório que demonstra a criminalidade a descer.

O facto de existirem biliões de smartphones, dashcams, gopros, camaras de vigilância etc. combinado com as redes sociais multiplicou esta experiência particular por milhões. Um jovem espancado por jovens torna-se um fenómeno omnipresente e universal e representativo da verdadeira realidade, mesmo que existam estudos que demonstrem o oposto ou que alguém demonstre que a violência de grupo de jovens sobre jovens sempre existiu, apenas não era filmada por iphones.

Os media são descredibilizados por não serem “reais” e obscuros e chegamos ao pináculo de ver pessoas a confiarem muito mais em websites mais do que duvidosos, blogues e portais com teorias da conspiração do que nos malvados media. E os media cavam ainda mais a própria cova ao fazer o eco desta confusão cibernética onde só se destaca o mais grotesco,  o mais extremo ou o mais comovente.

Os media ainda se esforçam por fornecer material de entretenimento com programas de reality do tipo ídolos ou  big brother para exibir freaks nas jaulas do séculoXXI e gerar debates, mesmo com danos de reputação. Nestes dias má publicidade é boa publicidade, veja-se o espectacular sucesso da campanha Is your Body Beach Ready que precisamente por gerar a onda de indignação em tudo o que era gordalhufa e gordalhufo, atingiu o seu target com mestria. O princípio é exactamente o mesmo do terrorismo e claramente as pessoas não estão preparadas para entender este novo mundo.

Os media divulgam números de forma acrítica permitindo as interpretações mais estúpidas que se possa imaginar, às vezes no preciso sentido oposto ao que os números querem dizer. Por exemplo: o facto de campanhas de divulgação sobre violência no namoro e no casamento levadas a cabo em vários países como Portugal, de nos hospitais e escolas estarem a criar alguns sistemas (imperfeitos sim) de alerta para tentar detectar estes casos, terá certamente influência no aumento de casos relatados e denunciados à polícia ano após ano. Contudo, já ouvi pessoas licenciadas fazerem o retrato de que há 50 anos não era assim, que os homens não batiam nas mulheres e corroboram o que dizem precisamente nos números que demonstram o aumento de casos de uma coisa que nem era considerada crime há uns tempos atrás.

No espaço mediático só pode coexistir um número limitado de temas: os afogados no mediterrâneo, antes disso os pilotos depressivos, a Grécia, o ébola. Mas quando os media agarram um filão (agora é a violência entre jovens) os “jornalistas” do século XXI são instruídos a estar atentos a tudo o que seja violência sobre jovens, a fazer peças sobre violência sobre jovens, a entrevistar jovens violentos e violentados e durante uns dias seguem-se casos e rostos pisados em catadupa, como se o país estivesse a ser varrido por uma onde de violência entre jovens. Depois o tema sai, mas ficou a memória do facto, associada ao marcador somático mais poderoso: o medo.

Nunca foi assim a esta escala no passado apenas porque nunca existiu tamanho aparato tecnológico para divulgar todo o tipo de informação, mas não impediu o boato de Carlos Paião ter sido enterrado vivo ou a aparição de Fátima. Não é uma característica nova, mas é certamente mais intensa. Aprendam a viver com isso e a lidar com isso, com esta nova violência, com o novo grotesco que agora nos é exposto e antes não era. Ou alguém duvida que as gravações de som da cabine do avião da Germanwings com as tais pessoas a gritar nos últimos momentos não vai ser leaked? Habituem-se.

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11 thoughts on “porra pá

  1. Mas também se fala bués da realidade dos númbaros: ninguém partilhou no teu mural aquela cena do petiz que ganhou o campeonato de cálculo mental?…

  2. olha obrigado por teres paciência para escrever isto e explicar as pessoas coisas que tal. leiam mais clássicos e falem menos. o silêncio é uma cena bestial. ou entao vejam a bola.

  3. Achas mesmo que o pessoal (licenciado) tem paciência para estas análises de ídolo profundamente profunda? Ora, ora, é a realidade, amigo Bray, corre que ainda a apanhas!

      1. Vontade vã. Vai entender a duvidar dela própria e sobretudo, dos outros e nunca vai abraçar ideologias, ideias ou conceitos a cheirar a mofo e encarneirar com extremos ou com o centros, pois vai ler e estudar e ser curiosa e quanto mais ler e estudar e for curiosa mais vai perceber como é imbecil tratar opiniões sobre o mundo como trata os clubes de futebol (é do Benfica, já agora). Vai pensar por ela própria e ser uma sobrevivente autónoma e confiante e respeitar os outros e ser gentil para os mais fracos e para os animais.

  4. Desculpa mas não há como uma pessoa se habituar. É verdade que violência sempre houve, merda sempre houve, e que o facto de haver um iPhone à mão redimensiona esta realidade. Agira precisamente por haver um iPhone à mão, o acto de crueldade feito aquele puto, que tenho a certeza que preferia mil vezes ser espancado por 10 gorilas, é multiplicado por 15 milhões. Porque a seguir na escola todos vêem aquela merda. Do otário a levar de duas pitas. Mas ao mesmo tempo permitiu que as pessoas não se habituassem, e, testemunhando aquela merda que sempre houve mas não era filmada, se revoltassem e dessem aquelas anormais um bocadinho do sabor da humilhação. Mas isto sou eu. Um pouco olho por olho dente por dente.

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