cenas de que gosto

Quando penso no, para mim, maior exemplo de representação, penso imediatamente em Robert de Niro no Taxi Driver, aliás, todo o filme tem um cast incrível: Harvey Keitel, Sybill Shepherd e Jodie Foster que já era há muito um prodígio. O único mau actor é mesmo o próprio Scorcese que resolver aparecer numa cena um pouco deslocada com um monólogo surreal, mas que acaba por conferir ao filme um ‘metacamada’ gira: é Travis quem conduz o próprio realizador frustrado e traído pela mulher por um negro, quando normalmente no cinema é o realizador que “conduz” o actor ou a personagem. Travis é o veículo ou a arma do criador e por ele vivemos uma catarse.

O trabalho de Robert de Niro é celebrizado pela clássica cena do are you talking to me, a todos os níveis épica, mas este filme sobrevive a sucessivos visionamentos por ter uma enorme colecção de detalhes em todos os momentos. Cada cena é um portento de intensidade, de Agora absoluto, como só sucede quando tudo se conjuga: argumento, fotografia, realização e grandes actores.

Tomemos como exemplo estes 2 minutos no café entre Travis e Betsy. Robert De Niro a referir-se a esta personagem do actors studio disse que se inspirou num carangueijo e que o Travis “always thinks and acts sideways”. Travis é opaco. De Niro chega ao ponto de parecer estrábico. Os seus olhos estão mais juntos que é normal e o olhar é desfocado e inexpressivo, o que lhe confere o lado psicótico, mesmo numa conversa banal em que sorri. As mãos começam por estar debaixo da mesa, unidas, o que é obviamente um sinal de ocultação. Betsy por seu lado está em cima da mesa, a mexer descontraidamente na chávena de café: Betsy é a pessoa normal e não sabe o perigo a que se está a expor. Essa vulnerabilidade transmite imediatamente tensão ao espectador: foge Betsy, ele é maluco. Quando ele fala parece ter um discurso decorado e estruturado, tudo menos espontâneo pela colocação da voz, ou seja, são coisas que repetiu para si próprio mentalmente ou em voz alta. Não tira os olhos de Betsy, os olhos estrábicos e vítreos. A expressão facial trai sempre uma frustração latente pela incomunicabilidade, mas não vê isso como um problema dele, mas sim dela que não o entende, como, aliás, o resto do mundo.

Ela não percebe a piada do “organised”, em boa parte porque nada na forma como falou sugeria que estava a contar uma piada. “It’s a joke” explica, de forma um pouco agressiva ou impaciente. Quando ela faz o esforço de dizer algo do género e fazer conversa, Travis gela, como se levasse um golpe. Não entendeu a referência nem foi entendido. Em poucos segundos adopta nova expressão facial e mudança de tema (o beautifull eyes) vem de seguida, sem ligação e apanha Betsy de surpresa. Ela não é uma menina inocente, mas está a ficar fora de pé a pouco e pouco. De cada vez que Betsy fala vê-se pequenos vislumbres de De Niro a ficar gelado ou, no limite indiferente e frio quando recebe algo positivo. “Do you like the guy you work with?” pergunta Travis. Ela responde “he is ok” e aquilo magoa-o, entre cada linha, ele parece engolir frustração. Insiste. De Niro que faz toda a cena quase sem mostrar as mãos, como se fosse um boneco. As mãos surgem em detalhes, a forma como segura a chávena, longe do corpo, o indicador naquele gesto do “as soon as walked in”. Teatral. Note-se os dedos debaixo a mesa nas mãos unidas, a tocarem-se, nervosos, impacientes, mesmo sem o actor estar consciente de que lhe estão a filmar as mãos. Isto é um grande actor.

Ela responde “I wouldn’t be here” se não sentisse uma ligação por ele. Note-se como a voz dela é subitamente sumida e sussurrada, grande Madeleine Hayes, está fora de pé e tensa agora, ele bateu-lhe e todas as deixas seguintes são atiradas nesse tom. Ao longo da cena ela passa de estar distante, com a cabeça meio noutro lado, a pensar talvez numa série de coisas e a pouco e pouco vai ser absorvida pelo vortex de Travis até ficar hipnotisada no fim e até corar de embaraço, mas depois puff, sai do transe. TRavis volta a ser uma curiosidade excêntrica o que aumenta a frustração dele. Em vez de Travis sorrir, mantém-se impassível. O “I don’t like him” surge do nada de novo, deixando perceber a obsessão e os sentimentos negativos e agressivos a voltar ao de cima, desta vez mais descontrolados, pisca os olhos, sacode a cabeça e parece gaguejar um pouco, está a reprimir raiva, ciúmes, tudo, quase que podemos ouvir milhões de demónios sedentos de sangue a gritar-lhe aos ouvidos “KILL!”, no entanto a voz é artificialmente contida.

Em toda a cena, o texto sugere um sentimento completamente diferente do que ela transmite pelo trabalho de Robert De Niro. E é sobretudo pelo olhar, por detalhes mínimos, que De Niro consegue transmitir toda essa tensão que a mesma adquire, como de resto era intenção clara do argumentista Paul Schrader que viria a confessar que a escrita do mesmo o salvou do suicídio.

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