uma filha com febre

Costumo dar conselhos ao rapaz da moto pizza que foi pai há pouco tempo. Ele seguiu o meu percurso desde sempre, veio-me entregar pizza durante a toda a licença de paterninade em que lhe aparecia com a Júlia com 1 mês ao colo ou a chorar lá ao fundo até agora em que ouve “Papá, é a pizza?” quando abro a porta e ela aparece agarrada à minha perna a espreitar e a dizer adeus. Portanto, para ele pareço um veterano. Mais dois amigos vão ser pais nos próximos meses.

Então ficam aqui algumas dicas a novos pais, muitas –  a maior parte – não fui eu que cheguei lá, mas sim coisas que li, conselhos de experts etc. e que resistiram ao teste, confirmando que eram verdade e funcionam.

Os bebés choram sem motivo nenhum que não o precisar de chorar. Se está tudo bem com o puto (fome, fraldas, etc.) então chorar é com ele. É uma cena que eles fazem e são bons nisso. Especialmente ao fim da tarde / dia. Não há nada de errado. As ‘cólicas’ não existem, isto é, não são um problema gástrico, gases. Isso é um mito. Dito isto, é a pior parte de ser pai. Há uns que choram mesmo muito e é essencial pirarem-se de casa uns minutos, às vez 5-10 minutos chega. Peçam ajuda. Eles são muito bons a esgotar a paciência dos pais. Não liguem. Mais fácil dizer que fazer, eu sei.

As crianças não têm febres por os dentes estarem a nascer. Calem-se com isso.

Excepto medicamentos, álcool, cafeína, tabaco etc. aquilo que as mães comem tem zero influência no bebé quado estão a amamentar. Não é por comer feijão que o bebé vai ter gases ao amamentar. Calem-se com isso. A qualidade da alimentação da mulher tem zero influência na qualidade do leite, é assim a natureza, nem que a mãe se esmifre toda de fome e fique chupadinha ou só coma batatas fritas no mcdonads, o leite é perfeito.

A minha filha nunca desenvolveu as patologias impressionantes que oiço de crianças que não adormecem sozinhas ou acordam 15x por noite e andam em pediatras. Já sei, é do feitio  Os putos portugueses dormem muito pouco.
Crianças e adolescentes portugueses só dormem metade do que precisam – Público

Isto é uma cena cultural de Portugal e Espanha. Eu vou a casas de amigos e eles têm os putos de 2 ou 5 anos acordados às 22h -23h. Fico estarrecido. Mas eu é que tenho razão por isso, epá, calem-se com isso. Quando digo que a minha filha vai para a cama mais ou menos às 20:30 as pessoas ficam a olhar para mim chocadas e perguntam “porquê?” Porquê? Porque crianças de 1-2 anos precisam de 12-14 horas de sono por dia e porque no dia seguinte acorda às 7:30-8:00. Eles fazem-se quando dormem, a memória, o corpo, tudo… Não dormir bem é multiplicar tudo o que pode correr mal, desde birras, feitio, crescimento, quantidade de doenças etc. Além do mais aumenta extraordinariamente a vossa qualidade de vida eles irem para a cama cedo, podem ter um serão mais descansado antes de ir dormir. Mas pronto. Vocês é que sabem, até vir a reportagem sobre o tema do sono que seja equivalente à que revelou ao país a chocante verdade que o Lipton IceTea e Oreos têm açucar e que se mete demasiado sal na comida. Continuem, continuem.

Não stressem com a comida se eles começarem a recusar. Dêem-lhe coisas diferentes, é a altura deles serem expostos a tudo, enfim, todos os tipos de comida saudáveis que se lembrem, mas é completamente normal eles rejeitarem comida a certa altura, alguns tipos de comida ou mesmo uma refeição toda. Eles querem decidir e mandar. É uma guerra perdida tentar forçar e garantia de um stress repetido ao jantar todos os dias. Não dêm importância, eles aguentam bem sem jantar e tudo se encaixa. Aliás, os cabrões comem sempre melhor na creche do que com os pais. Adoram dizer “não”. São muito bons a dizer não. É frustrante quando eu cozinho cenas boas e ela diz “não quero” sem sequer experimentar. Mas não lhe dêem outra coisa, simplesmente não janta e não há drama nenhum. Isto melhora tremendamente a qualidade de vida, notem como as dicas até agora são sempre no sentido de facilitar e não de complicar.

Os putos têm febre. Não vão a correr para o hospital sempre que o puto tem febre. Eu apanhei um cagaço extremo no dia em que peguei nela e ela tinha 39.5, fomos dois a correr para a banheira (a propósito, é boa ideia um banho morno, mas não um banho frio e eu não sabia, ela gritou mais que uma sirene de bombeiros e eu senti-me muito culpado pelo erro e tive de lhe ir comprar gelados). Os putos conseguem ter 39 de febre e estar a brincar e a rir quando nós com 38 já estamos de cama a chamar pela mãe. É normal. É uma cena deles e pensa-se que é para o sistema imunitário reagir melhor a qualquer infecção. Os sinais preocupantes são a febre não baixar com benurons ou o puto parecer abatido, letárgico.

Os putos vão magoar-se. A minha anda com o nariz todo esfolado de um mega trambolhão que deu num escorrega. É duro. Mas descontraiam. Preparem-se para esses momentos e não os temam. Podia fazer uma colagem genial com todos os momentos Júlia até agora. Estou sempre à espera do dia em que vai cair para trás do sofá. Estou sempre a dizer-lhe “desce daí, vais cair” e ela ri-se. Um dia vou ouvir um “thump” surdo e o chão vai tremer. Depois vem o choro e eu chego lá e digo “o pai avisou”, não sem alguma satisfação 🙂

Distrair. Melhor. Táctica. De. Sempre. Os putos são péssimos na concentração num tópico qualquer. Esta apanhei nos comentários ao meu blogue e resulta. Parecem loiras ao telefone a conduzir ou cães que cheiram um gato de repente. O puto embirrou que queria uma coisa? OLHA ALI! UM AVIÃO! Ou então MÚSICA! DANÇAR! ou “que barulho é este? Será o Pai Natal? É o pai natal!” A minha filha é tão passada dos carretos que é perfeitamente possível estar a chorar e a rir histericamente ao mesmo tempo até se esquecer do motivo pelo qual estava a chorar.

Grande parte do stress que os putos nos causam vem de facto de stress nosso. Eu noto que é quando estou atrasado para o trabalho ou preciso de fazer alguma coisa que me sinto menos disponível para a aturar. Às vezes ela deixa-me a cabeça a andar à roda, tonto de stress de ser bombardeado com uma torrente incessante de cenas, do género, estou atrasado e ela pega no biberon e decide tirar a tetina do mesmo e o leite espalha-se no sofá e eu limpo e quando vou a sair caga-se toda e é preciso mudar a roupa e já nas escadas espirra e sai ranho mas desta vez limpo-a com a manga do prório casaco, muda de roupa na creche que se lixe e toca-me o telemóvel e depois esqueci-me da pasta e tenho de… e ela sempre “papá, onde eshtá o gato? papá? O gato? Papá, onde eshtá o gato? foi à escola?” e nós às tantas a tentar percorrer a lista mental de tudo “SEI LÁ DO GATO JÚLIA!  CALA-TE COM O RAIO DO GATO! MAS QUAL GATO!? QUAL GATO? DE QUE GATO ESTÁS TU A FALAR!? O QUÊ? ONDE?” E ela olha-nos com aquele olhar de cachorrinha, olhos a marejar e começa com o lábio inferior a tremer, muito sentida… e nós caímos em nós e começamos “ah, o gato, pois, o gato está a dormir ao sol provavelmente, anda, vamos ver se vemos o gato a caminho da escola e lhe dzemos bom dia”. E aí entra a culpa e é por isso que um dia cedemos e temos um gato em casa, dois piriquitos, um labrador e um pequeno pónei no que antes foi o nosso escritório.

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15 thoughts on “uma filha com febre

  1. :))))

    fixolas!

    (isso dos putos irem para a cama às 11 da noite é uma coisa que também me deixa incrédula, eu, na primária, deitava-me mais cedo. O que é que se passa agora? tenho amigas a permitir isso, achando normal)

  2. Avisa-me quando tiveres na calha dicas para pais adoptantes de cadelas com 2 meses que emitem sons entre o extraterrestre e o demoníaco quando deixadas sozinhas… Grata.

  3. :-p
    As cólicas existem sim. São uma maneira do estômago deles se ir desenvolvendo e ir alargando.
    Sabias que o mesmo quando nascem e durante o primeiro mês é do tamanho de um berlinde?

    Se tivesses tido uma Júlia como o meu G, que chorava 5h seguidas durante 5 meses, acredita que maldizias as cólicas. E o mundo em geral.

    Também não entendo essa politica das horas de deitar. Sempre deitei o meu às 21.30h. Hoje tem 6 e continua com a mesma rotina, exceptuando aos fds. Aí deita-se à hora que lhe apetece. Geralmente pelas 23.00h. O que para mim é uma tormenta/desvantagem, dado que, independentemente da hora a que se deita, acorda sempre às 7.30h / 8.00h.

    Vale-me o puto já fazer o pequeno-almoço sozinho 🙂

    À medida que ela vai crescendo e te vais deparando com situações novas, vais chegar à conclusão que metade do mundo que te rodeia é louco.

    Ou porque pensa de maneira diferente, ou porque faz coisas que a ti te parecem inconcebíveis..enfim…

    Nós é que somos pais deles, e o senso comum deve prevalecer. Por mais conselhos que oiças, por mis intromissões que façam nas tuas rotinas e maneiras de pensar, por mais que diga o pediatra, a realidade é que tu farás o que te der na real gana. Porque a filha é tua. E nunca farias nada que a pusesse em perigo ou melindrasse. Porque é isso que os pais fazem. Dão o seu melhor, com os dados que se lhes apresentam.

    É certo que faremos asneiras, eles também..mas não é assim que se aprende, cresce e educa?
    Bom fds.
    P.

    1. desculpa, mas ao menos as cólicas (gases etc.) são reais e uma causa de choro, apenas não são tão omnipresentes como os portugueses imaginam, chamando “cólica” a tudo o que não caia na categoria: fome, frio, fralda, colo. Não é nenhuma destas? Então é “cólica”. A Júlia fartou-se de chorar em certas fases, não foi fácil. E realmente o padrão coincidia com o que lia sobre o tema: estava relacionado com o cansaço. Em vez de dormir logo, tinha períodos de birra, chorro contínuo. Daí que na maior parte dos putos seja ao fim da tarde / noite quando são mais difíceis. Pensa-se que seja simplesmente uma reacção de esgotamento, tipo, estão cansados e choram e depois adormecem. Aliás, eles quando acordam a meio da noite choram só do facto de acordarem. Nós em adultos sentimo-nos assim também, as mulheres estão sempre a chorar e depois de uma choradela ficam sempre mais bem dispostas e aliviadas. Gostei do comentário e concordo com tudo (menos com as cólicas do estômago a crescer!)

      1. “as mulheres estão sempre a chorar e depois de uma choradela ficam sempre mais bem dispostas e aliviadas.”

        Tenho para mim que conheces as mulheres erradas :-p

        Quanto ao tópico cólicas, putos, fraldas, chuchas, whatever….podíamos estar aqui semanas a debater o mesmo, mas não me parece que fosse adiantar. Temos todos maneiras diferentes de encarar o mesmo assunto, agimos todos de maneira distinta, mas penso que sempre com o mesmo intuito. E isso é que é importante.

        Parece-me que até te estás a safar, portanto deves estar a fazer as coisas de maneira correcta 🙂

        Quanto à questão do estômago, foi a info que me forneceram. Tanto na maternidade, como no centro de saúde. But who knows??? Freud, certamente. Afinal, o gajo tinha a mania que sabia tudo.

  4. Concordo com grande parte do que dizes se me lembrar de quando só tinha um filho, mas depois lembro-me da segunda índia e esquece, cada puto é um puto. A personalidade deles forma-se de maneira diferente porque ela viu o irmão mais velho na idade das birras e aprendeu a fazê-las mais cedo do que o seu cérebro estava preparado. Hoje tem 2 anos e meio e eu sou a única pessoa no mundo que consegue ter alguma esperança em parar-lhe um berreiro, quer por lhe roubar a chucha e depois devolvê-la como te contei no outro dia, quer por agarrá-la com calma contra mim quando já toda a gente se estava a passar. Também cresceu a ver o irmão fazer merda e ir esconder-se a rir quando ralhávamos com ele, imaginas o cérebro dela a processar o desrespeito como uma banalidade desde o primeiro de idade. Às vezes penso que ela é meio burrita por repetir asneiras que acabámos de lhe explicar que eram perigosas, como saltar em pé do sofá para cima do nosso gato de 8 kg. A única certeza com que ficamos enquanto eles crescem é que nos vamos adaptando e aprendendo truques novos à medida que eles aprendem os deles. Mas enfim, a adolescência há-de apanhar-nos de surpresa.

  5. Booooom!! 🙂 mãe de dois, um de 4 anos e outro de 10 meses. Cada qual mais infernal que o outro! O segredo é bom senso, o resto vem nos livros 🙂 adorei este post!

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