raping, há uma maneira boa e uma maneira má (spoiler alert)

Quando é numa série americana mainstream e dura 10 segundos fora de plano ao som de Sansa Stark a chorar até ao fadeout, é mau. Quando é num filme francês como o Irreversible, dura um quarto de hora e é exibido em Cannes, é arte. Eu confesso que não entendo estas distinções (entendo), mas eu sou a pessoa que acha que acha que não é por a Chloé Sevigny  colocar o membro erecto do Vincent Gallo dentro da sua própria boca e efectuar movimentos de succção repetida num filme alternativo, que aquilo deixa de ser um broche. Mas esquecendo dualidade de critérios e voltando ao Game of Thrones,  aquele mau da fita já cometeu um acto de extrema brutalidade contra o sexo oposto. Onde estavam os “fãs furiosos”? Eu fiquei chocado e tive pesadelos com esta cena.

sausage

Eu diria que esta série tem personagens femininas notavelmente fortes e em vários arquétipos diferentes. Temos a miúda Arya que se torna uma assassina para vingar a família, a corte dominada por mulheres poderosas: Cersei, Margaraery ou Melisandre. Destas apenas Cersei é declaradamente pérfida, mas não chega aos calcanhares do nosso castrador e enrabador de virgens Ramsay Snow. Temos a “mother of dragons” e até uma cavaleira Brienne of Tarth que é uma espécie de upgrade da Xena a princesa guerreira, pois as lésbicas também merecem o seu eye candy. Aliás, Brienne é uma mulher que foi rejeitada por ser feia e foi ridicularizada por todos os homens. Em compensação, decepa-os às dúzias.

Acho que a série Game of Thones no início era francamente pior neste capítulo da exploração indecente do sexo feminino. Não há nada que me choque mais do que ver figurantes de seios fartos, nuas, em cenas em que fazem de prostituas em bordeis As cenas de nudez e sexo, bastante fracas e forçadas, sucediam-se. Em todos os episódios havia mamas a martelo, como se fosse para preencher uma check list. Acho que a check list devia ser algo assim:

1- mamas em grande plano

2- alguém que o público gosta, morre

3- cersei enche um copo de vinho com um jarro

4- o anão leva uma bofetada de alguém

5- a mother of dragons é vítima de flirt

6- sansa stark contém choro porque a ofenderam ou foram crueis para ela

7- alguém perdeu a cabeça, um braço, uma perna…

….

Agora ainda, há de vez em quando, mas anseio pelo dia em que feministas peguem nas camaras e filmem eles (ou elas)  cenas realistas em bordeis em que as mulheres não sejam tratadas como objectos mercantilizáveis.

De resto, a série do Game of Thrones caracteriza-se por ter momentos algo violentos, desde grávidas trespassadas por espadas até um tipo a estoirar a cabeça de outro com os polegares órbitas adentro. Eu espero quase tudo do Game of Thrones e nesse contexto, a cena da Sansa não destoou, mas também não foi das piores.

O que aconteceu naquela cena do momento foi o confronto de dois arquétipos extremos: a virgem Sansa Stark que está a levar porrada psicológica há 5 seasons e o psicopata tarado Ramsay Snow. Já estava amplamente previsto, certo? Afinal, eles tinham acabado de casar. A cena da noite de núpcias tinha sido prevista já em conversa com o “litle finger”: Sansa teria de ser conspurcada pelo mau da série.

Aposto o que quiserem que 94.3% da suposta furiosidade em torno daquele episódio deriva do facto de certos fãs terem dificuldades notórias em distinguir a realidade da ficção e de terem, porque são boas pessoas, talvez engendrado a expectativa que Ramsay seria humano e não o psicopata doente que foi sempre até agora. Haveria sexo, mas Ramsey serviria vinho e falaria dos discos dos The National. Até podia ser um bocado bruto e gostar de techno chunga ou ser dos Super Dragões e mostrar um cavalo todo kitado, enfim, qualquer coisa, um preliminar para tornar aquilo mais agradável. Mas não, ele quis transformar aquilo numa cena de humilhação em frente ao Theon. E basta ver reacções reais a cenas desta série como esta. Há pessoas que choram, meus amigos, choram a ver isto e ficam chocados a falar para a webcam. Se alguma destas pessoas for feminista- bang, bingo. A propósito, esta cena poderia ser discutível se não gerasse um sentimento de que algo de errado se passou. Foi um mau da fita a fazer isto a uma boa da fita e o espectador ficou indigando (o Irreversible gira em torno do mesmo conceito). Admito que seria muito mais discutível se o anão do game of thrones encavasse a irmã, a Cersei, em frente ao maneta, para se vingar. Isso sim, seria épico e confuso, ver-se a má da fita a ser violentada pelo anão que tentou matar seasons a fio. Deixo-vos com essa imagem mental.

E com um texto interessante (de uma mulher):

There are two kinds of misogyny. I break it down as such: Carrie Bradshaw-flavored and Henry Miller-flavored. One makes me throw a book across a room, and the other may make me squirm a bit but sigh and keep reading.

Bradshaw is about women who claim to have their shit together- they are “career women” who claim to be “liberated” and “empowered” and “the authors of their own lives” while tottering around New York in feet-disfiguring shoes and whining about being childless at forty.

The second, Miller, is about women who get called bitches and cunts because they are often shrill and catty, and get used for sex then tossed aside.

(…) Henry Miller cozies up with Charles Bukowski and Jack Kerouac on my bookshelves, while the Bradshaws of contemporary lit are never will. How can I stand Miller’s repeated “cunts” while Bradshaw’s internalized misogyny sends me shuffling for the lighter fluid?

(…)

Henry Miller’s misogyny is the kind of Wall Street honchos who hire pro-doms on the weekends to knowingly give their hubris a wicked and necessary dose of humility. Thus, Miller and his cohorts get a pass from me. Carrie Bradshaw can die in a fire, as far as I’m concerned, because she is NOT in on the joke. She doesn’t see her cultural vapidity, her insipid desires, and her deference to class markers and antiquated beauty standards as products of the patriarchy, not a repudiation of it.

(..)

em I hate women who hate women,

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9 thoughts on “raping, há uma maneira boa e uma maneira má (spoiler alert)

  1. A cena de violação enojou-me, mas não mais do que quando o Joffrey empalou aquela prostituta com setas, ou quando o Mountain rebentou o crânio do outro pelos olhos, e menos do que a relação Ramsay-Theon. Agora uma coisa que acho que revoltou muita gente, e com razão ainda que não se saiba o que é que isto vai gerar, é que aquela porra não está nos livros. Aliás, nem a Sansa vai para Winterfell nem casa com o Ramsay, portanto qual é a intenção dos produtores com isto tudo? Se é simplesmente chocar é um truque muito barato, porque se há coisa que o Game of Thrones não precisa é de se desviar dos livros para chocar, já tem choques suficientes. Acho que os episódios seguintes vão ser cruciais para avaliar a intenção. Mas uma coisa é certa, numa série com tanta violência não me parece que uma cena de violação seja descabida. E sim, perdoo muito mais facilmente uma coisa destas num Game of Thrones que tem das melhores, mais diferentes entre si, e mais complexas personagens femininas do que noutra onde elas apareçam como mero pano de fundo.

    1. Eu penso que uma das explicações plausíveis para o desvio face aos livros é deixar quem leu os livros com alguns motivos para ver a série e lançar um manto de dúvida quanto a spoilers nos livros que a antecedem. Isto é, se acontecem coisas que não estão nos livros então nada do que está nos livros pode ser tido como certo que vá acontecer. E não acho isso errado quando são livros que basicamente giram em torno de enredo, twists, etc. O George R Martin colabora de perto com a série, como consultor e produtor, e também escrevendo alguns episódios (embora não tenha escrito nenhum desta season). Ou seja, não é daqueles projectos em que o autor rejeita a adaptação à tv ou cinema, ele aqui é co-criador em certa medida. Depois há a questão de uma série ser um brutal trabalho de equipa e poder ocorrer algum brainstorm criativo em que se exploram linhas alternativas. Sempre me espantou que episódios da mesma série pudessem ser escritos por pessoas diferentes e são sucessivamente realizados por pessoas diferentes também o benfica recomeçou

  2. Concordo em absoluto com tua ideia e repara que não só não vejo esta série como não assisto a nada do que se passa na televisão (excepto as inevitabilidades, que ocorrem quando entro num café ou em casa de alguém onde o dito aparelho está ligado e obviamente não me ponho a perorar sobre os malefícios que causa à cabeça das pessoas em geral).

  3. Não precisa seguir o livro ao pé da letra – mas sacrificar o desenvolvimento das personagens femininas não é o mesmo que não se ater ao livro, É banalizado – estrupo em GoT é banalizado ao extremo. Nem no seriado Roma se via estupros deste jeito
    PIOR, o estupro em GoT é pra desenvolver os personagens masculinos, o foco da câmera – e do trauma – foi em Theon e no quão difícil foi para ele assistir. Sansa foi abusada em sua casa – o lugar onde os únicos bons dias de sua vida foram vividos -, na cama de seus pais. E ainda assim, a dor nem pertence à vítima.

  4. Sansa já estava casada – sabemos que ela mesmo a contragosto teria feito sexo com ele (vimos isso quando ela começou a se despir pro Tyrion e ele que a impediu de continuar). Ela não é besta, nem burra, nem inocente (não mais) – ela sabe os sacrifícios que terá que fazer pra retomar Winterfell. O estupro não cabia ali – a cena só quis polemizar

  5. Pois, mas… mnhec.
    Como tão bem ironizava o Stephen “Tin Tin” Duffy, no magnífico “The Ups and Downs”, “yes… but is it art?”.

  6. Lembro-me de ver o Irreversible e ter vontade de vomitar. Esta cena da Sansa vs Ramsay vs Theon não me provocou esse sentimento. Na minha opinião, pior foi a caça humana do Ramsay Snow na floresta. Nesta cena quase não se vê o sofrimento da Sansa. Só se ouve. Na cena da floresta, blerc, vê-se demasiado pânico dela e demasiada crueldade psicótica dele.

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