political unplacement

“A propaganda política invade as telenovelas”, pela bem intencionada e preocupada Maria Tengarrinha, a alertar o povo para “a inclusão de proposições que escondem agendas políticas (de todo o género) dentro de conteúdos de entretenimento e ficção, como se fossem diálogo” com exemplos ilustrativos seleccionados por Maria Tengarrinha que, surpreendentemente, não são de “todo o género”.

Pergunto-me a que artimanhas narrativas teria que recorrer Maria Tengarrinha e a comissão de argumentistas ou reguladores para engendrar uma novela politicamente unplaced  para a generalidade das pessoas que vê novelas para anestesiar a consciência e ignorar o Livre e a Maria Tengarrinha, munida de um comando à distância na mão pronta para zapar para o imaginário mais próximo da burguesia classe média conservadora de Varoufakis e esposa em capa de Paris Match.

Ao contrário da Maria Tengarrinha, eu não vejo novelas, mas se dependesse de mim,  até via uma novela em que houvesse um casal de lésbicas que representassem quadrantes diferentes. A de direita, interpretada pela Carolina Patrocínio que rejeitou as boas famílias de onde veio e que tem argolas nas orelhas e um polo da Gant, e a de esquerda, desempenhada pela Catarina Martins e caracterizada com rastas e piercings e uma t-shirt com um cravo vermelho. A de direita um dia tem um acidente com o seu Mini Cooper S e, por vontade da namorada, é levada inconsciente para um hospital público onde acorda em choque e convive com a miséria, a morte, velhos a cuspir sangue, mulheres a parir, tudo ao molho nos corredores. Constança (é o nome da de direita), naturalmente, indigna-se e faz um ar enjado:

– Ai q’horroreee! Leva-me daqui! Leva-me! Leva-me para um hospital privado onde temos direito a um tratamento de luxo que aqui tá um cheiro que não se póde!

Nesse momento, um médico,  interpretado pelo Nuno Lopes, aproxima-se. Tem um ar cansado, está cheio de sangue na bata, de uma amputação que acabou de fazer a um piloto da TAP que teve um acidente devido a horas extraordinárias depois da privatização. O médico dá-lhe uma descompostura:

Lamento não termos melhores condições, menina. Estão a querer destruir o SNS. Veja todas estas pessoas *faz gesto com a mão* Todas elas são abandonadas pelo estado e pela vaga neoliberal que assola a Europa.
– Assola o mundo! – frase gritada por imigrante salvo do mediterrâneo e que cospe água numa maca. Percebemos que é líbio  porque tem umas braçadeiras insufláveis com a bandeira da Líbia.

Nisto aparece o Pedro Granger, também ele médico (exigência dos argumentistas PSD que integram a comissão de Political Unplacement e Neurality da Ficção Portuguesa), com um bebé nos braços, acabado de nascer e com o seguinte diálogo:

– O meu colega doutor tem razão, contudo, estamos conscientes que é necessário gerir os recursos do estado e que só o ano passado a saúde custou 7,7 mil milhões de euros. Andámos a ter saúde acima das nossas possibilidades. Era bom que algumas destas pessoas fossem ter um óptimo tratamento no hospital da CUF do Parque da Nações, seguido de massagem no Holmes Place, dentro de um Opel Astra Galo Meo TV Cerveja Sagres BPI *

Um velho interrompe a discussão e a cuspideira de sangue e tosse para dizer:

– Senhores! Ouvi-me! Reparei que nesta sala cabiam beliches em vez de camas simples. Com beliches, havia camas para todos no mesmo espaço. Optimizando os recursos existentes, podemos dar um melhor serviço por menos dinheiro Lindor Iglo Viagens Abreu Goldnutrition.*

Inicia-se depois um diálogo nos corredores, com os actores e figurantes definidos pelos argumentistas da secção do Livre, do PS e do PCP, a fazer de estropiados e doentes, sempre a protestar, os do PSD a discutir medidas de cortes e optimização (“somos o que queremos ser Flora Meo PT Coca-Cola*”, repete o piloto  estropiado, que logo se levanta, com vontade de regressar ao trabalho, impedido por Nuno Lopes que lhe diz “você teve um acidente de trabalho e conforme a alínea nº23 do código de trabalho tem direito a pausa até recuperação e subsídio por invalidez”) e um casal heterossexual, escolhido pela comissão de argumentistas do PP, a rezar em silêncio, com dois filhos fardados ao colo, aguardando serenamente a vez de chamada.

*nota, por vezes alguns actores interrompem diálogos a meio e debitam marcas comerciais sem nexo com a situação porque há uma quota de palavras a que cada argumentista de cada partido ou associação civil creditada tem direito – ponderada pela representatividade parlamentar. Os argumentistas do PSD, naturalmente, são conhecidos por serem corruptos e permeáveis às marcas, sacrificando o argumento e a verosimilhança em prol do lucro fácil, pelo que é fácil reconhecer as deixas escritas por eles.

(Não sou alf, não tenho a endurance necessária para mais do que isto)

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