dias azuis

Olá, amo-te.

Perdoa-me os princípios de hipotermia associados a uma ida à praia na zona Oeste em final de Maio, mas comprei-te o fato de surf e queria que o vestisses depressa, pois ao ritmo a que cresces, podia deixar de te servir dentro de umas horas.

Era tempo que fosses apresentada como dever ser ao meu sítio preferido de Portugal: o Baleal. Já aqui estiveste, em bebé, mas não te lembras. Na altura creio que só conseguias focar a poucos metros e o mar devia ser uma grande mancha azul.

Quando eu tinha a tua idade esta linha que liga a ilha a terra não existia e ficava submersa nas marés mais cheias e vivas. Agora existe e é melhor assim, porque podemos ir à ilha mais facilmente quando andamos de bicicleta.

Talvez não te lembres deste fim de semana daqui a uns tempos. Espero que não te lembres de algumas partes, como aquela em que te aventuraste dentro de uma poça de água que afinal era mais funda do que julgavas e foste apresentada à temperatura da zona oeste. Gosto de pensar que fica tudo,  embora para sempre indizível. Passaste a ganhar medo do chuveiro depois do banho de água gelada que te dei, uma vez, nos 39.5 de febre. Se estiveres a ler isto e tiveres 20 anos e por acaso reparares que tens fobia de chuveiros, desculpa, a culpa foi minha.

Eu nunca me vou esquecer do fim de semana. Por exemplo, este balde vermelho é o teu brinquedo preferido.

O fascínio com que repetes a operação de o encher e esvaziar de areia e observas muito concentrada o seu conteúdo, é intrigante. Gostas tanto do balde e de areia que chegas ao ponto de ver um bocado de areia num terreno baldio entre duas casas e exclamar “olha pai, uma praia”. E gostas tanto dele que em Lisboa, num apartamento, repetes a operação de o encher de areia imaginária. Só falta eu ralhar contigo por me sujares a sala toda de areia imaginária.

O tempo é muitas vezes feito de vento e de frio fora dos meses de verão, e mesmo nesses, é uma lotaria. E é bom que te habitues. E que gostes. É por isso que temos direito a espaço azul. E é por isso que temos de ser criativos como tu foste.

Gosto muito de te soltar no espaço aberto e novo e ver-te a explorar e a usá-lo, como se soubesses o que estás a fazer. Tu vês tudo o que te acontece um pouco como fruto do acaso e tentas tirar o melhor partido de cada situação, desde que tenhas um balde e não caias em poças.

Daqui a uns tempos, lá pelo verão, apresento-te melhor ao Mar, nomeadamente, ao seu interior, superfície e formas. Não imaginas quão divertido pode ser o Mar.

E sentimos o cheiro a iodo, das algas ruivas a secar ao sol na areia. A cada inspiração, limpamos tudo. Não que tu precises. Afinal, quando choras, sai-te mar dos olhos e tens muito. Estás sempre a dar trambolhões agora que aprendeste a correr e saltar e não sabes bem em que circunstâncias não é razoável fazer isso.

Um dia talvez precises do mar como o pai precisa. Se tudo correr bem vais precisar de certeza.

Que fique registado também que me chamaste a atenção para este peixe e este cavalo-marinho. E para um gato, que eu não fui a tempo de ver.

Se o teu brinquedo preferido é um balde, a tua comida preferida é pão.

Para ti, nada conforta os outros, como um bom bocado de pão. Dás pão ao Ursinho Rosa. E dás-me pão a mim, muitas vezes já previamente mastigado e salivado, pronto a engolir.

Nada reconforta melhor o espírito que um bocado de pão, não é?

Deixei-te descongelar ao sol a comer pão e a pouco e pouco recuperaste as cores. Depois fomos jantar fora. Comemos picanha, por causa do molho de feijão preto que tu adoras (não ligas a picanha propriamente dita). Correu tudo bem, menos teres insistido em dar de provar feijão preto ao Ursinho Rosa, tentando mergulhá-lo de focinho na taça.

Viste a Lua. Gostaste de a ver. No dia seguinte, de dia, apontavas para cima e perguntavas por ela. Já lá iremos, um dia. Dormimos nos beliches. Eu no beliche de cima e tu no de baixo pertinho do chão  (adivinha porquê). Dormimos os dois profundamente, sem sonhos, assim é o efeito de um dia azul.

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17 thoughts on “dias azuis

  1. (vou meia hora ao congelador, quando voltar ao formato original, já cá volto, para fungar um pouco de lamechice… caraças, que Júlia tão bonita, rapaz…)

  2. Sacana de direita manipulador, mas:

    parabéns por seres um pai assim (tenho saudades do meu, que me ensinou estas coisas sem exteriorizar – não sabia de outra maneira, também lhe não aconteceu – mas ensinou, como tu fazes, a amar o mar, a areia, as algas secas, e que até ficava doente quando adoecíamos, ainda que fosse de frieiras)

    não existem muitos assim…

    e já sabíamos que a Julinha é bonita, tu deixaste claro que a mão é bonita :p

    1. Eu não lhe vou dizer este tipo de lamechices e escrevo-as agora. Agora é fácil. Quando ela me disser “Pai duhhh… tenho 17 anos, pela milionésima vez, não, não quero levar um balde e uma pá para a praia” não vai ser fácil. Eu vou chorar em silêncio.

      1. 😀

        a minha nigga tem 17 anos, eu sei do que falas, mas tinha uns canudinhos de querubim, como a porcelana, que tem agora 20, eu sei, agora são uns pêssegos que só visto com séquitos de admiradores mais imediatamente interessantes (duh!).

        (ainda lhes compro ovos kinder – minha iniciativa – de meses a meses, e elas adoram, portanto não te preocupes com o provável choro em silêncio: kinder will be kinder e elas sabem)

  3. é isso tudo que já disseram por aí acima. post bonito 🙂

    (eu vou fungar sim. acho que já estou. diacho, que hoje não vou estar com as minhas filhotas)

  4. Bom exemplo do saudável trabalho da genética. O resto é pieguice e tiros no escuro. Carestias, provações, colégios internos e até seminários já formaram pessoas de valor.

  5. Uau a Júlia é muita parecida contigo.
    Eu cresci e passei todos os Verões desde que nasci (e ainda passo) entre a Praia da Areia Branca, o Baleal, Supertubos, Consolação e outras aí à volta. Quem cresce na zona oeste cresce mais feliz, com mais liberdade, e a saber o que é o mar a sério, daquele que tem ondas e algas (às vezes muitas algas), a engolir pirulitos e a recuperar a uma velocidade alucinante para se fazer à carreirinha na próxima onda. Cresce a saber aguentar rajadas de vento na praia e a ficar com areia até ao tutano, cresce a saber que a água do Oeste é gelada, mas que sabe mil vezes melhor o Oeste do que qualquer outra região balnear portuguesa! 🙂
    Quando crescer, a Júlia sempre vai ter o Bar do Bruno e o Bar da Praia, até o Bar da Ilha para ir beber uns copos e trocar as ondas por caipirinhas e mojitos 😉

  6. Que post tão giro (mais um) e como a Julia é linda!
    Se eu fosse ela daqui a uns anos ia sentir muito orgulho mas se tivesse fobia a chuveiros ia arranjar de preparar-te uma bela surpresa 🙂

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