Daniel Berehulak

Recomendo a visita ao site do fotógrafo Daniel Berehulak, agraciado recentemente com o prémio Pulitzer pela cobertura da epidemia de ébola para o NY times.

ebola

Numa entrevista, explica que grande parte do trabalho é logístico. As baterias, o material, a segurança, as viagens, conseguir ir para onde ninguém vai, estar onde ninguém está, lidar com ambientes hostis e perigosos, dormir numa tenda que transporta… E a outra parte é aproximar-se das pessoas. Para cobrir o ébola chegou a andar sem fato de protecção para não gerar sentimentos hostis das pessoas que fotografava. E eu que tenho vergonha de abordar um pescador, um turista, na rua e tirar uma foto.

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10 thoughts on “Daniel Berehulak

  1. Estas imagens são verdadeiros murros no estômago. Cruas e cruéis. Depois de sair de mais de uma exposição do World Press Photo com a garganta num grande nó, decidi que não voltaria a ver voluntariamente mais exposições de fotojornalismo. É o cúmulo da cobardia, eu sei. Se não tomamos conhecimento das coisas, nunca poderemos vir a fazer algo para mudar o que quer que seja, por mais pequeno que seja o gesto. E este gajos estão lá, na linha da frente. É um grande contra-senso: uma pessoa gostar de fotografia e não querer ver fotografias absolutamente brutais, em toda a plenitude do sentido brutal (e no entanto depois tenho revistas com anos e anos, que não consigo deitar fora porque têm reportagens com fotos desse mesmo calibre).
    Mas talvez haja “salvação” para mim. Dei por mim a ver a galeria desse fotografo e as 19 fotos sobre o Ébola. Brutal.

    1. Pelo menos as fotos dele são tão boas que a meu ver perdem o lado de exploração mais sensacionalista, ou suavizam-no. É estranho como se pode tirar uma foto bonita de algo que é horrível e cruel .

  2. Compreendo o que queres dizer quando dizes bonita, mas trata-se, creio, de harmonia, obediência a um padrão (mais clássico do que possa parecer), o que transforma o seu conteúdo, humanizando-o, ou sublimando a carga de dor e morte.

    1. Ah, este comentário? Li sim, li sim, é uma longa discussão. Eu, sendo liberal (mais do que de direita) acho que ele também quer maximizar o impacto ( e lucro ) do seu trabalho num meio brutalmente competitivo em que tens de ir a extremos. Pensar conscientemente em composição e beleza estétcia quando se está a fotografar desgraça alheia envolve uma certa frieza: “este miúdo com ébola fica melhor aqui em fundo azul quando for levado” etc. etc. Claor que o resultado do trabalho dele nisto é bom, mas mesmo assim, há questões.

      1. Que parvo, Lourenço, que desmerecer do trabalho de quem enunciaste – tu – o mérito. francamente, não me parece que o liberalismo, o lucro, a competição, tenham aqui qualquer cabimento.

        Não merecias ter feito o post, e nem sequer me percebeste, mas claro que existem questões: aquilo de que vives e aquilo de que vivo: para comer, por exemplo.

  3. AH não têm cabimento aqui? Achas que o NY Times lhe pagou quanto para fazer isto? Quanto achas que tens de pagar a um dos 4 ou5 melhores fotógrafos do mundo para ir para um local com ébola? Quanto achas que custa uma expedição destas, guias, protecção, viagem, equipamento etc. Achas que isto se financia com crowdfunding socialista? Claro que o Daniel poderia fotografar moda ou publicidade e é óbvio que homens como ele têm um sentido de missão, mas sim, o lucro e a competição têm algo a ver com isto. Não só, mas tem. Toca mas é a deixar de ter esses preconceitos malucos Alex.

  4. Não me interessa patavina aquilo que lhe pagou o NY Times por esta “missão” (um termo com qualquer coisa de ingénuo, não?, para quem aponta o que apontas). Interessa-me a coragem para lá estar, o risco, a informação divulgada a uma escala enorme, a sensibilização, o lado, digamos, estético, o que até parece uma contradição, mas não é, de facto (remeto para o meu outro comentário).

    Ó pá, Lou, e eu não tenho preconceitos, ou não comentaria num blogue de direita, caneco.Já tu, que quantidade de certezas, hem: quem te garante que ele apreciaria (pela massa, já agora?) uma carreira na moda, na publicidade, na papa gourmet?

    1. Eu li uma longa entrevista dele a falar na história da vida dele. Ele veio daí, da públicidade, foi fotógrafo da Getty durante anos e claro, enjoou e quis algo que desse significado ao seu trabalho. Parece-me que estás a passar por cima do que escrevo… Eu já sei. Eu reconheço todas as coisas que mencionas. O teu erro fundamental é pensares que o lucro do NY Times ou do Daniel não entra na equação e pior, que suja ou desmistifica isto. O NY Times não é uma ONG e o Danie é um profissional e pensa como um profissional a quem encomendam uma missão. É assim que o NY Times e outras raras publicações, seja de moda ou design ou literatura, se conseguem colocar num patamar muito acima das demais. Também há grandes fotógrafos de moda, especiais. Como há grandes arquitectos e afins. E jornalistas ou cronistas a quem encomendam uma peça de investigação ou algo assim. Com a falência do modelo tradicional do jornalismo e dos conteúdos gratuitos em barda, só algumas marcas por enquanto conseguiram sobreviver por serem globais e com isso terem escala de assinaturas e leitores para poder pagar conteúdos de luxo feitos por profissionais de luxo que devem custar exponencialmente muto mais que os outros.

      1. E para fechar, isto coloca uma pressão sobre o Daniel Berehulak, uma pressão de profissional, que se junta à pressão do sentido de missão, de ter de contar aquela história como um dos melhores do mundo. Esse lado de planear fotos, de aplicar exactamente o que ele aprendeu em publicidade com elevados padrões de perfeccionismo estético, que acho de uma frieza (que admiro). Estas a ver algo dramático a sueder e ao mesmo tempo estás a escolher o melhor ângulo etc. Já vi fotógrafos de guerra falarem nisto, numa ambiguidade da exploração. Não são papparazis, mas no fundo também desejam aquela imagem dramática, que coisas fortes aconteçam, ou não têm imagens de jeito. Aliás, cara amiga, recordo-me de ter lido não sei onde que havia fotógrafos e jornalistas na faixa de gaza a incentivar as crianças a ir atirar calhaus contra os israelitas porque precisavam de uma foto dessas. Mesmo nos repórteres de guerra, por vezes pedem ao soldado que dê uns tiros ou faça uma pose como se estivesse a apontar a arma ao animigo etc. para terem a boa foto sem ter de estar mesmo numa situação em que há mesmo alguém aos tiros do outro lado.

  5. Estamos a entender-nos melhor, mas bolas, deixa isso de me chamares ora preconceituosa, ora ingénua. Não sou nem uma, nem outra coisa. Nem de propósito, ainda ontem tive uma conversa com uma pessoa, a meio de uma festa (que as festas servem para conversar antes de irmos embora), debitando acerca disso mesmo que apontas: encenação. Se quiseres chamar-me alguma coisa, chama-me céptica.

    Bom feriado, luso-belga 🙂

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