amor

A minha filha (quase 2 anos) ainda não entende palavras abstractas como “amor” ou “saudade”. Eu dizer “o pai teve muitas saudades, tiveste saudades do pai?” deixa-a muda e indiferente, como quando lhe tento explicar que “os gatos não comem flores” ou “que os aviões não pombos grandes, são como autocarros com asas”.

Mas ela compreende – brutalmente – a supressão (ou o inverso) da minha vontade à dela, às necessidades ela. “Anda papá” acompanhado de gesto da mão para eu entrar na tenda atarracada e quente no quarto. Hesito. “Anda papá, desenha um cão”, estica-me um lápis e tenho de desenhar um cão da cor que ela quer, na folha, onde ela quer. Ou “anda ver os caninos” e tenho de me sentar no sofá e ver os bonecos com ela. “Papá anda jogar à bola” e tenho de jogar à bola no quarto. “Lê uma história” etc.

Qualquer contrariedade gera uma desilusão e frustração épicas. Conclusão: amor é uma palavra verdadeiramente inútil por ser tão abstracta. O duro é depois de um dia cansado ter energia e sorrir. Beijinhos e abraços a todos os pais.

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12 thoughts on “amor

  1. Mas aquilo de que o princípio do prazer-, ou seja, segundo o qual a nossa vontade é soberana-, se há-de confrontar com o da realidade, alerta para isso mesmo: nem sempre a imposição da nossa vontade resulta no nosso prazer imediato, então há que adiá-lo, sem contudo perdê-lo de vista… Quando a tua filha assimilar certos padrões, passará a manipular-te. Dir-te-á, por exemplo, “tive muitas saudades tuas, papá”, para de seguida te impor vários desejos, aos quais irás aceder voluntariamente.
    ” O duro é depois de um dia cansado ter energia e sorrir” – o Amor? (podes sempre concebê-lo à luz do mais puro egoísmo).

    P.S. Estás um Piaget de primeira apanha!

    1. Isto para mim é fascinante. Sempre pensei nestas coisas e sempre quis ser pai. Vê-la é fascinante porque é como ver como algo puro e absoluto e “animal” e primitivo como um cão, um golfinho ou macaco, evolui por causa dos estímulos que nós lhes damos e do contexto. Sou mais um Rousseau. O Bom Selvagem é-me próximo. Não sei se ela passará a manipular-me, de certa forma já me manipula, mas o truque também passa por aceitar essa manipulação até ao razoável. Sim, sinto-me culpado se disser “não” a um convite para pintar um cão. É uma manipulação, mas tenho a certeza que dentro de uns anos vou ter umas saudades horríveis dela me pedir para eu lhe pintar um cão e essa fase ter passado. Quanto aos desejos e mimá-la, tanto eu como a mãe somos meio nazis na educação dela nesses pontos. Penso que posso mimar até certo ponto, mas até tendo a ser um bocado Tough Love . Os exemplos que referi eram pedidos legítimos dela, quer brincar etc. Outra é impaciência num supermercado, berrar por tomar banho ou recusar jantar e fazer birras. Aí choca com uma Cristine Lagarde FMI style 😀

      1. Ah, eu vi isto há séculos, quando era miúdo. Tenho de rever com a Júlia quando ela for mais crescida e chegar à altura de eu lhe explicar que foi encontrada em pequena numa matilha de cães vadios.

  2. Ahahahahahah, “matilha de cães vadios”, mas não te aconselho a fazeres isso. Olha que a mim, quando era pequena, diziam-me que tinha sido encontrada num caixote do lixo e adoptada desde então… Juro-te que aquilo me soava perfeitamente possível, sobretudo quando a seguir se riam do ar pensativo com que ficava. Seja como for, no caso da tua filha, só se o pai dela fosse cão, que vocês os dois são “a cara de um, o focinho do outro”! 🙂

      1. Ó Lórenço, agora “partiste tudo”! 🙂
        Pensei várias possíveis respostas mas nem ouso, estaria a quebrar o encanto do teu comentário!
        ahahahahahah

  3. Oh. É agora duro… Sai-te o sorriso naturalmente, sem esforço nenhum, mesmo que estejas de rastos, com a cabeça a mil e esse dia já se estenda desde as 5h da manhã porque acordaste para as corridas, é ou não?!

      1. Não sei se sai naturalmente, às vezes ela tem de me desarmar e nem sempre tenho paciência, tenho de admitir. Às vezes estou preocupado com algo ou ocupado com algo e ela pede atenção e eu só quero conseguir pensar ou estar sossegado e não dá para dizer “espera 5 minutos”. Não sou o pai perfeito mas ela não é a filha perfeita, ainda hoje me cagou o quarto todo.

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