primeira coisa do dia

Entrei na casa, num bairro pobre, de Lisboa velha, depois de lhes ter estampado o carro. Vim devolvê-lo. Não me levaram mal, pareceram até ignorar o para-choques meio arrancado. O interior da casa era amplo, pobre e despojado de móveis. Não parecia condizer com o tipo de casa que se adivinhava da rua, mais pequena e velha.

Duas mulheres, um bebé num carrinho, um homem numa cadeira, no sofá, de boxers, barba por fazer, a ver televisão. A morena punha a loiça na mesa. Um avental com quadrados vermelhos e brancos. Era linda e jovem. Fiquei imediatamente apaixonado. Deixei-me ficar no meio da sala, à espera, com medo de tocar em alguma coisa. Pelos vistos tinham-me convidado para almoçar.

A outra mulher, a loira, talvez tivesse mais de trinta anos, bonita, com ar cansado. Cozinhava num fogão branco a gás e dizia ao homem, pelos vistos o marido, “não ponhas o copo de cerveja aí, fica marcado, põe no chão ou na base” tendo por resposta um resmungo misturado com murmúrio da tv. Depois vinha ver o bebé no carrinho, ajeitar-lhe o cobertor, voltava ao fogão.

Olhei a morena nos olhos escuros e castanhos e fiz-lhe sinal para vir comigo em direcção à rua. Ela fez que não e apontou com a cabeça para a loira ao fogão, como que a incentivar-me “vai”. Olhei para o marido da loira, parecia absorto na luz verde da televisão.

Estava de costas, também de avental, a lavar uma alface. Toquei-lhe na mão, não se mexeu, mas parou de lavar a alface, com a água ainda a correr. Inclinei-me e beijei-lhe o pescoço e ela deu um enorme suspiro, estremecemos os dois com medo que o marido nos tivesse ouvido. Se ouviu, fingiu que não ouviu. Tanto ele como a morena pareciam ignorar-nos e fazer um esforço para isso. A loira tirou o avental e pegou no bebé.

Levei-a pelo braço. O bebé dormia-lhe ao colo, embrulhado. Fez uma pausa antes de sair para a rua, piscou os olhos na luz branca. Deu um passo. A morena fechou a porta atrás de nós, abafando o som da tv. Não trocaram uma palavra. Entrei no carro depois de instalar o bebé na cadeirinha e arrancámos.

Alguma coisa solta no carro, do acidente, arrastava-se pelo chão, podia ouvir o barulho com as janelas abertas. Ela vinha a sorrir. Não tinha percebido como ela era: a Michelle Pfeiffer com 40 anos. Não parecida com a Michelle, era mesmo ela. E era minha! E acordei num sofá com alguém a dizer-me “não ponhas o copo aí, deixa marca” e acordei de novo com a minha filha a gritar “PAIÍiiiI? PaIII PAI! ANDA PAPÁ!”.

7:00..

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