a festa

Como se não bastasse o apartamento da minha ex paixão platónica de universidade estar do outro lado dos jardins das traseiras e ter de a ver mais o marido a deambularem pela cozinha, ao lado há um apartamento de jovens. Noite sim, noite não, é a mesma merda. Devem ser quatro habitantes, mas às vezes são mais, rapazes, raparigas, descontraídos, conversadores.

Fumam, bebem vinho, horas a fio. Vejo as garrafas a passar de mão em mão. Jantam na sala que na minha casa é o quarto da minha filha. Alguns sentam-se no parapeito da janela aberta, a fumar (é um 2º andar) de costas para mim. Sempre em jantares, banhados por uma luz quente.

Observo-os distraídamente, de boxers e em tronco nú, imerso no escuro, para poder ter as janelas abertas e não entrarem melgas, enquanto tiro mais uma cerveja do frigorífico e arrumo a roupa lavada de um dia de viroses e vómitos.

É bom poder abrir as janelas. Quando ela vivia aqui era atacada por todas as melgas do planeta Terra. Assim que o sol se punha tinha de fechar as janelas de toda a casa, como se fosse uma prisão. Hora do recolher, fechar as janelas, fechar as janelas. A culpa não era dela, realmente via os inchaços, as picadas, as reacções absurdas, exagerada sempre, sentimental, actriz, até no sistema imunitário… era impressionante. Picavam-me também por vezes, mas não deixavam abcessos grotescos como nela que no outro dia deixava o cabelo tapar-lhe o rosto.

Às 4 da manhã acender a luz porque “está aqui uma melga, Lourenço, mata-a” e ter de andar à procura da melga, de almofada na mão, perscrutando todos os cantos do quarto, ouvindo atento, enquanto ela ficava escondida só com os olhos de fora a espreitar do lençol.
“não há melga nenhuma vou dormir” “ah isso é que há! procura melhor”

A sensação de ser homem quando finalmente a encontrava e a esmagava com genuina raiva: isto é para aprenderes a não te meteres com os brays! Citando um filme, ao ver a mancha de sangue num cortinado “isto não é o sangue dela, é o meu”.

Hoje abro as janelas todas, é um vendaval em casa se for preciso, deito-me nu e digo “mordam”. Nem uma mordidela.

Nunca tive “um grupo de amigos”. O grupo de amigos que janta. O grupo de amigos que vai de férias. Os casais misturados. Passei férias uma vez, em grupo. Uma vez.

Não sei o que fiz de errado, sempre me achei simpático para as pessoas, mas tenho de admitir que pode ser um problema de percepção.

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7 thoughts on “a festa

  1. Deu-me vontade de rir porque lá em casa é a mesma coisa mas em sentido inverso. A mim não há melga que me chegue, eu não vejo nada, não ouço nada. Mas ele atropela-me sempre o meu bom sono porque tem de matar uma que ainda aí a chatear 🙂
    Se te faz feliz, eu também nunca tive grupo de amigos, nem de casais nem de coisa nenhuma! Há uns anos cada vez que via uma aula de zumba grátis lá eu ia eu assistir à aula sozinha e perguntavam-me: “onde estão as amigas?” – “não tenho, vim sozinha”. E divertia-me na mesma, sozinha, à minha maneira 😉 (eu também primo pela simpatia, também não sei o que fiz, é a vida!)

  2. Mas e gostarias? aguentarias? Eu tive, era quase uma doença. Anos e anos depois, e com a devida distância, vi que se calhar não éramos tão amigos assim, ou pelo menos, não da forma que eu acho que os amigos devem ser… num grupo de 10, se calhar só conto com dois… de verdade. Depois, e muito pela experiência que tive nesse grupo, e bem sei que parte da responsa é minha, fiquei com ódio a grupos. Depois, qdo estudei psicologia, vi que o meu tipo é introvertido e desde então n me preocupei mais c grupos e entendi tudo. Meaningful relationship or no relationship. Bjo

    1. Não, não gostaria nem aguentaria. Mas gosto de grupos temáticos, pessoas que partilham um interesse e se juntam, por exemplo, corredores, gastrónomos, motards ou adeptos de futebol. Isso é ok. Não, acho que é mais este tipo de grupos em que há casais com casais e vão jantar fora e assim. Não acho mal, mas teria vontade de cortar os pulsos se calhar. Só se tivesse mesmo muita sorte com o grupo e fossem todos introvertidos. Casais de introvertidos, contrariados, a jantar uns com os outros e com pressa de ir para casa ver lolcats na net.

      1. ahahahahahahaha ❤ os introvertidos juntam-se em casa e sim juntam-se por interesses comuns eventualmente. O problema, no meu caso, seria o monotema. Enquanto há para trocar, ou para exibir conhecimento, tudo bem, mas se é só isso, é uma chatice, ao fim de um tempo… O que os preenche é o seu mundo interno, por inerência, o mundo externo e as pessoas e o barulho que fazem cansam-nos imenso… mas não deixam de gostar de falar com gente, desde que não seja small talk, que sei lá não seja pra perder tempo…

  3. Tudo o que se insira na categoria ‘obrigação’, sejam convívios, amizades com marcação ou ‘happenings’ para fachada social dispenso. Isso e esperar nas filas desmesuradas da Conchanata 😉

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