não consigo voar

filha,

passámos uma semana inteira juntos e como ficámos doentes, estivemos também 2 dias extra em casa, mais um fim de semana de praia. Foram muitas horas juntos e que incluíram mesmo metade de uma noite em que dormiste ao meu lado por eu ter tido um pesadelo e não querer dormir sozinho.

De modo que na segunda feira quando te depositei na creche, tu não me largaste e fartaste-te de berrar a querer o papá, e que eu ficasse na creche contigo, algo que nunca fizeste antes. Sim, já houve um tempo em que não te tinha de deixar a 200 metros da escola porque o nosso tandem não é cool.

Pedalei dali para fora com uma lágrima quase a cair, parecia que te estava a deixar no canil, eu que nem chorei quando a Grécia saiu do euro em 2015, mesmo antes da III Guerra Mundial que presumo que ainda decorra quando leres isto à luz de velas no abrigo que o papá deu ordens para começar a construir no Baleal quando Bruno de Carvalho foi eleito primeiro ministro de Portugal em 2021, à frente do Livre.

Passado um bocado senti um enorme alívio porque tu também me dás um trabalho do caraças e às vezes fico tonto com as cenas a acontecer ao mesmo tempo e a velocidade exponencial com que a casa fica desarrumada.

Para memória futura:

Com 20 meses,  concentras-te muito, fechas as mãos, depois relaxas e dizes, desanimada: “não conshigo voar :(” Fazes mesmo um ar triste ou desiludido por não conseguir voar.

Quando te estava a secar depois do banho perguntei, como de costume “quem é o bebé mais barrigudo de sempre, és tu? ” ou algo do género e tu disseste “Não.” assertivamente. E perguntei-te “não és o bebé?” e disseste muito séria “Não.” Então quem é que tu és? E tu: “Eu sou a Júlia.”

Começaste a dormir só com  cão. Depois o urso rosa. Depois querias o ursinho castanho também. Entretanto junta-se a raposa bebé, a raposa grande, o ouriço, o peixe e começa a faltar espaço na cama de grades. Sempre que fecho a porta do quarto ficas a conferenciar uns 15 minutos com eles.

Há dias entrei na sala e assustei-me com o cenário. Pegaste no livro do Churchill, começaste a folhear e a fingir que estavas a ler em voz alta. Fizeste isso uns bons cinco minutos.

churchill

Não sei se acho engraçado, acho que estás a gozar comigo. E para que conste, eu não leio em voz alta nem faço essas caras.

Fiz uma experiência no sábado, num dia de praia invernoso. Queria ver até que ponto entravas em hipotermia em nome da diversão, porque já foram 2x que te salvei de uma poça de água do mar para ser recompensado com a maior birra de sempre, misturada com ranho e areia e ventos ciclónicos. De modo que desta vez na piscina insuflável do pátio do bungallow mantive-me firme, bebendo uma cerveja e comendo umas bolachas, bem encasacado e seco. “Não tens frio, filha?” “N…ão…pp ppp apá” Por fim pediste ajuda e aceitaste os termos do acordo: acabou-se o banho e vens para dentro. Poucos minutos depois com o aquecedor nos 2000w a 50cm, recuperaste. Temos método: congelar e descongelar-te. Zero birras.

Estavas numa poça na praia comigo, os dois a fazermos o castelo de pedrinhas e nisto vem um puto moreno, devia ter 3 ou 4 anos, a correr, saltou para dentro da nossa poça de água, destruindo a muralha a oeste e sem mais pegou no teu balde. Tu ainda disseste “é o meu balde” muito chocada e o menino ia-se embora com o balde se não fosse eu ter agarrado o balde com vontade de lhe espetar uma galheta com a outra mão livre. Apareceu o pai, peludo e atarracado, nem pediu desculpa, pegou no filho e largou-o de novo. O filho desatou a correr, agarrou numa bola de outras crianças e o pai teve de novo correr atrás dele para devolver a bola, tudo isto sem uma única reprimenda séria do género “não podes tirar a bola aos meninos” ou “não podes invadir a poça de outro menino assim e tirar-lhe o balde, tens de pedir por favor”. Tu ficaste a olhar para ele e para mim, muito espantada, meio em choque. Agora sabes o que é um comunista, filha.

Estás agora a começar a ser meio paternalista para mim.  Às vezes acabas de comer e apontas para o meu prato e dizes “o papá gosta de esparguete não gosta?” e eu “s… sim, gosto” e tu fazes uma festa no meu braço e dizes “o papá vai comer o esparguete todo, não vai? Come papá, come o esparguete. Muito bem. O papá gosta muito do esparguete.”

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4 thoughts on “não consigo voar

  1. Adorável e ternurento…<3 Até eu quase que fiquei com uma lágrima no canto do olho, pois reconheço e relembro situações similares passadas com a minha filha quando tinha a mesma idade da tua.
    Ser pai é duro, sim…mas simultaneamente muito gratificante.

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