probabilidades, quais são?

Quais são as probabilidades? Uma ex paixão platónica do meu 1º ano de universidade viver mesmo em frente às minhas traseiras no andar exactamente simétrico do meu e ter sido mãe pouco depois de eu ser pai? Nem gosto de pensar nisso, assusta-me.

Chamar-lhe paixão platónica talvez seja exagerado. É de certeza, também gostava de uma cujo code name era “Lara Croft” (vi-a há dias, acho, em Telheiras, ainda pára o trânsito, eu ia caindo de bicicleta) e outra, uma lourinha de cabelo curto que nem era assim tão gira e que voltei a ver o ano passado, tinha cara de rato tímido. E outras. Muitas.

Já falei nela. Eu era caloiro, ela era “veterana” e foi má. Disse-me uma coisa má. Achei-a fria. Eram três raparigas veteranas. Ou seriam quatro? Esperavam caloiros no fim das escadas de pedra do antigo convento que é o ISEG. Eu ia lá tratar de uma papelada qualquer . Uma das do grupo foi simpática só porque éramos da mesma zona oeste, ao ponto das outras terem debandado e nos terem deixado sozinhos, depois de me garatujarem a cara.

Mas a vizinha, codename Gremlina, foi fria comigo, vendo que eu não entrava no espírito da praxe e ficava pasmado (vinha da província) por ver aquele fenómeno de raparigas que se juntavam em gangue para pintar a cara de um puto de província, foi-se embora. Foi ofensiva, chamou-me “enjoadinho” quando na verdade eu estava simplesmente a tentar perceber que merda de sítio era aquele onde mulheres um ano mais velhas se achavam no direito de chegar ao pé de uma pessoa e pintar-lhe a cara só porque sim. Para mim era a materialização de um pesadelo. Que gajos me praxassem ok, já tinha sofrido qb (e isto é para todos os estúpidos que acham mesmo que estas gerações são piores que as antigas, porra, vão à merda, os mais velhos eram selvagens comparados com o que nós fomos para os mais novos logo nesse anos e eles para os mais novos depois deles!)

E depois? Eu podia listar aqui muitas coisas más que fiz e ser jovem é ser jovem. Ela queria afirmar-se e eu devo ter falhado, não por desafio, mas por timidez. Passei pelo mesmo do lado de lá, quando um caloiro me disse: “não quero que me pintes a cara”. Também fiquei confuso. E agora, o que é que eu faço? Se disser “tá bem”,  todo o edifício rui… Ruiu depressa. No mesmo dia bebemos cervejas. Esse caloiro é um dos meus melhores amigos há quase duas décadas.

É preciso que se diga, contudo, que um homem mais novo está sempre em desvantagem terrível como uma mulher mais velha nestas idades tão imberbes (para sempre?) e neste caso foi um confronto que me marcou, pelo estigma da veterana / caloiro. A prova é que não esqueci, marcou-me aquele subir de escadas com os papéis da província e ser cercado por mulheres apenas 1 ano mais velhas mas que na verdade eram da cidade, da vida universitária, que imaginei de deboche e depravação e maturidade extrema instantânea.

Mas tive mais experiências positivas do que negativas, como prova a veterana simpática ter ficado imenso tempo a conversar comigo sobre a zona oeste e ter concordado em ser minha madrinha (eu pensava que isso era mesmo útil, meu deus, devia parecer a minha filha a pedir-me pão)

Quando a vejo na rua, a gremlina, mudou. Viveu tanta coisa. 20 anos? Adora o filho ou filha, adora. Ele é um satélite que ali anda, carrancudo, calado, resignado. Ehehe.

Agora, mega discussão. Ela, de t-shirt cinzenta, larga, cabelo em trança, gesticula, palmas das mãos para cima. Ele, enorme, pesado, sempre curvado, saiu há momentos com o bebé ao colo e voltou sem ele. Ela corre de um lado para o outro na cozinha. Abre armários, microondas, prova comida. Gesticula mais. As luzes apagam.

drunk on despair

Estou a ficar bom nisto do vaguebooking. Mais uns dias e estou o Pedro mexia com cenas tipo

Nunca esperei outra coisa de ti. A crueldade é condição inerente aos fortes e tu és forte. A força é relativa aos fracos, exerce-se sobre eles. Não me queixo. A dignidade dos fracos reside aqui, tal como a de Cristo.

[música de Morrissey]

ou

Até um dia, disseste tu. Para mim, até um dia significa adeus, como para um cão a porta fechar com o dono do outro lado significa adeus. Para ti pode muito bem ter sido um até um dia literalmente, sem preocupações. O certo é que não pensaste mais no teu até um dia e eu fiquei com ele.

[música de Morrissey]

ou

A beleza atinge-me sempre primeiro que o resto. O resto é mistificação, fantasia minha. É-me indiferente. A tua beleza venceria sempre o que eu pudesse imaginar. Já eu, dei-te demasiado. Sem espaço para a tua imaginação, não te deixei imaginares o que querias. Fraco consolo, o teu corpo e o meu, até à tragédia de um fim. Um consolo que não tive

[música de Morrissey]

 

hã? sou bom nisto ou não? 😉  Devia haver competições de improviso de posts mexiosos.  Tipo aquelas  competições de hip-hop em que eles improvisam, as rap battles.

(um colega: “estás bem? estás a ouvir o quê?”)

kevin

efeitos de passar dias com a minha filha em casa sem interagir com mais ninguém

Quando fico sozinho com a minha filha muito tempo e quando saio de casa finalmente e interajo com pessoas no mundo real, acontecem situações como:

Cortar o bife a uma colega com quem fui almoçar, porque ela estava com dificuldades, sem pedir licença sequer e ter dificuldades em controlar-me para não lhe passar um  guardanapo pela boca de 5 em 5 minutos e perguntar “queres água?”

Ter a sensação que as mulheres (os homens não) vão cair a qualquer momento quando estão a fazer uma coisa disparatada como descer escadas sozinhas ou andar de saltos altos na calçada portuguesa.

Dizer “isso não se faz!” com ar muito sério e o indicador levantado, quando discordo de uma atitude qualquer. No trânsito faço isso aos taxistas que quase me atropelam quando vou de bicicleta. “Isso não se faz… Ai ai ai o menino…”

Dar tapas ligeiras nas mãos em vez de “deixa isso quieto”. Estão a mexer no telemóvel num almoço ou jantar: “tap”. Isso e verificar a febre com a mão na testa das pessoas.

Explicar coisas com argumentos muito simples e exemplos. É frequente começar conversas com pessoas de esquerda com “Isso não se faz! ai ai ai Tu queres ver que sais do euro?” Ou então começar “olha, isto é uma moeda de 1 euro. Vês? É uma moeda. Com isto posso comprar pão para o gato Henrique.”

Ficar contente quando alguém consegue exprimir um desejo com nexo, coisas como “hoje apetece-me comer sardinhas” num restaurante. Se começam com as habituais hesitações nos menus dos restaurantes posso pegar eu na lista e “queres sardinhas? Ou queres salmão? Não? Sardinhas? Bacalhau? Dourada? Queres tudo? Não podes ter tudo, escolhe! Queres carne ou peixe? Olha que depois é para comeres tudo!”

Ver um gato em cima de um muro ou debaixo de um carro estacionado e interromper a conversa “… de modo que em 2025 as pensões deles iam chegar a 25% do PIB e iss… OLHA UM GATO! Gatoooo O que é que estás a fazer, gato? Anda! Anda pashiar!”

vais sonhar com quem?

(não é uma indirecta para ninguém, a sério, eu não curto o chamado “vaguebooking”, quando o pessoal se mete com videos românticos e pedaços de letras e se torna minimalista nas cenas e com indirectas e se vê mesmo que está a anhar com dor de corno. Aconteceu-me também, acontece a todos. Pronto, deixo aqui o disclaimer porque não quero que ela pense que é uma indirecta para ela)

(não é, ela não existe)

situação grega explicada à minha filha

Estamos os dois em casa com a virose, de modo que aproveitei para brincar de forma pedagógica com ela e explicar-lhe o que se está a passar.

“oh não, camarada! o nosso stock de avelãs está a esgotar-se porque somos oprimidos pelo grande capital e pelas políticas de direita!”

No Eurogrupo, aguarda-se a chegada do Rato Grego para discutir se emprestam e injectam mais fundos do pires de fundos. A apreensão é geral.


“…  ou me dão mais fundos para avelãs ou falo com o Urso Russo. Ah, e de qualquer forma, não podemos pagar o que devemos, isso é evidente. E exigimos ao gato compensações por crimes. E… “


A mão pesada da chanceler abate-se sobre o Rato Grego.


O Rato Grego muda de tom e dá música aos seus parceiros na esperança de libertar fundos do pires: “queremos liberalizar e privatizar coisas, a sério que queremos”, diz o rato Grego enquanto sapateia o hino da alegria.

O ministro das finanças grego reúne com a directora do FMI que protesta: quer adultos na sala.


O BCE e o FMI analisam as propostas técnicas gregas. Não parecem muito rigorosas e pode mesmo ser a versão errada.

No fim do dia o Ratinho Grego volta para a Grécia com a tão ambicionada moedinha. Uff, foi duro e hoje vai dormir um soninho descansado.