os amanhãs cantarão etc.

Este gráfico que segmenta o sim e o não no referendo grego (sondagem) por faixas etárias parece ser elucidativo quanto ao futuro da Grécia no Euro.

jovens

Quanto mais jovens, mais “não”, quanto mais velhos, mais “sim. O irónico é que racionalmente as percentagens deveriam ser opostas: os jovens têm bastante mais a ganhar com um Sim e ficar na europa com o tipo de medidas propostas (que cortam em reformas e subsídios que não recebem, salários que não têm, sindicatos que não os representam) do que com um Não –  mesmo no caso teórico e impossível da Grécia ficar no Euro depois de um Não. Obviamente, é melhor para a Grécia ficar no euro e melhor para o projecto europeu, isto, claro, em teoria e num mundo perfeito.

Contudo, o gráfico demonstra – caso a sondagem esteja correcta – que a tal divisão no referendo (a acreditar nas sondagens) na prática está relacionada com faixas etárias. Não é uma divisão em que metade dos jovens pensam Oxi e metade Nei e em que metade dos velhos pensam Oxi e metade Nei. Existe uma correlação evidente entre idade e sentido de voto. Pelo que a serem reais estes dados, a Grécia só vai parar no fundo depois de passar por um caos muito prolongado.

Afinal o futuro da Grécia é aquele Não, mesmo que o Sim ganhe. O futuro da grécia é, a não ser que haja um milagre que não vejo, a saída da zona euro. Em 2012 quando escrevi que a Grécia iria sair do euro, vi em marcha essa espiral, como se um país chegasse a um tiping point e em que começa a afundar-se em desagregação social e política, até culminar no Syriza em 2015.

Na inevitabilidade da saída por vontade popular, ou pela racionalidade política e económica da mesma (o Euro, afinal, sempre teve críticos entre os economistas) ela poderia não ser tão dramática para os próprios como parece que vai ser. Eu via como menos má a saída da Grécia do Euro por opção, nem que fosse pelo desfazer deste foco de tensão que se alimenta o ressentimento contra o exterior e que é terreno fértil para os nacionalismos e a dialética dos populismos. Mas não com este tipo de governo que diz uma coisa e faz outra. Seria com um governo que assumisse a saída directamente, os custos extremos que isso iria ter no curto prazo, mas em troca teriam um longo prazo e autonomia política. A Europa prestaria auxílio humanitário e procuraria manter a Grécia na União Europeia. Talvez voltassem ao euro quando estivessem prontos. Seria uma saída apenas pelo facto de entrar em incumprimento com a dívida (ou de negociar um perdão, mas sem contexto de conflito ideológico) ou de incompatibilidade com as regras económicas da eurozona que podem de facto gerar sempre os mesmos problemas.  Até podia ser acordada entre partes para minimizar o choque económico e político.  Poderia criar-se um mecanismo de saída controlada.

O Uruguai entrou em default e 2 anos depois estava de volta aos mercados porque os investidores vieram que afinal era sustentável de novo, precisamente por ter esquecido a dívida. Mas não aconteceu nada disso na Grécia, nem em 2015 quando está toda gente fzarta de saber que a austeridade foi excessiva e demasiado recessiva. É preciso habilidade para fazer o que o Syriza conseguiu fazer, espero que por incompetência, mais do que por calculismo frio, como descobriremos após o referendo. O Syriza sabe bem o que vai acontecer quando a Grécia sair do euro e temo bem que toda esta encenação dos últimos tempos seja o preparar do amanhã, em que o ónus da culpa vai cair na Europa que não quis aceitar a vontade grega ou impossibilitar a aplicação de qualquer acordo e medidas, mesmo que o Sim ganhe.

Por outro lado,é praticamente irrelevante do ponto de vista económico a saída da Grécia do euro para a UE no médio longo prazo e no plano político, acaba resolver um problema que francamente não vejo que tivesse solução desde que o Syriza foi eleito e abriu a caixa de pandora.

Voltando a isto dos jovens vs velhos gregos, cada um pode interpretar à sua maneira os resultados desta segmentação. É bom? É mau? Muitas democracias nascem do esforço dos jovens, como os estudantes universitários que lutam contra poderes instituídos e ditaduras e em contextos em que os mais velhos são mais apáticos ou mal informados ou conservadores. Mas também é frequente ver ditaduras ou regimes com elevado deficit democrático nascerem dos ímpetos dos jovens que desejam sociedades novas, diferentes e têm menos a perder. Nenhuma revolução nasce dos velhos, isso é certo. E nem todas as revoluções acabam bem – sair do euro é uma revolução, não tenhamos dúvidas. Afinal o futuro é deles, não é dos idosos que fazem fila no banco para receber a reforma que subitamente pode desaparecer ou do funcionário público com 20 anos de carreira ou de idosos que ainda se lembram da ditadura Militar ou de um mundo em convulsão com guerras e ameaças.

O que tem a perder um jovem, perante o desconhecido? Basta ver como Hugo Pratt, o autor de Corto Maltese, fala da itália de Mussolini e de como o fascismo o entusiasmou pela libertação moral que significou ou como Gunter Grass explica a sua passagem pela juventude hitleriana. Na Grécia, desde Janeiro de ,2015, temos assistido a um despontar de algo sinistro, pelo menos, inequivocamente desastroso no plano económico, e a meu ver muito sinistro no político. Basta ver o que foram estes seis meses do Syriza, mas foco-me só nos últimos dias:

Não há um mundo extremo de diferença face ao partido comunista grego que, tal como o português, assume que quer sair do euro e por isso nem responderia sim ou não? Não seria mais honesto referendar a permanência no euro e/ou o pagamento das dívidas? A sério que se pode confiar em Tsipras ou Varoufakis quando juram a pés juntos que um “não fortalece a posição negocial” junto dos credores quando estes dizem precisamente o oposto?  Quando referendam uma proposta confusa quenem está na mesa, quando dizem que o controlo de capitais vai ser “de certeza” levantado na terça feira, quando dizem que vão de certeza chegar a um acordo na 2ª feira?  A sério que acham normal Varoufakis ainda há pouco ter dito à SIC que o Não iria fazer com que a Grécia fosse iluminar toda a europa com uma lição de democracia? Se há 6 meses isto já era forçado e utópico, agora não é simplesmente sinistro?

O prenúncio é péssimo. Isto não augura nada de bom e duvido que mesmo no caso de um Sim este governo desapareça tão facilmente para nunca mais voltar. Ainda ontem o ministro da extrema direita, o da defesa, avisou que o exército (o 7º mais caro do mundo per capita) também servia para impor a ordem interna. Já vi este filme.

Anúncios

8 thoughts on “os amanhãs cantarão etc.

    1. Epá, raios… Outra vez não. Já sei que isto irrita o Vareta, mas ainda há uns meses só de postar aqui o procedimento caso houvesse um default ao FMI me disseram a mesma merda ou variações, como se fosse preciso ser louco para antever isso (que já aconteceu). EM 2012 quando disse que a Grécia ia sair do euro, idem, é certo que ainda não aconteceu, mas está mais próximo. Este ano assim que o Syriza começou a negociar e o varoufakis a twitar etc. disse que isto ia acabar muito mal, que eram irresponsáveis e também me disseram variações do “não estás bem da cabeça”, enquanto que o Rui Tavares, depois de Dragh e do QE escrever, muito bom da cabeça, que o a crise do euro tinha acabado. Elabora.

      1. Não vou elaborar, iria ser certamente muito trabalhoso e eu sou um gajo cansado.

        Muito rapidamente: não vejo nada, mas mesmo absolutamente nada de sinistro no Syriza. Já do outro lado vejo a estupidez brilhando majestaticamente. Parece-me extraordinário que isto não seja tão evidente como o sol que nasce todos os dias.

        Se por acaso isto “acabar muito mal” a culpa não será do Syriza.

      2. «Paul Krugman e Stiglitz têm razão, os gregos deveriam votar ‘não’ e os líderes europeus deveriam fechar um acordo que permita uma saída controlada do euro, para minorar os efeitos sociais do choque de desvalorização e para dar tempo aos gregos para mudarem a sua economia, mais difícil ainda a sua mentalidade. Se o euro já tem problemas, não é possível que uma economia fraca se aguente com uma moeda forte. » Pronto. There.

  1. eu que sou um básico acho apenas que isolar um grupo de pessoas e atribuir-lhe características negativas – o grego hoje em dia está entre o caloteiro e o preguiçoso; uma espécie de parasita – é algo que historicamente dá maus resultados.

    se ficam ou não no euro, não faço ideia, muito menos se isso é bom ou mau. aliás, consta até que não sou só eu que não sei; parece que isto nunca aconteceu (acho que o uruguai não partilhava a moeda com os outros países sul americanos).

    portanto, dizer que é bom ou mau a grécia sair do euro é entrar no domínio do dogma. não há modelos que nos permitam ter um termos de comparação.

    1. a questão é o que é inevitável acontecer e antecipar isso. Dou um exemplo muito claro, logo no início da crise vários líderes europeus diziam ser impossível um país do euro não pagar as suas dívidas (Sarkozy nomeadamente). Pouco tempo depois estavam a aplicar um perdão gigante de dívida grega. Podemos dizer a mesma coisa sobre a dívida da grécia agora (ou Portuguesa) mas também temos de ver o que é a Grécia ou Portugal e que nem mesmo um perdão de dívida torna a Grécia solvente e sustentável – e é impossível essa solvência sem medidas de reforma profunda do estado e sustentabilidade das contas públicas. Ora bem, já em Janeiro, basta ler os textos de Varoufakis ou o ver Tsipras a pedir compensações pelos crimes de guerra nazis, que se percebia que estávamos a lidar com uma espécie de bicho diferente e que iria acabar mal. O problema é que o Syriza é opaco e só por isso foi eleito:disse que ficariam no euro, ao contrário dos comunistas. A generalidade das pessoas, como o Poupou ou a minha mãe, continua a achar Varoufakis simpático, Tsipras não é um poupoulista, a extrema direita no poder é um mal menor etc. Nem Tsipras convocou o referendo nessa altura – como devia ter feito logo mal foi eleito – e sempre garantiu que chegariam a um acordo, nem no Eurogrupo me pareceram, pelo menos publicamente, muito preocupados. Julgaram talvez que o medo da ruina (que já se está a viver) no último segundo dobrasse os ímpetos revolucionários do Syriza, que a ideologia de Varoufakis fosse algo pitoresco, uma excentricidade etc. Mas isso não aconteceu. Portanto a partir do momento em que temos este contexto e uma base na população em que esse conflito parece ser permanente, o que me parece é que é inevitável uma solução como a saída do euro (obviamente, não tenho a certeza) porque é o próprio Euro que gera em si um foco de tensão entre os países, isso é evidente, uma vez que obriga a regras e ajustes e nem todos os países são iguais ou querme o mesmo. Afinal, já houve UE antes do Euro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s