toda a gente aqui quer-te

Tenho tido uma coisa estranhíssima ultimamente, uma espécie de flashbacks mais fortes do que é normal, como se estivesse a reviver sensações antigas. A maior parte são pela minha filha, ela vê ou faz algo pela primeira vez e eu revivo a descoberta, passo por tudo outra vez. Quase tive medo de pombos hoje. Mas não tive. Há momentos numa deambulação musical, tropecei em Jeff Buckley.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Jeff Buckley. A música Everybody Here Wants You, na antena 3, 1998, época de exames. Tinha saído o Sketches for My Sweetheart The Drunk, álbum póstumo, Jeff tinha morrido há pouco tempo – tinha-me passado ao lado. Estava no sotão da casa de campo onde vive a minha mãe agora, de roupão verde desfeito e cheio de borbotos, no habitual período altamente depressivo de reclusão para estudo obsessivo e angustiado, agravado por ter de conviver com os meus pais mais de 1 hora consecutiva, as alergias dos ácaros da casa velha, os pólens (hoje não me fazem nada), a ausência de amigos, sem internet, sem tv cabo, só com uma guitarra empenada e livros.

Com lenços de papel em canudos enfiados nas narinas como uma morsa, para estancar o dilúvio de água para cima da calculadora gráfica, seguia noite fora, contemplando incompreensíveis equações. Sonhava com fórmulas, acordava convicto de soluções vagas que se esbatiam na realidade dos problemas.

Em apenas um mês e meio de 16h de estudo diária, tentava absorver a matemática que me tinha passado ao lado ao longo  de um semestre em que me aplicara  a “ser um bon vivant” como, na minha apresentação de trabalho final, me classificou o regente do curso, o professor Silva Ribeiro.

Por vezes fugia para o campo, levava um dos cães, dizia que me apetecia passear, mas ia fumar a ouvir grilos, indiferente à natureza, ao vento nas vinhas, nas árvores. O meu ambiente já era Lisboa. O campo da minha infância era uma coisa enorme de nada. Inútil.

Bem, tinha um velho rádio cinzento com duplo deck de cassetes, uma “boom box”. E deu esta música e já não estudei mais. O álbum passou todo, todas as noites, o tipo da antena 3 da altura também devia gostar dele, suponho. Estudava numa secretária velha, já do meu avô. Curiosamente, numa gaveta, havia duas armas, um revólver clássico com um tambor de seis balas que tinha sido usado na guerra colonial e outro  outro “de senhora”, um revólver minúsculo, de madrepérola, dourado, com carregador cheio de balas minúsculas.

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5 thoughts on “toda a gente aqui quer-te

      1. “Too young to hold on and too old to just break free and run”… deeply beautiful

        O Grace é o melhor álbum na minha opinião.

  1. O Grace é o único álbum que ele lançou vivo, o Sketches tinha várias coisas que quereria mudar, aparentemente. Esta música certamente não seria uma delas. Curiosamente, apesar de gostar mais do Grace que do Sketches, o I know we could be so happy baby (if we wanted to be) foi sempre a música que mais sentido me fez dele.

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