médicos e enfermeiros dos hospitais públicos vs privados

Na poucas interacções que tive com o mundo da saúde, quer como utente (ou cliente no caso dos privados), quer como acompanhante de pessoas em estado demasiado grave para irem lá sozinhas e com algum grau de ligação afectiva à minha pessoa (ex: o meu pai com um tumor cerebral), foi-me permitido observar uma diferença nítida entre profissionais do mundo privado e do mundo público.

Vou abster-me de questões de organização e instalações, até porque há diferenças substanciais entre unidades hospitalares e centros de saúde (e que obedecem ao seguinte princípio: quanto mais jovens os funcionários e mais recente a unidade, melhor a organização e o tratamento e quanto mais pessoas acima dos 40 anos que não se podem despedir por causa dos Syrizas, pior a organização e o tratamento).

Feito o preâmbulo neo-liberal (deixem-me só acrescentar que acho que deviam ganhar muito mais), mas optimista quanto às novas gerações, os médicos e enfermeiros do público dão 10 a zero aos do privado. Eu sei, eu sei que há médicos que acumulam os dois. Não sei quantos são, como isso funciona, se são todos, metade ou poucos. Mas noto o padrão ali. Sou sempre muito melhor tratado no público do que nos privados no que respeita ao tratamento médico em si. Eu sou uma pessoa que lê o Internet. E como leio o Internet, vou munido de informação. Sei avaliar.

É verdade que no público espero 3 horas para algo que no privado demora trinta minutos. É verdade que no público, como há dois dias, não consigo estar na sala de espera sem que venha a PSP acalmar os ânimos de um fanã mitroso que quer ir à tromba ao médico e que jura para toda a sala de espera que vai fazer uma espera ao médico até às duas da manhã se for preciso, porque ele chamou a PSP. É verdade que no privado tenho ar condicionado e há cartazes com famílias felizes a sorrir, enquanto que no público oiço um velho a estrebuchar numa maca no corredor ao lado e é uma confusão de portas e corredores.

Mas tirando esses aspectos que funcionam como “taxas moderadoras” para a classe média, a verdade é que no público sentimos que aqueles cabrões estão num cenário de guerra e no ritmo de cenário de guerra. Sabem o que estão a fazer pela experiência. As opções que tomam, e baseio-me na minha humilde experiência e na próxima de mim – são mais certeiras, mais preocupadas. E não sei se é dos turnos, se do caos, mas os médicos e enfermeiros perdem um bocado aquela formalidade fria dos privados e ficam com ar de malucos. Há um espírito de pragmatismo no ar, de vamos lá tratar desta merda como deve ser. E o como deve ser faz a diferença.

Há 2 dias em Santa Maria, depois de 3 horas, limpeza de feridas, ia a sair do Hospital com as canadianas e o portátil do trabalho a tiracolo. Uma senhora de bata branca, sorridente, nos seus 50’s, aproximou-se de mim e perguntou-me se eu precisava de ajuda (era evidente que sim). Disse-lhe que ia só apanhar um táxi. Então ela foi buscar uma cadeira de rodas. Sentei-me e ela foi-me empurrando até fora do hospital, que tem um recinto bastante grande, até à paragem de taxis.

Sempre que vou a um hospital fantasio com uma médica ou uma enfermeira gira. Saio pouco, não tenho tempo, o que é que querem? Desta vez tinha a lesão ideal. “isto nos pés? ultramaratona. é uma cena que faço.” Muito melhor que as hemorróidas de 2007. Pronto. Não era o caso aqui. Chamei-a de “doutora” e ela riu-se e disse que não era doutora, que era voluntária. Disse-lhe a brincar “logo vi, é demasiado simpática” e ela disse-me “não diga isso, olhe que é fantástico o que os médicos e enfermeiros deste hospital fazem todos os dias” e eu concordei, disse que de facto era e tenham em consideração que este texto já germinava na minha mente. E ela disse “é que isto não é a Grécia. Lá são todos comunistas.” e riu-se. Eu ri-me e disse-lhe que não eram todos, e ela concordou que não, mas que não havia milagres. Até me interroguei se ela por acaso não lia o meu blogue ou facebook e estava a dizer-me aquilo para me animar. Empurrou-me até ao taxi, foi muito divertido porque ela não sabia muito bem o que estava a fazer, fizemos slalom por cancelas de parques, contra mão, cruzamentos, quase fui atirado ao chão no lancil do passeio para a passadeira e vi-me perigosamente em contra mão numa avenida de três faixas. Mas correu tudo bem. Perguntei-lhe o nome e agradeci-lhe muito. Caramba. Gosto deste país. Sinto que me desviei do tema lajaljaljlashdlsa, não vou rever
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8 thoughts on “médicos e enfermeiros dos hospitais públicos vs privados

  1. Lamento pelo teu pai.
    Quanto ao que referes, só é aplicável a hospitais de uma grande urbe, porque aqui na província o estado dos hospitais públicos está tão mau que deve ir-se diretamente a Lisboa, a um privado, ou esperar que uma ambulância nos leve a Lisboa para ver, por exemplo, de um olho, a um público. E há uma coisa curiosa – no privado tratam-nos pelo nome, não nos chamam queridinho, fofinho, etc (estou a referir-me a enfermeiros, claro) que é uma cena que me irrita.

  2. não reveste mas deverias, que existem outras experiências. Não vou falar dos 2 anos do meu pai no Pulido Valente, metástases até às canelas, mas posso falar-te do meu caso, uma segunda cesariana (filhas grandes e cabeçudas), pedindo de joelhos ao decano da maternidade que me desse alta, que sentia a falta que a mais velha (nem 3 anos tinha) sentia de mim e eu dela,claro. Calado, observou-me, e à cicatriz exterior, dois ou três pontos que não queriam cicatrizar. Depois, concedeu, dizendo-me que nem me obrigaria a assinar qualquer declaração de responsabilidade, mas recomendando cuidados determinados, nas semanas seguintes. Um amor de obstetra, o mesmo que conseguiu salvar o bebé de uma amiga e a minha amiga, quando não existia tempo sequer para cesarianas: sentou-se na barriga dela e desatou a esmurrá-la, obrigando o rapaz a sair, ela chamando-lhe tudo aquilo de que se lembrava enquanto o esmurrava, nas costas, uma semana depois agradecendo-lhe tudo o que fez.

    A treta do liberalismo tresanda, por aqui, demasiado, a ‘jovens’…

  3. Da minha experiência, acho que depende do público. Quem já tiver passado pelo Hospital Santos Silva em Vila Nova de Gaia e tiver sobrevivido pode-se considerar extremamente sortudo. Tive óptimas experiências noutros hospitais públicos no Porto, Feira e Coimbra. Como sempre tive boas experiências no privado. Importante é as urgências funcionarem bem. Aquelas urgéncias para coisas a sério, não as para coisas que se tem que esperar 3 horas. Isso eu suporto bem. O problema é quando a triagem é mal feita e se tem que esperar as 3 ou 4 ou 5 ou 6 horas com uma coisa séria. E isso acontece. Em Gaia.

  4. Tenho uma amiga romena cujo hospital da área de residência é o Amadora-Sintra. Agora não tenho tempo para trocar cromos mas é o que já disseram: varia muito consoante o hospital. E a nacionalidade, o tom de pele, a maneira como falas e vais vestido.

  5. Então mas eu digo isso no post, varia muito. Mas pela minha não-representativa experiência, atenção, o que quero dizer é que acho que o pessoal médico ou enfermeiro é melhor. Mas é a minha xperiência não representativa. Já fui parar às ugências em pós operatório por uma coisa mal feita no privado. As ligaduras dos pés, feitas no privado, caíram no próprio dia enquanto que as do público tiveram de ser cortadas. Just saying.

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