este título foi mal escolhido

Canadianas. Nestes dias tenho andado de canadianas, quando ando, derivado a ter os pés um bocado fodidos. Tem piada, as canadianas é aquela coisa de que nunca nos esquecemos nos táxis ou cafés, ao contrário dos chapéus de chuva. Até quando está a chover eu sou capaz de me esquecer da merda do chapéu de chuva no restaurante e amaldiçoar a sorte de não ter trazido nenhum. As canadianas não. Nunca nos esquecemos delas. A não ser que sejamos pedintes romenos no intervalo. O que me leva aos gregos e a povos em geral que aldrabam. Os gregos não se dão bem com a cena das regras e das contas. A minha mãe (comuna maio 68 etc.) a discutir comigo ao telefone, para me provar que a Alemanha era má e a Grécia a boa, contava-me uma história que num grupo de trabalho da UE de uma amiga dela todos os países organizavam um lanche recepção, à vez. Os alemães correram tudo a bolachas insípidas e refrigerantes. E quais foram os dois países que deram o maior lanche aos colegas? O lanche cheio de delícias regionais, doces típicos, vinhos generosos e tábuas de queijos diversos e que custou uma pipa ao contribuinte? Isso mesmo, os gregos e, segurem-se, os portugueses. Estranhamente, a minha mãe contava-me isto como uma coisa negativa para os alemães e positiva para os gregos, assim como a amiga que lhes contou a história estatisticamente representativa. Não lhes ocorreu que parece aqui haver uma eventual correlação entre PIB per capita e a vontade de esfregar no focinho dos nórdicos como somos boas pessoas e a incutir-lhes sentimentos de culpa por não nos adoptarem como os animais de estimação deles. Porque é exactamente isso que os pedintes fazem. E os cães, só que os cães é sincero. Se o português é uma espécie de fiel pastor alemão que podia muito bem guardar a casa de Schauble e até puxá-lo pelas ciclovias de Berlim com  cadeirinha de rodas feita charette, os gregos são um rafeiro qualquer maluco apanhado da estrada, que nos está sempre a roer os cabos, sapatos, almofadas e a mijar por todo lado. Tumba, fechado na varanda de castigo, zangados, discutimos com a mulher, os filhos choram “não pai não, não devolvas o Zorba ao canil”. Queremos abatê-lo. Do outro lado do vidro o cão arfa a olhar para nós e ladra, tem fome, quer mais comida, coça-se, tem pulgas.

Eu por mim chegava à Grécia e divida aquilo em dois, tipo muro de Berlim ou criava lá um Israel, só que em vez de judeus era para pessoas que acreditam que em 2015 no contexto do euro e de uma economia global com livre circulação de capitais e pessoas é boa ideia ter contratação colectiva por sindicatos e nacionalizar as coisas. Chamava-lhe a “Grécia Prometida” ou “Super Grécia” ou “Grécia Com Eles no Sítio”. Fazia-se um muro bem alto porque é sabido que estas ideias costumam ser tão boas que a certa altura é preciso muros e vedações para impedir que as pessoas venham todas dos países liberais capitalistas selvagens e sobrecarreguem o déficit com impostos em dia. Podia fazer-se turismo político para lá, podiam ter um espectáculo tipo o nosso do pavilhão atlântico quando foi da Expor 98. Por exemplo, um referendo todos os dias, uma manifestação na Sintagma, com bancadas tipo marcha popular ou carnaval do rio. Os turistas votavam na melhor manifestação e as várias facções de extrema esquerda e anarquistas trabalhavam o ano todo para preparar as melhores canções, cartazes, cocktails molotov, coreografias com a polícia de choque. Mas no fim cantavam todos unidos (ganhavam sempre o referendo) e os turistas de extrema esquerda do mercado da saudade, vindos dos quatro cantos do mundo, vinham lá chorar e cantar com eles.

Do outro lado ficavam as pessoas normais e chamava-se a Grécia Boa Aluna. Teriam um ministério das finanças compostos por tecnocratas de Bruxelas e liberais, com alguns estagiários gregos que seriam devidamente reprogramados. Talvez seja difícil e sejam precisas várias gerações e manipulação genética para eliminar os reflexos instintivos de fazer greves e manifestações, dançar à maluca e mamar subsídios. Deve ser um pesadelo a vida familiar grega. Casar com uma grega politizada, um suplício. Não invejo Tsipras com a sua namorada radical de esquerda. As gregas estão sempre zangadas e mandam em tudo. Deve estar sempre a exigir direito de falar, de emitir opinião, de contar para as decisões do lar. E ele a amochar. “e vais lá, depois de meter o lixo na rua, e vais lá e dizes a essa Merkl que não aceitas mais austeridade? ouvistes? Se tu me voltas para casa com um acordo pior do que o antes do referendo, dormes no sofá mais uma semana!” Ao fim de 30 anos,  se a Grécia Prometida ainda não tivesse lançado a bomba nuclear oferecida por Putin sobre a Grécia Boa Aluna, então partia-se o muro e fazia-se uma reunificação em que a Grécia Boa Aluna impunha todas as regras à Grécia Prometida e esta adoptava o euro e tudo, toda contente, contente e boa aluna. tipo os países do Báltico agora.

Adeus, não tenho tempo para mais.

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