francesas a ler livros

Sempre tive desprezo pela nouvelle vague, mas também algum ressentimento, pois foi responsável por eu ter idealizado mulheres intelectualmente atentas às coisas, com o pequeno detalhe de terem de rivalizar com o aspecto da Brigide Bardot, Jean Seberg, Françoise Hardy ou Anna Karina que, por acaso, até são 4 das 5 mulheres mais bonitas que já pisaram o planeta.
void

São filmes que se levam muito a sério e por isso devem ser evitados, mas eu vi-os quando era impressionável e os aspectos crípticos, o “que merda é esta?”, confundia-o com “wow, isto é profundo”. Não sei se não quis ser escritor porque via nos filmes o fascínio que este tipo de mulheres deste tipo de cinema tem para com o objecto livro, mesmo que, por culpa da teatralidade da nouvelle vague, nestes filmes mulheres aparentassem ter para com o livro uma relação tão natural como por um berbequim de 1200w ligado.

seberg

Hoje já não me choca tanto a presunção intelectual deste tipo de filmes com diálogos vagos e argumentos pantanosos. São uma coisa estética, mas um bocado conservadora e mesmo chauvinista, apesar da camada de estilo. Comparo com as revoluções anglosaxónicas como a do glam rock ou penso no psychobilly dos Cramps, que estou a ouvir agora, onde a Poison Ivy é um pilar de força apesar de hiper sexualizada, e o Lux é uma extensão do Iggy Pop, em versão submissa à deusa fêmea, nem que tenha de usar sapatos de salto alto e lantejoula. E isso nasce do subúrbio atrasado americano, misturar o apócrifo, a mistura de géneros, o terror, o sexo, tudo embrulhado num enorme fuck normality que, ao mesmo tempo, não é autoconsciente e continua com níveis sérios de ironia e com um mero propósito: rock. E roll. O que nasce da nouvelle vague é isto, a bardot numa banheira a ler Pedro Chagas Freitas ou Sartre (é a mesma merda) e um gajo bruto, que naturalmente não a entende, a compor a roupa depois de lhe dar uma.

book

Sim, já sei, aparece Lang na capa, deve ser Fritz Lang, o cineasta, que tal para meta referência subtil? Foda-se.Mas posto isto, há coisa mais bonita que ver uma mulher a ler um livro, a mexer a boca enquanto lê, para formar as palavras, a parar a cada parágrafo, fascinada com a sabedoria do autor?Aqui François Hardy lê a coluna de opinião do Pacheco Pereira e concorda.

françoise

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13 thoughts on “francesas a ler livros

  1. Ora bem, finalmente o porquê dessa espécie de ansiedade em escrever um livro devidamente apresentado, com um nadicas de incongruência, pois que as garotas já faleceram ou se tornaram naquela amostra de extrema direita canídea que dá pelo nome de Bardot.

    Donde, escrever, para quem, afinal, mesmo que as tenhas entendido como ninguém?

  2. Convém não misturar tudo. O Godard não é efectivamente grande merda. O Truffaut e o Rivette são razoáveis.O Eric Rohmer é sublime.

    A maioria destes gajos foram cinéfilos e críticos ferozes antes de serem cineastas. Quando meteram a mão na massa, nuns casos a coisa resultou melhor que noutros.

    1. Se nao misturar coisas não consigo escrever um texto assim. Mas o Rohmer é nouvelle vague? não é uma coincidência cronológica? Também gosto muito dos filmes dele, não vi muitos, mas tinham sempre mulheres maduras e jovens apaixonados e inexperientes em férias de verão. Se calhar só vi um. E se calhar neste post estava só a pensar no Godard. Se calhar devia escrever sobre queijo. Eu gosto de queijos.

  3. Mnhec… Para além de soares profundamente misógino: “há coisa mais bonita que ver uma mulher a ler um livro, a mexer a boca enquanto lê, para formar as palavras, a parar a cada parágrafo, fascinada com a sabedoria do autor?”. Nem postulas a hipótese de ler um livro de uma autora nem parece passar-te pela cabeça que possa ser mas bonito “ver uma mulher a escrever um livro” enquanto tu davas à boca qual peixinho para formar as palavras e te fascinares com a sabedoria alheia. E isto é só um dos lados do problema. Enquanto leitor, considero-me pelo menos tão bonito, nos meus exercícios de leitura silente e no meu ar de fascínio, quanto a Maria Luís Albuquerque a ler o Orçamento de Estado.

      1. É um vício nosso, os da esquerdalha… As nossas lanternas (produzidas pelo sector empresarial do Estado, claro) estão sempre prontas a fazer incidir um pequeno foco sobre esse “adorar” um ‘objecto’ definido de forma tão conservadora.

  4. Mais bonito ainda é vê-las com o dedito a seguir a leitura para não se perderem na mudança de linhas, tão fofas. Esse “adoro mulheres” foi um bocado mexioso…

    1. Mas adoro mulheres, de todas as raças, todas medidas (dentro de certos parâmetros), gosto das lindas de morrer mas também das bonitas, gosto das inteligentes, das menos inteligentes que são lindas de morrer, etc.

      1. Sugiro-te a nova ‘variedade de mulheres’ que o Observador, esse pasquim dos teus correlegionários, parece ter acabado de descobrir: “Uma artista norte-americana quis quebrar rótulos e acabar com o modelo da “beleza americana”. Por isso, deitou mulheres com vários corpos numa cama de pétalas púrpura. Tudo em nome da autoconfiança.” Uma dessas “mulheres com vários corpos” talvez consiga reunir as lindas de morrer mas também as bonitas, as inteligentes, as menos inteligentes que são lindas de morrer, e até as etc.

      2. Já vi esse artigo, isso vinha no bored panda, eu não achei muito desafiador para os meus standards de beleza. De todas (não me lembro de quanto eram no total, acho que 16), pelo menos 6 ou 7 eram lindas de morrer, as outras eram bonitas e só 3 ou 4 não. É uma hipocrisia.

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