consciência

Sou calmo, mas sou uma pessoa que às vezes se irrita no trânsito com coisas e de bicicleta então, já tive algumas interacções pouco amistosas. Já tive umas namoradas que eram particularmente descontraídas, estava sempre tudo bem: “não é preciso ficares assim, ele é só um estúpido“.  Pois olhem, eu não sou descontraído. E a descontracção nessas circunstâncias enerva-me mais. É como se para além de exercerem sobre mim a violência de uma manobra perigosa, me fosse negado o direito de me irritar com isso.
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Eu admito a existência de sentimentos agressivos e amplamente contrários ao que a minha consciência me dita como sendo correcto e incorrecto, para podermos viver todos em paz uns com os outros. E existe uma diferença vasta entre o desejo e a concretização. Admito uma série de situações, nem por isso excepcionais, em que apenas a logística, a penalização legal e decorrente transtorno para a minha vida e para os meus, me colocaria um entrave a exercer violência punitiva num contexto de caçada organizada a pessoas.

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Alguns horrorizam-se com os próprios pensamentos deste género quando estes são verbalizados à luz do dia.”Não digas isso, é uma pessoa” ou fazem sempre o disclaimer de “a violência é sempre errada, mas neste caso” e segue-se uma excepção, um desabafo. Isso não atenua o desejo de que aquela pessoa tenha uma morte violenta, se possível, precedida de dor e muito medo. E isto varia consoante as sensibilidades, que chegam a ser tão superficiais como as políticas – veja-se o que sucedeu quando o terrorista de topo responsável pela morte de 3000 civis num atentado terrorista foi finalmente abatido.

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Não se trata de certo ou errado, trata-se de reconhecer o instinto que existe e o próprio eixo moral e ético e respeitá-lo e até defendê-lo em certos casos. Trata-se de reconhecer atenuantes e que as leis não são perfeitas. Há uma certa hipocrisia em assumir como excepções legais contextos como o das guerras ou de interacções entre forças de segurança e criminosos, pois isso significa que nós (civis) somos  o elo fraco, seja no confronto com a lei – que tem sempre a primazia no uso de força para nos oprimir – seja no confronto com criminosos ou seres violentos que antecipam o exercer dessa opressão sobre nós, os mais fracos, por exemplo, carregando uma arma no dia a dia.

Soldados, agentes da lei, polícias, rebeldes, civis, são seres humanos com livre arbítrio e com consciência. Ninguém é melhor, nem pior. Mas a violência exercida sobre os fracos, sobre os não-agressivos, sobre os indefesos, é o pior crime, especialmente quando exercida a frio, sem qualquer explicação que não o prazer dessa mesma violência e opressão.

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Não é o uniforme ou o regulamento ou termos como “dano colateral” que conseguem  mudar o carácter da violência de mau para bom ou justo ou legítimo. A violência é o que é, um aspecto intrínseco à existência. Com certas forças da lei, como alguma polícia americana, é mesmo o carácter extremamente “procedimental” que gera o limbo em que se exerce a violência visceral e racista, por intermédio das metáforas do “you are resisting arrest” ou “i am authorised to use lethal force”.

É como se as próprias leis criassem um limbo ético onde o homem pode exercer as suas fantasias mais negras, chegando aos extremos não só do Holocausto, mas da microrealidade de um momento num qualquer campo de concentração, entre um guarda nazi e um judeu. O meu ponto não é apresentar uma solução para o problema global da justiça, da violência, da opressão, da defesa dos mais fracos, valha-me Deus. Sei que não sou humilde, mas não me atrevo a tanto.  Mas se não consigo resolver um problema tão complexo, sei como devia ser resolvido um ou outro problema simples e não escondo que teria genuíno prazer nisso ou que abriria uma garrafa de champanhe se alguém fizesse o favor ao mundo.

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11 thoughts on “consciência

    1. até é bastante simples. Eu pagava um xis em euros para poder caçar o senhor da foto, sem sofrer retaliações legais. Mas já tivemos a discussão antes e o “qual é a diferença entre matar um rinoceronte ou uma formiga na essência da coisa” não sei se a propósito de touradas se do filho da puta do rei de espanha. Etc. não dou para esse peditório.

      1. o rei de espanha já não é esse, o actual é bonzinho e casou com a barbie e dá tau-taus nas manas, se elas os estiverem a pedir e vai buscar as filhas à escola.

  1. Não consigo compreender como é possivel o homem defender-se de ter morto aquele leão… com a defesa de que nao tinha objectivo de matar aquele, como se o nome que deram ao animal definisse um ser e não a existencia do ser em si. Todas essas fotos são chocantes, custa-me ao viver sob um manto protetor de inutilidades, ocasionalmente ser chocada com uma realidade tão distante, tão absurda e tão monstruosa. Acho que pior que a caça hedionda dessa pessoa é o ser tão desprovido de humanidade que “pede desculpa” por ter sido um conhecido ao invés de um desconhecido leão… e sim, por vezes, pergunto-me se a pena capital não existir não limita Darwin…

  2. O que me choca é crucificarem este dentista, quando há anos que se sabe que existe a “canned hunting” na África do Sul. Mate-se este, mas há mais e pelos vistos muitos turistas europeus e americanos dispostos a pagar milhares de euros para matar um bicho que é criado com o propósito de ser caçado e além disso caçado de uma forma completamente cobarde, dentro de um perímetro fechado. Se é uma tara? Claro que é. Estou perfeitamente convencida que matam leões porque não podem matar pessoas.

  3. Eu também alinho contigo. E sim, se posso evitar matar uma formiga, também evito. Ou uma barata.
    Estas fotografias dão-me vontade de vomitar.

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