baile russo

O baile russo do século XIX. Há um menina solteira em idade de casar. Os homens aproximam-se, dançam, trocam palavras. Há contacto físico rápido, amplamente mediado por regras de dança rígidas. Isto é mais do que suficiente para uma intensa paixão à primeira vista.

russo

Depois é que se começam a fazer as contas, os planos, avalia-se se é plausível e recomendável de uma forma que aos dias de hoje parece, ironicamente, contra-natura, quando é do mais elementar bom senso (o absurdo é pensar-se que a paixão inicial que move montanhas e torna as pessoas cegas vai manter-se para sempre e resolver tudo por magia).  O homem faz a corte, muitas vezes em frente à família. Criam as condições para que o homem tenha momentos a sós e possa declarar-se. Se não o fizer, que vá frequentar outros salões que há mais que fazer. E isto era perfeito para pessoas do meu tipo (incluindo os duelos), até porque os homens casavam bastante tarde e com jovens, mas infelizmente o mundo mudou.

Gosto de um dos números do comediante Jim Jefferies, aquele a propósito da mulher que levava na cara de todos os quatro ex maridos e que se queixava de azar na escolha dos homens. A história ensina-nos que há padrões com o sexo oposto que nos devem fazer reflectir se o problema são os outros, se somos nós, como no caso daquela mulher que pelos vistos não sabia calar-se em certas alturas.

Há pessoas que entre o conhecer uma outra pessoa, gostarem dela e o querer instalarem-se numa vida a dois, passam por uma série de etapas em que – do meu ponto de vista romântico – parecem vencer sucessivas barreiras de desconfiança e pessimismo.

É como quem compra um carro de uma marca desconhecida e tem de o testar a pouco e pouco, não vá ter uma surpresa desagradável e quando se resolvem a ficar com o carro, já lhe acrescentaram 100 mil km’s de rodagem – no caso do sexo não é uma metáfora descabida.

Quando se apaixonam, parecem estar num “quando a esmola é grande o pobre desconfia”. Eu não sou adepto do a mulher dada não se olha o dente, mas é como se tomasse uma decisão instintiva de sim ou não, em pouco mais do que um baile. Ninguém fica em suspenso, não vou mentir ao vendedor e dizer que quero aquele Fiat se não gostei dos interiores do mesmo.

Para mim, uma mulher num acesso de paixão arrebatadora é como um BMW de que gostamos. Não vou ser esquisito com um Z4 polido e encerado que lê romances russos, embora pudesse preferir um M qualquer coisa ou um Lamborghini Aventator. Há sempre melhor, e há sempre escolhas erradas, podia chegar com a minha filha ao Z4 e ver que não há maneira de lhe instalar a cadeirinha de bebé e isso é importante.

O tempo não facilita essas escolhas. E em tomadas de decisão complexas sigo a regra da moeda ao ar mental. Nunca perco muito tempo com problemas que não consigo modelizar matematicamente como fazia em logística e investigação operacional. Não há problema mais complexo que uma relação entre duas pessoas. É como o menu de um restaurante desconhecido. Há mesmo pessoas (todos os meus dates desde 1999) que perdem tempo a ficar indecisos perante um menu no restaurante. Mas, se os pratos são desconhecidos, que raio há a decidir?

Tenho confiança num resultado positivo (veja-se o meu fascínio pelos duelos) ou na capacidade de me adaptar a um resultado  assim assim e torná-lo positivo (cego de um olho, Lourenskov passou a usar uma pala que lhe deu uma aura misteriosa na sociedade de s. petesburgo) ou porque nenhum resultado positivo é assim tão irreversível e dramático ao fim e ao cabo, pelo menos hoje em dia.

É um tema um pouco ridículo. Sofre-se a sério com a doença, a morte dos próximos, a violência, a guerra, a opressão ou a miséria. Tudo o resto é vida e é feliz, pouco mais do que uns suspiros e noites mal dormidas e saudades que até dá prazer sentir às vezes. Porque há melancolia que sabe bem e há outra melancolia que é só um negro opaco num vácuo e que parece que abre um abismo capaz de engolir toda a existência e essa não tem rosto ou nome.

Mas para as não-românticas pragmáticas muito bonitas (poucas, mas ainda assim um bando de aves que existe ) os românticos soam sempre a algo como desculpe tem horas que me diga, tens uns olhos muito bonitos, fazes-me rir, adoro-te, queres viver e ter filhos comigo vamo-nos dar tão bem aqui vai ser o teu escritório aqui o teu estúdio no jardim aqui é onde seremos enterrados lado a lado debaixo das estrelas aceitas? e como te chamas?

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8 thoughts on “baile russo

  1. Sempre demorei uma porrada de tempo a apaixonar-me. A minha experiência mostra-me que os homens são mais rápidos. Não há indecisão, nem processo por etapas. Sempre demorei mais tempo do que os homens parecem demorar. E sim, pareces ter aquela volatilidade que esgota num ápice e que pode levar uma mulher a retrair-se. O problema não são os românticos “tem horas que me diga”, são os que, quando informados das horas, já não querem saber do nome.

    1. Não sei se os homens, em geral, são mais rápidos a ficar mesmo apaixonados, mas era preciso agora desconstruir o comentário todo passo e passo e eu próprio caio em contradições ao pensar nisso, como me acontece quando penso demasiado numa coisa e nas implicações dessa coisa.

  2. Este post parece ter sido escrito para mim visto que vivo actualmente o dilema… Comprei BMW’s no passado que se revelaram vir com defeitos de fabrica pelo que jurei que iria acumular bastantes km’s na proxima viatura antes de me comprometer ah compra. Pois… Caiu-me inesperadamente no colo um reluzente Aston Martin que quero muito registar em meu nome mas, e o meu pessimo track record do passado? O que fazer, Dr. Bray?

    1. Se não fores muito bonita e/ou não vais para jovem, é melhor registares esse já. Se fores bonita e/ou jovem, não é tão dramático e urgente e podes pensar mais uns tempos. Se fores muito bonita, é melhor escreveres-me (c/fotografia) para aconselhamento mais personalizado.

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