o fardeau (digo isto há anos)

Vronksi queria agora escutá-lo e saber o que ele lhe diria.
– E aqui tens a minha opinião. As mulheres são o principal obstáculo na actividade de um homem. É difícil amar uma mulher e fazer alguma coisa. Há para isso um meio de amar sem estorvo… o casamento. Como te hei de dizer aquilo que penso – disse Serpukhovskoi, que gostava de comparações – , espera, espera! Sim, é como carregar um fardeau e só é possível fazer alguma coisa com o fardeau amarrado às costas… é isso o casamento. Senti isso quando me casei. De repente fiquei com as mãos livres. Mas ao transportar consigo esse fardeau sem o casamento, as mãos ficarão tão cheias que não se pode fazer nada. Olha para o Mazankov, para o Krupov. Arruinaram as suas carreiras por causa das mulheres.
– Que espécie de mulheres! – disse Vronksi, lembrando-se da francesa e da atriz com as quais se tinham ligado os dois homens referidos.
– Tanto pior. Quanto mais sólida é a posição da mulher na sociedade, tanto pior. isso é já não apenas carregar o fardeau nas mãos, mas arrancá-lo a outro.
– Tu nunca amaste – disse Vronksi em voz baixa, olhando à sua frente e pensando em Anna.
– Talvez. Mas tu lembra-te do que eu te disse. E mais: as mulheres são todas mais materialistas do que os homens. Nós fazemos do amor algo de grande, e elas são sempre terre-à-terre

– Anna Karenina, Lev Tolstoi, tradução António Pescada

Hoje no século XXI, com a emancipação da mulher, tendo esta também carreiras e às vezes sonhos e ambições, o raciocínio de Serpukhovskoi parece misógino. Contudo, mesmo no século XIX, é preciso não confundir as palavras dele com as de Tolstói, como infelizmente sucede em tantas colecções de citações em que os nomes dos autores adoptam o discurso de uma personagem.

No contexto do romance o próprio Serpukhovskoi aparece apenas, e fugazmente, para agitar diante dos olhos de Vronksi o pragmatismo da vida focada na carreira. O próprio Serpukhovskoi admite que talvez nunca tenha amado, mas isso não o parece angustiar, visto que é um general com uma carreira auspiciosa e sente-se feliz.

A 1ª parte do discurso é menos discutível embora uma actualização aos dias de hoje, nos casos de mulheres pragmáticas e com desejos de carreira, seja qual for o género portanto, e alterando o termo “casamento” para algo como uma relação a dois, namoro, união de facto – visto que no século XIX não era possível um casal viver uma vida em conjunto integrados na sociedade sem estarem casados – o raciocínio tem toda a validade e estou certo que para Tolstoi, homem cristão, também tinha. Aquilo de que Serpukhovskoi fala aqui é de um amor impossível de assumir e levar para dentro de uma rotina, de uma nova vida estável, mas sim como algo que por vários motivos está condenado a ser marginal e por isso nunca inteiramente resolvido e pacificado.

Não seria tão pragmático como Serpukhovskoi, até porque não tenho a ambição de Serpukhovskoi, mas se um namoro / casamento com uma miúda atinada pode ser muito bom e produtivo, a paixão no limbo consegue ser um fardeau terrível, terrível, seja para o homem ou para a mulher.

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One thought on “o fardeau (digo isto há anos)

  1. Disse isto a uma amiga hoje: uma relação não tem de ser uma prisão, às vezes são as próprias pessoas que se prendem e depois choram porque não são felizes.

    O que é uma miúda atinada?

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